O Bolo

Eu sei que faz um tempão que eu não escrevo, e de fato eu tenho um milhão de coisas para contar. No entanto, é facílimo de um milhão de coisas virar nada 🙂 Estive um mês na Romênia, e contrariando o meu ultimo post viajo sim amanha para a India.

Neste post no entanto, quero falar de um momento bonito e singelo, que eu tive estes dias enquanto voluntariava na Amrita, loja que pertence a escola de Yoga. Estava eu la tentando aprender a tocar o tibetano “singing bowl” quando uma senhora muito velha entra na loja. Fui ajudá-la a se acomodar e depois deixei que ela ficasse olhando os livros a vontade.

Depois de quase uma hora ela fez sua escolha e me entregou os 3 livros que queria ler. Livros sobre budismo, e mestres nos Himalaias. Contou -me num sotaque fortíssimo que os livros pareciam ser interessantíssimos. Expliquei que eu ainda não os tinha lido, e curiosa como sempre perguntei de onde ela era.

Ela respirou fundo, me olhou bem dentro dos olhos, e disse “eu me sinto uma cidadã do mundo. Eu nasci na polônia, mas na época da guerra viramos refugiados “. Perguntei se ela era Judia, mas ela me explicou que nao ( oque me fez relembrar que muito mais gente sofreu), que seu pai era médico e como se opunha ao que estava acontecendo tiveram que se exilar. A Senhora era velha, falava com dificuldade e doçura e eu comecei imediatamente, mais uma vez, a me sentir entrando na memoria de alguém, num outro tempo, numa outra possibilidade.

Foram para Rússia, não tinham dinheiro, tudo difícil, guerra para tudo que é lado. Depois para a Palestina, depois para o Ira. E eu que tenho tanto fascínio pelo Irã aproveitei para perguntar a senhora o que ela tinha achado de la.

Os olhos dela respiraram fundo, se distanciaram, olharam para dentro, como se ela resolvesse voltar até lá, naquele tempo, visitar um lugar deixado há muito, muito tempo. E aos poucos ela devagar começou a me contar.

” Eu gosto muito dos Iranianos. Eu me lembro, eu pequena, nos não tínhamos dinheiro e minha mãe resolveu me levar a Tehran para tomar um copo de leite num café. Havia uma variedade de bolos na vitrine, mas nos não tínhamos dinheiro para compra-los. Sentamos numa mesa para tomar o leite, e havia um senhor numa outra mesa. De repente ele desapareceu. E ao mesmo tempo que ele desapareceu, o garçom apareceu com um pedaço de bolo numa bandeja. O Senhor tinha me visto, uma menininha querendo o bolo em segredo, e adivinhando o meu desejo, ele o comprou para mim. Para não nos deixar envergonhadas partiu antes mesmo que o bolo chegasse a nossa mesa.”

Ela sorriu, tocada, visitando aquele momento com cuidado, olhando aquele café, a sua infância, dividindo comigo aquele momento precioso. E eu estava lá também imaginando a cor da mesa, o bolo, a menina de vestidinho, a alegria, e já me antecipando imaginava o doce na boquinha da polonesa, saboreando cada pedaço, dividindo com a mãe,a alegria nos seus olhinhos de criança…quando ela continuou.

” Minha mãe ficou comovida, mas disse não, ela não podia aceitar. E enquanto eu te conto isso me da um nó na garganta. Por que aquele momento foi um dos mais bonitos da minha infância, aquele senhor Iraniano viu que eu era uma menininha e quis me deixar feliz. E é assim que eu penso no Irã e Iranianos com o rosto daquele senhor que quis me trazer felicidade.”

Eu fiquei tão tocada, imaginando a vontade que a pequena polonesa devia estar de provar aquele bolo. No entanto percebi que na sua memoria ficaram duas lembranças muito mais fortes: a dignidade da sua mãe, e a bondade do senhor que quis trazer-lhe felicidade. E ficou claro que o bolo era o de menos. A memória da dignidade da mãe e a bondade, e compaixão do desconhecido são com certeza memórias mais doces, mais profundas e mais duradouras.

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