Ironias..

Ontem, aconteceu uma coisa muito engraçada. Sai de casa com minha prima para encontrar uma amiga la na beira do Tamisa. Depois de um certo desencontro, certo stress e de nos perdermos um pouco, resolvemos caminhar ao inves de ir ao ta bar. Começamos a caminhar, em direção a ponte de “vauxhall” ( não sei se esse e o nome da ponte), e quando estávamos quase chegando perto dela para cruzar para o lado norte de Londres, fomos abordadas por um senhor.

O senhor estava vestido de terno muito alinhado, xadrez, em vários tons de verdes, lenço no bolso, e falava com alguem pelo telefone. Achamos que queria uma informação e paramos. Ele para la de galanteador, quis saber de onde eramos. Contei que eramos brasileiras, e ele me pediu para ” educa-lo” sobre o brasil. Naturalmente, ele nao esperava que eu fosse responder seriamente, pois assim que comecei a contar um pouco sobre a historia e colonização do brasil ele mudou o assunto para a beleza das brasileiras. Minha prima, queria fugir na primeira rua, mas eu como sempre, achei que o coitado devia ser solitário e resolvi ficar conversando com ele, ou melhor deixando ele falar.

E ele foi falando, teatralmente, tirou um lenco do paleto, fingiu umas lagrimas de emocao.. e eu tentando nao rir, e ao meu lado a minha prima estava absolutamente muda. De repente ele me perguntou por que eu falava ingles bem, e quando eu respondi que tinha estudado no eua, ele quis saber o que. Contei que era antropologia, e ele mais uma vez me pediu para”educa-lo”. O que significava a palavra? Eu nesse momento ja me sentindo na pegadinha do faustao expliquei que antropologia, queria dizer estudo do homem. Uma ma escolha de palavras pois o velho, respirou fundo, com enorme prazer tirou um lenco branco, deu uma girada nele e disse ” perfeito porque eu sou homem!”. Tentei explicar que eu queria dizer humanidade mas a essa altura o homem que de comeco nao era dos mais contidos se liberou de vez. E ele ia falando, e ia abordando a minha prima que timida por natureza permanecia muda, e eu ia tentando guinar a conversa para uma coisa seria. naturalmente sem exito.

Quando chegamos quase no meio da ponte ele interrompeu o que eu dizia para dizer que tinha conhecido muitas pessoas que ja tinham pulado daquela ponte naquele lugar. “Pronto”, disse minha prima, “ou ele pula, ou ele nos joga”. Eu estava mais confiante, afinal ele era velho, como ele mesmo nao deixava de lembrar, tinha 73 anos, bem vividos, uma curiosidade de vida, uma vontade de viver. As pessoas, que passavam por nos iam nos olhando intensamente, o que faz com que eu pense que ele talvez seja uma lenda viva daquela regiao. Quando perguntei seu nome, ele me disse ” no underground eu sou conhecido como o wizzard” e fora dele perguntei eu? ” freddie”. E porque Wizzard? ” Por que eles querem saber como eu faco dinheiro”. Eu naturalmente nao fiz questao de saber, mesmo porque a esta altura estavamos chegando do outro lado da ponte. E ele de repente tentou nos beijar. Um beijo no dedo dele, meio melado, vindo em minha direcao e eu disse que nao. Ele tentou tocar o dedo na minha prima que desesperadamente resistiu. Ele foi ficando tao insistente, que quando passaram 3 garotos do meu lado, agarrei- me a eles e pedi que por favor nos salvassem. O wizzard ficou parado no sinal. do outro lado da rua, como uma pintura, um dom juan meio decrepito.. E ele dizia insistentemente, “it is fate, we were meant to meet!!! It is god who put us together!!!!

Virei para agradecer o meus salvadores e vi que eles carregavam no peito um placa escrita jesus cristo. Nao quis perguntar nada, mas logo eles se identificaram como missionarios. Pergunta vai, pergunta vem, e eles vinham de Utah, e eu nao pude conter minha curiosidade ” Mormons?” Sim! Tirou um cartao e me entregou. Eram gentis, mas a Ironia era tamanha que eu tive que me controlar para nao rir. Se o Wizzard tinha razao e foi deus que o colocou no nosso caminho, quem sera que mandou os mormons para nos salvar?

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A vida

Eu sei que faz muito tempo que eu não escrevo mas são tantas as coisas que tem acontecido, que quando eu penso em escrever fico sem saber no que focar. Mal de quem passa muito tempo sem falar nada 🙂 No entanto, esse período de digestão dos meus sentimentos talvez tenha sido importante. Minha avó, tias, e prima estão aqui em Londres, eu estive na Grécia por 10 dias com elas na semana passada, estou indo para Romenia na próxima semana, e desisti de ir a India e ao Nepal em setembro. Não por falta de vontade, mas por não poder fazer tudo já que eu escolhi ir para a Romênia passar o mês num acampamento de Yoga. E tem Yoga na Romênia?? Tem. E eh sobre isso que eu quero escrever hoje. Sobre o acampamento de Yoga na Inglaterra onde fui passar uma semana faz mais ou menos um mês.

Eu decidi ir a este tal acampamento no ultimo minuto. Tinha tido uma semana difícil, ou melhor, um ano cheio de reviravoltas, e quando eu angustiadíssima liguei para o meu professor de Yoga ele me perguntou porque eu não me juntava a eles no acampamento de Yoga. Eu nem sabia do acampamento, fazia tempos que nem estava indo a Yoga, mas eu estava tao desesperada que aceitei na hora, aceitei embarcar numa viagem no dia seguinte. Depois de horas de mudança de opinião, as 11:30 da noite do Domingo ficou decidido que eu iria para o Ashram no dia seguinte as 7 da manha.

Eu acordei nervosa, ansiosa, perdida, e sem vontade de ir. Tinha medo de me sentir totalmente fora de lugar, presa sem acreditar em nada, num lugar cheio de pessoas diferentes de mim. Coloquei minha mochila nas costas, e decidi que iria, assim como se fosse fazer trabalho de campo, como se fosse para uma experiencia antropológica.

Eu me juntei ao acampamento de yoga e meditação não inteiramente aberta a ele, mas tambem nao totalmente fechada. Eu fui meio assim por acaso e logo no primeiro dia algo aconteceu. Eu que sempre analiso rituais, simbolismos, comportamento social, talvez na tentativa de me afastar do evento, eventualmente me abandonei. Isso aconteceu num momento que dançamos juntos de olhos fechados. Eu dancei e enquanto eu dançava, e sentia as pessoas a minha volta, eu transbordei em lagrimas, em “energia” que eu não conseguia entender. Pela primeira vez nem tentei. E de repente, eu senti como se estivesse reencontrando com partes minhas que eu tinha perdido em algum lugar.

Aos poucos eu fui sendo reapresentada a criança, a mulher, a artista, a musicista etc.. Elas estavam la, mesmo eu tendo lutado tao fortemente contra elas, elas continuavam la, pedindo para sair, para respirar, para vir a tona. E eu percebi que eu nem sabia quando, ou como, ou por que eu tinha resolvido ser um dia apenas a cientista social. Eu tinha por alguma razao rejeitado a tudo que eu sou sem nem saber direito o porque. E de repente, me pareceu tao claro o porque eu tinha ficado doente. O porque eu tinha lutado organicamente contra meu cerebro. E eu senti a musica em mim, em cada celula, assim como eu nao havia sentido em muito tempo. Eu senti a perfeicao daquilo tudo, o ritmo, a harmonia, um total sentido.

Os dias que se seguiram foram importantes, as meditacoes, as sessoes de Yoga, a vida comunal, mas eu guardo o primeiro dia como o mais importante. Durante a semana, eu tive todos os tipos de pensamentos, experiencias, sentimentos, e no final eu me senti como se tivesse completado um circulo. Eu tinha comecado a constuir uma pontezinha entre as partes tao segregadas de mim.

Eu eu mudei em muitos aspectos e mudanca nao e sempre tao facil. Eu continuo me sentindo espantada com todas essas coisas novas dentro de mim que eu nao entendo direito. Eu sinto um amor enorme pelas pessoas a volta. Eh claro que eu ainda analiso muito, ainda tenho muitas duvidas. No entanto, eu sinto que o acampamento de yoga, foi o apice de um processo que comecou um ano atras com a minha doenca, e de ser apresentada ao Yoga como caminho e nao apenas posturas. O acampamento foi parte desse acordar, desse “wake up call” para me trazer de volta a viver a vida, porque enquanto eu ficava so assistindo e analisando eu estava aos poucos matando tudo o que eu sou.