Na Teoria

Semana passada fui a Oxford visitar dois amigos meus. Andrew, que estudou comigo em Amsterdam, e Francois que eu conheci aqui na Inglaterra. Engraçado, eu sempre soube que o Andrew tinha estudado estudos religiosos mas so na semana passada que eu fiquei sabendo o nome exato do mestrado dele. O Andrew fez um mestrado sobre Misticismo e Esoterismo Ocidental. E eu só descobri isso porque tinha resolvido apresentar o Francois que esta fazendo post doc em matematica e fisica (ainda nao conhece ninguem) ao Andrew.

Foi divertidissimo. Fomos juntos jantar no restaurante do Jamie Oliver, e o François que se interessa por questoes metafisicas ficou impressionadissimo de um mestrado desses existir. Todos nos comecamos a fazer mil perguntas. Alguns com perguntas mais pragmaticas do tipo “o que fazer com isso depois?” e outros com perguntas mais teoricas. Relembramos do primeiro dia em que conheci o Andrew na Universidade de Amsterdam, dele me contar que estudava “religious studies”, e de eu perguntar incredula ” But are you a believer?. No nosso primeiro dialogo Andrew me disse ser um “believer trapped in the de body of an atheist” e eu disse a ele que eu era “an atheist trapped in the body of a believer”. É claro ficamos amigos. Depois disso tanta coisa se passou. Lembramos nos de como ele tinha me levado a uma yoga para la de estranha. E de como ele ultra ingles, filho de lorde, tinha acabado sendo meu “dupla” num exercicio de massagear a bunda do parceiro com o pé. Tudo isso narrado por uma romena que estava substituindo a professora original de yoga que tinha, prestem atencao ao detalhe: tido um “nervous breakdown”.

De la para ca o Andrew ja me levou a outra yoga, a casa dos lordes, ao templo hindu, a lugares incriveis em Amsterdam. Estivemos juntos em acampamentos, em restaurantes, enfim, o que comecou com um super desconcertante encontro virou uma grande amizade. Por isso eu queria apresenta-lo ao Francois que chegou ha pouco tempo em Oxford e quase nao conhece ninguem. E foi tao engracado coloca-los os dois ali frente a frente, tao diferentes mas com tantas das mesmas buscas e perguntas. Estranho, mas só até eu me lembrar de uma estoria muito engraçada que o Francois tinha me contado. Ele contou de quando ele foi explicar para uma amiga da mae dele o que ele estudava. Contou que estudava alguma coisa do tipo “analise das equacoes matematicas na fisica teorica”. Segundo ele, a mulher ficou muda, mas depois de um certo desconcerto ela perguntou “mas afinal o que eh essa fisica teorica?? por acaso é aquela fisica que nao funciona?” Ele falou que ate perdeu o folego de tanto rir. Eu tambem, mas relembrando o encontro dos meus amigos tao improvaveis, eu pensei nessa mulher, de fato na teoria as coisas nem sempre vao tao bem é melhor ver na pratica.

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Meu Irmao

As vezes quando o tempo passa rapido demais, e eu vou fazendo coisa atras de coisa me da uma sensação de não estar tendo tempo de interiorizar quase nada. Ou melhor, parece me que quando eu nao tenho tempo ou vontade de pensar sobre os eventos analitcamente é como se elas nem tivessem acontecido. Aconteceram, eles me mudaram e só quando eu entro no meu blog buscando um tema para escrever é que eu eventualmente percebo o que é que eu quero colocar para fora para poder de uma certa forma revisitar. Assim, como quase tudo na minha vida, pouco planejado, e parecendo mais uma consequencia inevitável, de alguma coisa que antes eu também não planejei:)

Entao, hoje eu queria escrever sobre minha viagem a Paris na semana passada, que na verdade, nao foi bem visitar Paris. Nao que eu nao ache Paris bonita e etc e tal, mas dessa vez eu nem estava com muita vontade de sair de Londres. Essa vez eu fui para acompanhar meu irmão que depois de terminar com a namorada veio me visitar. Fomos para Paris assim, como poderiamos ter ido para qualquer outro lugar. Ele para fugir de dentro da cabeça, eu para tentar tira-lo de la. Bem tolo é claro, como se nao fossemos juntos para todos os lugares onde vamos 🙂 Mas eu resolvi leva-lo a Paris. La tenho amigos. Dentre eles um muito especial de quem tanto ja falei: Marcelo Fortaleza Flores.

Fui tambem para assistir seu filme Claude Lévi-Strauss: Auprès de l’Amazonie do qual tanto ja tinha ouvido falar. Assisti-lo foi sem duvida um momento muito tocante. Foi reconhecer ali tantas das coisas que eu ja tinha ouvido o Marcelo falar, ver as imagens das cancoes que eu compus para ele.

Entao fizemos coisas turisticas é claro. O dia estava lindo. E meu irmao e eu caminhamos, e caminhamos, e falamos obsessivamente, e calamos com a mesma obsessao. Numa certa hora na margem do Sena, nos demos conta que talvez nunca tivessemos passado tanto tempo juntos. Faz pelo menos uns oito anos que nem se quer moramos no mesmo continente. Primeiro eu na Australia ele no Brasil, depois ele na Nova Zelandia eu no Brasil, entao eu em NY, quando eu fui para Amsterdam ele chegou nos EUA para fazer universidade, depois eu vim para Inglaterra e ele voltou para o Brasil. Lembramos das tragicas vaigens em familia, onde todos nos brigavamos, onde todo mundo tinha um ideal diferente construido do que devia ser uma viagem em familia. Cada um de nos sempre frustrado. Rimos de tudo isso ali andando na beira do Sena.

Conheci alguns dos seus amigos, ele conheceu os meus. Tao diferentes, de mundos tao distintos somos. Eu que nao como carne, e ele que nao come vegetal. Eu que gosto de arte e ele do mercado financeiro. Ouvimos juntos o marcelo contar sobre os Nambiquara. Tribo indigena onde os nomes das pessoas sao secretos. Ouvimos ele falar da importancia do segredo de proteger na verdade o que ha de mais importante. Ouvimos ele contar da mulher que dizia que existimos no olho do outro, quando o outro fecha o olho, voce nao esta mais la. Foram tantas as conversas, foram tantas as estorias.

Meu irmao foi embora e de todos esses anos essa é a vez que eu sinto mais falta dele. Eu acho que na verdade eu nem o conhecia direito. Nunca tinha dado tempo. Durante todos os anos que moramos juntos estavamos ocupados demais com as nossas diferencas. De todos os anos que moramos separados sobrava tempo demais para pensar no que era que nos fazia semelhantes, com tempo demais tudo é adiado. Dessa vez nao, ali na beira do Sena, aqui na beira da minha cama, nos metros, nos onibus, nos avioes, nos encontramos. As vezes em encruzilhadas, as vezes nos acostamentos, as vezes no meio do caminho. E tanto faz a circunstancia o importante é que nos encontramos.