O telefone

Eu estava ontem no metro quando o homem ao me lado ao sair derrubou o celular. Engraçado da aquela sensação de “ai meu deus”, querer chamar o cara e ele ja estar longe. De perceber, que na verdade, eu nem me lembrava quem é que estava ali ao meu lado. Nesses muitos trens que dividimos sem nem sorrir para o vizinho. Nessas cidades onde somos todos estranhos e encontrar um conhecido é um evento festivo.

Bom ele saiu, não vi quem ele era, mas o telefone dele estava ali do meu lado. Quase no meu colo. Eu peguei e decidi que iria descobrir de quem era o telefone e devolver para a tal pessoa. Nada mais chato que perder seu telefone, hoje em dia não só pelo telefone, não só pelos contatos, mas por todo resto que tem ali dentro. Quase que uma mini-biografia da pessoa. Suas fotos, suas musicas, o que voce escreveu, o que te escreveram, enfim um pequeno aparelho que deixa de ser só uma maquina para virar algo pessoal.

Parei na proxima estação. Obviamente eu nao podia ligar para o cara. Entao, eu tive que olhar o telefone dele. Ver para quem ele mais tinha ligado, e para quem tinha mandado mais mensagens. O telefone era cheio de fotos de mulheres semi-nuas. Nao, eu nao fiquei vasculhando o telefone do homem. As fotos eram na tela principal. quando abria, quando apertava, quando ligava.

Eventualmente eu achei uma pessoa chamada Mami com quem ele estava indo se encontrar logo em seguida. Era para essa pessoa que eu iria ligar. Liguei, e tentei explicar “Olha, eu estava sentada no metro, quando o moço ao meu lado derrubou o telefone. Eu estou em Bond street, e vou ficar com o telefone se voce quiser vir busca-lo.” Bom, levou uns segundos para menina entender do que se tratava. Quem é que estava ligando do telefone do amigo dela. Quando ela entendeu, ficou radiante, me agradeceu mil vezes e disse que chegaria ali em 20 minutos e me perguntou se eu podia esperar. Eu disse que podia.

Entrei num cafe, e enquanto tomava meu cha, contei a estoria para o atendente brasileiro. Ele se impressionou com a minha gentileza. A maioria das pessoas, segundo ele, ficaria com o telefone. Eu prefiro acreditar que não. Imagino que muita gente nao saisse do seu caminho, mas propositalmente roubar o telefone de uma outra pessoa, ainda acho que seria uma minoria. Esperei tomando meu cha e inventando mil estorias para a tal Mami, para o tal desconhecido. Imaginando quem eles seriam. Que tipo de relação teriam, enfim um filme inteiro 🙂

De repente, recebo, no telefone dele, uma mesagem dela. Tem alguma coisa estranha de ficar lendo mensagens no telefone de outra pessoa. Eu leio. Ela explica que esta chegando, pede mil desculpas. Eu tenho que escrever desse telefone uma mensagem. Nao sei opera-lo, fico entre envergonhada e me divertindo com as fotos semi pornograficas. Torco para nao ser a Mami a mulher que eu vejo enquanto eu teclo.

Alguns minutos mais passam, e ela me liga. Corro ate a esquina da Oxford Street com a James Street. Explico que eu estou ali de preto e cachecol verde. Que estou ali na frente do Body Shop. O homem ao meu lado, que entrega jornais meio olha divertido, talvez imaginando que eu estou ali esperando uma bind date. Eu espero ansiosa. Nem sei porque.

E ela chega. Linda, preta, bem arrumada, sorrindo, se desculpando. Eu entrego o telefone, ao lado dela percebo um homem indiano. Ela me pergunta como ele tinha perdido o telefone. Eu explico, assim que saiu do metro, eu acho, nao sei direito. Foi rapido. Ele abre a carteira e tira 20 libras. Eu fico meio chocada. Explico que nao, que eu nao vou aceitar dinheiro para devolver um telefone que é dele. Eles ficam desconcertados. Insitem. Eu insisto que não. Ele me pede para comprar algo para mim entao na Bodyshop. Eu digo que nao, eu entendo so agora que o telefone era dele. Ele me explica que teria sido muito mais caro para ele se ele tivesse perdido o telefone. Eu insisto que nao vou aceitar dinheiro so por ajuda-lo. Ele insiste que nao pode ir embora assim sem me dar nada. Eu peço a ele que faça o mesmo por outra pessoa qualquer que precise. Eles ainda desconcertados, me agradecem, e quando eu estou virando para ir embora, ele me pergunta: “Me diz pelo menos o seu nome?”. “Julieta”.

E assim nos separamos e eu fiquei pensando na ironia. Ele que sentou ao meu lado, sabe se la por quantos minutos. Ele que largou o telefone praticamente no meu colo. Eu que pude ver um pouco dele pelo que eu olhei do telefone para achar a tal Mami. Eu que esperei para encontra-los ali numa esquina de Londres. Precisei nao aceitar dinheiro, para que ele se interessasse um pouquinho no humano por tras da ação. Eu precisei nao aceitar o dinheiro para tornar uma ação totalmente comum e banal em uma simbolica. Será que foi meu egocentrismo de querer ser correta? Será que foi o sentimento dele de querer retribuir, ou de nao ficar devendo e que eu impedi? Sera que era a maneira, a unica maneira que ele podia expressar gratidao? Sera que era o meu jeito de me sentir bem comigo mesmo? Deve ter de tudo isso um pouco. Eu gosto de pensar, no entanto, que ali naquela esquina, nessa grande cidade ainda é possivel com completos estranhos momentos singelos e humanos.

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Dos Pintores

Eu não sei o que está acontecendo mas eu fui de não conhecer nenhum pintor para de repente estar rodeada por eles. Tudo começou com a Mounia, minha amiga marroquina de quem eu tanto ja falei, me mandando um e-mail dizendo que tinha virado pintora. Eu que não sabia que ela pintava, fiquei morrendo de medo, porque nao tem nada pior que ver um quadro horroroso e ter que dar sua opinião. Eu entrei no site dela, meio relutante, mas para minha surpresa os quadros eram incriveis. Ela comecou a pintar quando foi morar no Canada e ficou deprimida. De la seus quadros foram parar em NY, Paris, Londres, Marrocos, Oriente Medio, e quando eu cheguei no Marrocos no ano retrasado nao so a Mounia tinha sido escolhida para fazer o poster do festival de filme Africano mas tambem tinha sido convidada para expor no Guggenheim de NY.

Um pouco mais para frente eu conheci a Maryam. De quem eu tambem ja falei, pintora Iraniana talentosissima, mas num tipo de arte diferente do da Mounia. Pinta quadros que sao fotografias, e assim, por causa disso nos ultimos anos tem sempre tido seus quadros expostos na National Portrait Gallery. Eu fiquei encantada ao conhecer a Maryam, não porque ela fosse pintora, e na verdade foi muito antes de ver os quadros dela. Eu a conheci no lugar mais improvavel, um bar bem trash no centro de Londres, um lugar que nem eu e nem ela tinhamos estado antes, e nem ela e nem eu estivemos depois. Ficamos amigas assim meio que imediatamente.

Depois eu fui passar um mes na Romenia no famoso acampamento de Yoga e quando la cheguei no aeroporto de Bucareste pela segunda vez no mesmo mes conheci um pintor. Eu estava negociando com os taxistas ( ja que eu ja sabia os precos), quando fui puxada pelo italiano que tinha sentado ao meu lado no voo, e levada para conhecer o amigo dele de infancia, um pintor Romeno. Disseram-me que era bobagem eu gastar dinheiro que me levariam com prazer até a estação de trem. Usando um metodo cientifico para avaliar a proposta 🙂 eu fui. O pintor era uma figura. Um bon vivant, daqueles que vivem meio na cabeça. Queria me pintar a qualquer custo. E eu que tinha que continuar minha viagem para a costa do mar Negro, expliquei que nao podia ser pintada. Eles entao me levaram para almocar, ele me rabiscou num guardanapo, e meio a contragosto acabou por me deixar na estacao de trem.

Ai, foi o pintor Russo, para quem fui apresentada virtualmente pelo meu amigo yogi polones. E porque nao? Porque nao ser pintada? Era um part time job e como a Maryam e o Romeno ja tinham pedido para me pintar antes, isso acordou em mim uma certa curiosidade. Como seria ser pintada? Então num dia tenebroso, frio e chuvoso, eu fui parar no estudio do tal pintor Russo. Foi uma tarde divertidissima, conversamos, toquei violao, tomei cha, e fui pintada. Uma experiencia dessas incriveis que te faz mais consciente de todos os musculos, do olhar do outro, da sua respiracao, da sua feminilidade. Da relacao arquetipa, da dinamica de poder, da construcao da imagem. Um sentimento meio estranho de ter o que o outro julga a sua essencia ser ali grafado num papel. E com isso eu podia de certa forma me identificar, pois eu ja grafei muitas pessoas na minha musica.

Ai na Turquia conheci um pintor Curdo que nao falava nenhuma palavra de ingles. Toda a nossa interacao portanto em silencio. Ele timido ate na lingua dele. Observava-me introspecto, e de repente do outro lado da mesa, uma mesa com poquiissimas pessoas, estendeu a mao e tocou o meu rosto. Nao assim do nada, na verdade eu tinha olhado para ele achando que ele fosse dizer alguma coisa. E o instante para eu me lembrar que ele nao falava nenhuma lingua que eu falava foi longo demais para eu simplesmente virar como se nada tivesse acontecido. Entao eu parei, porque ele ficou me olhando. Fiquei um pouco desconcertada, numa conversa normal eu teria comentado sobre o tempo, sobre a comida, mas ali sem ter lingua eu fiquei em silencio. Olhando e entrando num certo acordo silencioso, de compreensao que nao podiamos falar. E nesse momento, quando eu estava quase confortavel com o silencio ele esticou o braco e tocou o meu rosto. Eu fiquei completamente derrubada, desconcertada. E ele olhava com os dedos o meu rosto com uma delicadeza indescritivel. O olhar de um artista. E eu a pessoa mais verbal do mundo sem poder dizer nada… Ele olhou por um longo tempo, e eu olhei o artista que me olhava, e assim como ele tocou meu rosto, assim com a mesma delicadeza ele o largou. E eu sem ter acesso a lingua dele…nunca vou saber o que ele viu.

Entao hoje, estou eu voltando para casa. Um dia lindo. O sol transbordado dentro do onibus, entrando pela janela e amarelando suavemente tudo que estava dentro. Eu olhando essa luz meio fascinada, luz que muda tudo, que aquece, que transforma, que impressiona… comecei a pensar nos pintores,… no impressionismo, em monet e debussy quando de repente um senhor bem velho ao meu lado diz ” You are a painter arent you?”. Assim do nada. Percebendo o meu silencioso, meditativo espanto ele continuo num sotaque forte “It is the way you look at the light. At everything around. It is an artist’s look.” Eu nao disse nada. Pensei em explicar que eu sou um fracasso com um lapis na mao. Mas alguma coisa ali tinha sido mais profunda do que isso. Eu sorri “in agreement”. De fato eu sou uma artista dentro de mim. Lutando sempre para ver o mundo cientificamente, mas uma artista dentro de mim. E sera que é tao distante a arte da ciencia? A contemplacao do mundo? Nao sei. Tanto faz, naquele momento aquele sentimento de “encontro” me aqueceu. Eu nao disse nada. Nao era necessario. Nem ele me perguntou esperando uma resposta. Ele so me reconheceu. E ali juntos continuamos o nosso caminho em silencio contemplando a luz.

Os Sonhos

Continuo voluntariando na escola primaria aqui em Londres. E cada vez que vou la gosto menos das professoras, e mais da criancas. O professor da minha classe é um cara legal, Sultao Khan, que diferentemente das professoras estericas nunca grita e se diverte dando aula. Eu vou la todas as sextas, nunca me disseram nada muito explicito, nunca me deram uma lista com os nomes das criancas, entao eu vou aprendendo meio assim… por osmose 🙂

Os nomes eu vou ounvindo. Nomes diferentes de criancas que vem de tudo que é lugar do mundo (há muitos filhos de imigrantes e refugiados). Um desses dias, quando eu chamei o Tamin para ler comigo, ele me olhou com os seus lindos olhos negros, e cilios enormes e disse. “Tudo bem que vc diga todos os nossos nomes errados, porque voce é estrangeira.” Eu comecei a rir, confesso que eu nem tinha percebido que minha pronuncia era tao pessima. Pedi a ele que que me ensinasse a pronunciar corretamente o nome dele. “That is not so important, Juliet.”. De fato, talvez nao seja. Eu tao pouco me importo que eles me chamem de Juliet.

A Martine, veio até a mim na primeira semana para perguntar se podia ir ao banheiro. A classe é aquela bagunca com professores que entram e pegam coisas, alunos de outras classes que vem buscar material, Mr.Khan ensinando sobre o Sherpas e a Martine, uma menininha minuscula, de pe na minha frente. Ela veio ate a mim, porque eu era a responsavel nao ocupada naquele momento. Eu so tinha que deicidir se ela podia ou nao ir ao banheiro. Por mim, claro que ela podia mas nao sabia como era a dinamica da classe, entao fiquei tentando olhar para o mr. Khan e descobrir se eu podia ou nao deixa-la ir. Ela esperou uns segundos, e percebendo a minha aflicao colocou a mao no meu ombro e disse ” Juliet, it is ok, voce tem o direito de me deixar ir ao banheiro!.” Eu fiquei desconcertada, aquele pinguinho de gente, estava nao so percebendo a minha duvida mas me amparando ali no meu primeiro dia. “Voce tem certeza disso????” eu perguntei seria meio brincando” “Tenho.” “Entao va “. Ela foi, e quando voltou veio ate a mim e disse “See I am already back”.

E eu fui entrando assim nessa classe, pelas maos das criancas, que com toda delicadeza e percepcao iam me explicando a dinamica da escola. Eu aprendo muito mais do que ensino, e essa estoria de voluntariar fica ate parecendo meio injusto, como se eu ganhasse muito mais do que dou. Eu leio, eu ajudo, eu explico, me reviro… mas oque eu masi faco é ouvir. E estar ali para aquelas criancas que tem um milhao de coisas para contar e ninguem muito que preste atencao é simplesmente incrivel! Entao, quando o Mr.Khan contou que eu ia passar ferias no Brasil, o Severum veio me abracar e me me dizer para voltar logo. Depois que ele veio, vieram todos. Com varios conselhos importantes do que eu devia fazer e evitar enquanto estivesse longe.

Voltei, semanas depois achando que eles talvez eles nao lembrassem de mim. O sorriso no rosto eh daqueles que desmonta. Mr. Khan perguntou se eles queriam golden time ( brincar) ou conversar comigo. Quiseram conversar comigo para saber do brasil. Um milhao de perguntas. Tem borboleta? E arco-iris? E que tipo de bicho? “Micos, Tucanos, Araras, “Leopards”, eu disse” . ” Eu acho que o que vc quer dizer é “Jaguar”, pq os “Leopards” vivem na Africa me explicou o Cecai. ”

Faz umas semanas eu tive que ir embora mais cedo porque eu tinha uma aula. Expliquei que eu tinha que ir a aula e de repente as criancas me olharam em total espanto. “Do you go to school???” Eu confirmei. Eles ficaram perplexos. Incredulos. “Juliet, are you an ADOLESCENT????”. Percebi que tinha usado a palavra errada e expliquei que nao. Eu ia a faculdade. Achei que com isso eu fosse acalma-los. O olhar se tornou ainda mais de fascinio. “do you go to the UNIVERSITY?????”. Sim eu disse. “Wow. I dont know anyone who goes to the University!!!” Todos iam repetindo isso.

Essa sexta, semanas depois dessa conversa, quando eu tava indo embora o Tamim veio me perguntar se eu tava indo para minha aula. Eu disse que sim. Eu que to meio cansada do meu mestrado, disse que sim. “you know what …my neighbour goes to the University too!”. Ele me disse com todo orgulho. “Does he?”. Eu perguntei. “Yes! and I told him about you! Now I know 2 people in University!!!” Quem me conhece sabe que eu tenho os meus criticismos sobre escolas em geral. Inevitavel sintoma de quem ja fez muita aula de antropolgia e de post-colonialism. Mas o Tamim, me desmontou. “Juliet, I am going to go to University too! You know why? . No why? ” Cause I want to meet people like you, and learn all those things that you know.”

Eu queria ter explicado para ele, que ele nao precisava ir a universidade. Que aquela percepcao, que aquela docura e gentileza tao valiosas nao eram ensinadas. Que tudo isso a gente as vezes vai perdendo nas escolas, nas universidades da vida. Que la nos mandam sentar bem quietos. Ficar calados. Reproduzir ideias dos outros. Atacar pensamentos. Eu queria dizer para ele que eu aprendo muito mais ali numa classe de criancas de seis anos. Mas eu nao disse, porque com todos os seus problemas as escolas sao lugares de encontro. De aprender a lidar com o social. Com o abstrato. Com os livros.Aprender sobre outros mundos. E talvez essa troca seja isso. Eu vejo nele o meu ideal de pureza, de bondade, e ele ve em mim alguem que ele acha que eh admiravel, alguem que vem de um mundo de misterio, alguem da universidade. Talvez estejamos os dois errados, talvez nao. O mais provavel é que estejamos na metade. Mas ali eu abandonei o meu criticisimo a toa.. para permitir so o sonho. Afinal de contas, oque seria do mundo sem os nossos sonhos?

Drury Lane

Ontem eu fui assistir ao show da minha grande amiga e talentosa cantora/compositora Sabrina Rabello. Eu conheco as musicas tao bem, que um desconhecido ao meu lado, ate me perguntou como eh que eu sabia todas as letras. Eu pude contar a ele com um certo orgulho que a Sabrina aquela talentosa belissima mulher, doutora em fisica, compositora,e cantora era uma das minhas melhores amigas.

Para mim cada show da da Sabrina eh tocante. Talvez porque ela tenha vindo de outro mundo, talvez porque ela tenha se rendido a musica tarde. Ela estava fazendo seu doutorado em matematica aplicada e fisica quando resolveu comprar um piano ha dois anos atras e comecar a compor. Assim, como ela mesmo explicou, terapia para doutorandos que nao podem se permitir terapia.

E dessa compra veio o mundo de musica e letra que existe dentro dela. Eu entendo esse sentimento bem. O que eh ter um mundo dentro e ter que que encontrar algum veiculo para coloca-lo para fora. Simplesmente para nao explodir, simplesmente para tansbordar um pouquinho. E em apenas dois anos, ela coloca de maneira tao irreverente, tao profunda, tao verdadeira que arrebata.

Eu tenho as minhas musicas favoritas eh claro. Na verdade, sao quase todas favoritas. Mas eu escolhi colocar Drury Lane aqui porque eh a musica que fala do escritorio onde a Sabrina fez o seu doutorado. Onde ela teve suas duvidas existenciais, onde ela vivia rodeada por muitos que mesmo tendo suas proprias questoes particulares imagino que nao devem chegar nem perco de entender a intensidade daquela mulher. E que mulher…

Eu coloco Drury Lane aqui para lembrar a todos nos que mesmo de um doutorado de fisica pode se passar a musica. Drury Lane eh para mim a musica que nos lembra que assim como na Turquia muitos mundos coexistem. Eles estao ai, em equacoes, em notas, em palavras, ligados por portas invisiveis. E eh necessario as vezes ter coragem de procurar essa porta pouco “credivel” para entrar num outro mundo que ja eh seu. Um mundo pelo qual sua alma ja suplica. Procuremos a tal porta, tenhamos a coragem de fazer a travessia..mas lembremos tambem que nao eh necessario fechar a porta, deixemos a aberta pois afinal de contas todo o resto ainda existe.

Full Circle :)

Parto de Istanbul em algumas horas, e mais dificil do que chegar até aqui é ir embora. Cheguei ha mais de uma semana, e exausta como relatei no meu ultimo post fui parar no aniversario de Nesli num pequeno restaurante. Ontem, voltamos la, para encontrar meus novos amigos e despedir-me. Um circulo completo. O Lonely Planet não deve considerar que em Istanbul eu estive… nao fui a um Hamman turco, nao fui ao Grand Bazar, nem a Mesquita de Souleimane ( estava fechada). Eu fiz é claro algumas coisas turisticas, visitei mesquitas lindas, a Haya Sofia, Sulthanamet, a Cisterna??. O que eu mais gostei no entanto foi de andar pelas ruas, cruzar o bosphorus, e conhecer a vida das pessoas que eu encontrei.

Não aquela vida que se imagina, de veu, e conservadora. Não, eu conheci os ativistas, quem lutou pelos direitos para os gays e os conseguiu. Eu conheci os dancarinos, os artistas, os arquitetos, os pintores, os yogis, os musicos. Eu participei de um workshop de consciencia corporal e danca, pude ouvir musica tradicional e ver como o corpo dos outros de outras culturas se movem diferentemente ao meu.

Eu conheci os inumeros cafes, e bares, tao mais aconchegantes dos que os que eu conheco em outras partes do mundo. Lugares desses que so se chega com quem aqui mora, porque eh sempre atras de uma rua, pegando um elevador, descendo uma escada, abrindo uma porta e entrando em outro mundo. E sao tantos os mundos que aqui co-existem.

Eu ainda escrevo mais precisamente depois. Agora é só para dizer que Istanbul é para mim as pessoas que eu encontrei. E nessa interacao maluca das pessoas fazerem o lugar, e o lugar fazer as pessoas descobri muitas coisas sobre mim. Por que distante do conhecido a viagem para dentro é mais facil. Em meio a muita fumaça, a um calor humano inacreditavel, enorme e contraditoria tolerancia existe Istanbul. Assim dividida entre a Europa e o Oriente Medio. De modernos e liberais, e conservativos e religiosos. Assim, cruzando de um lado para o outro, observando, encantando, guardando para si muito do que os por aqui passam essa cidade maluca vai se criando.