"Anjos da Guarda"

Semana, que vem estou indo para o Brasil, e portanto, acho que vou ficar sem atualizar o blog por pelo menos um mês. Eu na verdade, não tenho muito o que contar ultimamente. Fato esse decorrente de eu estar passando muito tempo na LSE. Estava eu aqui pensando que eu queria escrever alguma coisa e o fato de não ter muito o que contar por causa da universidade me fez lembrar de uma estória muito bonita, que eu venho adiando há muito tempo. Talvez por um certo medo de não fazer justiça a estoria original. Essa estória, é a estória de como eu comecei a estudar antropologia.

Quando eu fui para NY estudar, eu tinha de fato ido para estudar cinema. Não que isso fosse uma idéia muito profunda, e pensada, foi meio por acaso. Diga se de passagem que quanto mais eu converso com as pessoas mais eu vejo como nossas escolhas por uma área são muitas vezes por acaso, por ter empatia por algum professor, pela idéia daquela profissão, as vezes até pelo lugar físico ( conheci uma menina que foi estudar na FAU pois quando era adolescente tinha visto um menino pichando o muro da FAU e achado lindo. Naquele minuto decidiu “é aqui que quero estudar!”). O engraçado é que essas escolhas lá atrás acabam definindo muito do que somos, muitas vezes sem nem percebermos. Eu vejo isso claramente hoje em dia, na minha aula de antropologia do aprendizado e da cognição. É simplesmente incrível, colocar os antropólogos, psicólogos, filósofos e neurocientistas e ate uma bióloga juntos numa classe. Nos entramos la, com os preconceitos da nossa área, com perguntas distintas, com interesses completamente diversos, e muitas vezes super passionais. E é difícil de se abrir de verdade para uma nova visão. Aliás até o fato de ter ido a uma universidade ( no meu caso nos EUA) e estar agora na Inglaterra muda tudo. Mas já divago.

O fato, é que eu tinha ganhado uma bolsa, e tinha que escolher uma área de estudo. Quando eu cheguei em NY, mandaram me falar com um “advisor”, e como o sistema de ensino é completamente distinto ( os alunos tem que pegar aulas de diversas áreas independente do major- área de especialização) ele me aconselhou a pegar aulas de inglês, teoria da música ( para satisfazer créditos de arte), cinema, e astronomia ( créditos de ciência). Bom, sai de lá, e liguei para meus pais para contar sobre o meu primeiro dia. Quando desliguei, um professor que estava ao meu lado, se dirigiu a mim, dizendo que era brasileiro, e que dava aulas de antropologia. Convidou-me então a ir assistir a uma aula dele. Perguntei sobre o que era a aula, e ele me respondeu que era sobre os Nambikwara, e outra populações indígenas da América do sul. Lembro-me de ter agradecido, dito que tentaria ir, mas pensando. ” Nossa, de jeito nenhum. Não tenho interesse nisso.”

Como a vida da voltas, acabei mudando de idéia e resolvendo ir assistir a tal aula de antropologia.

O professor, começou a aula por contar sua estória. Tinha estudado música e antropologia. E quando foi fazer seu trabalho de campo, resolveu ir estudar a tribo como musicólogo. Passou um ano com os Nambikwara e quando achou que já sabia tudo que tinha para saber sobre a música para os Nambikwara partiu para escrever sua tese. Assim que voltou a sua universidade (americana se não me engano) resolveu que queria voltar a morar com os Nambikwara, afinal, agora que ele já falava a língua poderia estudar outros aspectos da tribo mais profundamente. Queria estudar religião.

Voltou e passou um bom tempo observando. E num dia, quando finalmente sentiu que era capaz de falar o suficiente para fazer uma pergunta elaborada. Foi até o Xamã para perguntar se eles tinham esta palavra. Este conceito. Lembro-me que ele disse que levou meia hora para fazer a pergunta, explicou que religião vinha de religere, religare.. do latim.. conectar-se. Explicou sobre as religiões no ocidente. Enfim, levou um tempão, e no final da pergunta, disse ” e vocês, tem essa palavra religião?” ao que o Xamã, sem hesitar respondeu ” Claro: Música!”

Eu me lembro de estar sentada na minha mesa. Prestando enorme atenção na estória. E de repente sentir-me completamente nocauteada. Eu nunca tinha sido religiosa, mas se existia um momento que eu me sentia em outro mundo, ou conectada com algo além, era tocando, compondo. Naquele minuto eu soube que eu queria ficar. Eu queria aprender sobre outras culturas. Eu queria aprender sobre esse dialogo entre populações que tece a nossa humanidade. Eu queria conectar-me com o outro. Aprender as outras mil linguagens que explicam a existência.

Ironicamente, eu acho que é muito fácil perder esse verdadeiro interesse pelo outro na universidade. Vira meio que aquela visão do “analisador” X “analisado”. Explicações muitas vezes funcionais das outras linguagens. Isso no entanto não vem ao caso para esse post. Meu professor e querido amigo Marcelo Fortaleza Flores foi responsável por despertar em mim o interesse pelo o outro. Que eu já tinha é claro, mas um interesse num outro plano. Anos mais tarde, ele foi responsável por me fazer voltar a música. Essas pessoas que aparecem assim nas nossas vidas, meio por acaso, acabam de fato transformando quem somos. E o engraçado é que as vezes são pessoas que nos levam para bem longe do que somos, mas tenho cá para mim, que os mais transformadores, e as melhores e mais profundas transformações ocorrem quando encontramos pessoas que nos trazem para dentro, mostrando o que já intuímos (sem nem saber) numa outra linguagem.

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