O Brasil na Tailandia

Ontem fui visitar meu amigo Maciek, meu amigo Polones, que de fato vive como um yogi. Ele é uma dessas pessoas de bondade inacreditável. Uma dessas pessoas que exalam compaixão, paz, calma. Quando eu passei um mês na Romênia ele me alimentou praticamente todos os dias. Vendo como eu me alimentava pouco e mal, me convidou para ir como ele a pequena feira da cidade. Assisti-lo olhar as frutas, vegetais e legumes me marcou muita. Praticamente um ritual. Eu nunca tinha visto alguem ficar tao feliz diante de comida. Parecia uma criança numa loja de brinquedos.

E o Maciek escolhia cuidadosamente o que ia levar, conversava com os vendedores no quase nada que sabia de romeno, e sempre saia sorrindo. Ai voltávamos para a pousada onde ele estava ficando, subiamos para o ultimo andar, onde ficava a cozinha, para cozihar. Ou melhor, eu cantava, cortava legumes desastrosamente, e o Maciek e o Carlo cozinhavam. Eles sempre faziam comida a mais. “Caso alguem mais apareça” explicava o Maciek. E sempre, sempre aparecia.

Ontem fui jantar com ele e a Aneta ( sua namorada e minha amiga) no quarto onde eles vivem em Ealing Common. Ealing Common fica bem longe de onde eu moro, e toda vez que eu vou para la e ando pela rua arborizada onde eles vivem eu me sinto transportada para outro mundo. Parece que tudo para, é tao silencioso por la. Como sempre a comida estava deliciosa, e depois de muitas horas passsadas la, me preparei para ir embora. Assim que me levanto o Maciek me diz:

“Tenho uma coisa para voce.”

Ele me entrega uma sacolinha e dentro vejo dois livros pequenos com fotos do Brasil. Eu olho para ele meio surpresa e ele continua:

” É para quando voce estiver na Asia. Assim voce pode mostrar de onde veio. As pessoas sempre se interessam. Quando voce nao pode falar muito as imagens sao otimas. As criancas vao adorar.”

Eu fiquei ali, boquiaberta…

“Depois voce pode deixar na escola onde voce vai voluntariar.”

Eu me senti tao tocada..eu fiquei tão grata.

“Maciek, quando eu mostrar essas fotos eu vou contar de voce.”

E eu não sei se vou ser capaz de contar em ingles no meu pequeno vilarejo, mas sei que com certeza nao vou conseguir contar em Thai.. Entao eu conto aqui: que meu amigo Maciek, meu amigo Polones vai ser o responsavel por eu poder mostrar um pouco do Brasil na Tailandia

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Os Irmaos Karamazov

Estou lendo “Os Irmaos Karamazov” (IK daqui para frente) e apesar de esse nao ser o momento ideal ( tenho prova semana que vem) desde que comecei nao consigo parar. Nao que seja um desses livros que de para ler rapido, e sem parar. Nao. Os IK eh para ler devagar, para pensar. Deixar de lado, ir aos poucos, lembrar dele durante o dia, conversar a respeito. E desde que eu comecei eu nao paro de pensar no livro.

O ano passado, eu fiquei amiga de um filosofo alemao muito intenso ( eu sei redundancia) e num certo dia que eu ia encontrar o James e o filosofo estava comigo, resolvi apresenta-los. O James eh uma das minhas pessoas preferidas em Londres. Esta terminando seu doutorado em matematica, adora filosofia, e me disse uma vez categoricamente que eu precisava ler o IK. E o James nao eh uma pessoa que diga coisas categoricamente, ele vive de mansinho!

Assim que eu levei o meu amigo filosofo para o bar onde eu iria encontrar o James, e em poucos minutos eles comecaram a falar do Hubert Dreyfus. Os dois tinham baixado as aulas do tal Dreyfus, e as tinham no celular/Ipod. Eu fiquei perlexa. Como assim? Existem pessoas que tem aulas de filosofia no Ipod/cel ? Existem, e eu tinha tido a proeza de conhecer duas delas, e que ainda por cima carregavam o mesmo professor de filosofia!

Nesse mesmo dia, meu amigo filosofo tambem me recomendou ler os IK. E entao adicionaram ” Mas faca isso seguindo o curso do Dreyfus”. Confesso que no dia achei meio loucura, e passaram se meses ate eu me deparar com o IK e comecar a ler. Em poucas paginas eu ja estava fascinada. Eu me lembrava vagamente de ler lido Crime e Castigo ha muito tempo, mas acho que era muito nova para entender. De repente eu descobri o Dostoyevski, e eh claro me encantei.

Procurei o velho e-mail onde o James me mandara as aulas do Dreyfus e resolvi descobrir quem ele era. O Dreyfus eh professor de filosofia na Berkeley. Ele eh considerado um dos maiores especialistas em Heidegger, e tambem existencialismo. A Berkeley coloca muitas das suas aulas online. No e-mail do James encontrei o link. O link era de um curso do Dreyfus sobre literatura e existencialismo. Baixei as tais aulas e comecei a ler o livro.

E eventualmente comecei a ouvir as tais aulas tambem. E eh simplestmente fascinante! Quem ja leu o livro eu recomendo ouvir as aulas! Quem nao leu eu recomendo ler com o Dreyfus porque de fato o livro ganha um outro significado. Quem quiser acessar o site dessa aula na Berkeley clique aqui. E assim que agora nos somos varios os que tem o Dreyfus no Ipod. E eu aproveitei e baixei o audiobook do IK. Mais facil do que levar um livro de 1000 paginas para Asia. E nao ha a menor chance de eu ir sem eles!

Blame it On Fidel

Esse final de semana eu assisti pela segunda e terceira vez o filme “ La faute a fidel ( A culpa é do Fidel). Esse ultimo mes eu tambem assisti Black Cat, White Cat do Kusturica umas 4 ou cinco vezes. Oque me fez lembrar da minha prima Lucia que quando era criança alugava sempre o mesmo filme. Todas as vezes que íamos a locadora ela olhava, olhava, olhava e ao final de um longo tempo pegava 101 Dalmatas. Segundo ela “esse pelo menos eu tenho certeza que é bom.”. O que me deixava mais fascinada era ver como ela ficava nervosa nas mesmas partes todas as vezes que ela assistia aquele filme. Todas as vezes ela brigava com a Cruela, ela avisava os cachorrinhos, ela torcia, ela se angustiava, e todas as vezes que o filme terminava ela estava feliz. Quem ja assistiu filme com criança sabe que é assim, cinema então é a maior gritaria. Quem ja contou estoria sabe que a estoria nao pode variar nenhum pouco da versao que voce contou antes.

E de fato, sempre me parece que prazer vem do “reconhecimento”. Tenho a impressao que nossa paciencia para sentir o “reconhecimento” vem diminuindo. Eu sempre penso nisso quando vejo a evolucao da musica. A musica classica ela é dificil para muita gente porque o momento do “reconhecimento” demora tempo a aparecer. Quem gosta de musica classica sabe que os temas reaparecem, em outros tons, meio mudados mas eles retornam, e aquela nossa ansia de d re-escutalos, ou de resolver uma nota que se estende por um longo tempo ate se resolver é eventualmente saciada. No Jazz, eu sinto a mesma coisa, especialmente em solos de bateria, onde o ritmo se quebra, e voce sente aquele desconfortável tensão de se sentir meio perdida. De repente tudo se resolve e voce se sente de novo no ritmo. Hoje em dia os momentos entre tensao e resolucao sao geralmente menores. Na musica isso me parece bem claro. Nos filmes tambem. É como se fosse tudo meio que uma maquina de criar reacoes quimicas rapidas no corpo. Como um enorme circo de soleil onde tudo acontece ao mesmo tempo, e tudo esta tao a beira de “colapsar” que nós os ouvintes, expectadores ficamos ali desesperados por uma resolução. Ficamos viciados nessas gratificações quimicas.

Assim, que assitindo varias vezes os mesmos filmes esses dias, eu me lembrei de como é bom as vezes prestar atencao nos pequenos detalhes. Aqueles que sem duvida nenhuma passam despercebidos na primeira vez. Na segunda voce compreende mais o sentido. E na terceira fica evidente o trabalho de quem esteve ali por tras. Os sentimentos, as mensagens que foram provavelmente intencionalmente comunicadas, as que foram acidentais, etc. E “A Culpa é do Fidel” é um desses filmes. Um filme assim doce. Conta a estoria de uma menina de classe media alta francesa que ve seus pais virarem comunistas durante os anos 70. A estoria, para mim é muito mais do que isso. É a estoria da enorme capacidade das crianças de se apropriarem do mundo, de buscarem sentido, de tentarem encontrar seu lugar. São elas que fazem as perguntas pertinentes, as que não tem respostas fáceis, as que os adultos tao perdidos num mundo de ideologia não conseguem nem captar. Para mim, o filme mostra também como nossas escolhas são tao moldadas pelas nossas vidas pessoais. Como nossas culpas e nossa lutas são tao intimamente conectadas. Como as lutas internas não resolvidas alimentam a irritação como o mundo exterior, como fomentam as revoltas, batalhas muitas vezes em lugares distantes.

A menina assim como minha prima busca a segurança da repetição. Com a mudança radical de estilo de vida ela fica perdida. Jogada para cima e para baixo de casa em casa, de babá para babá, de pergunta para pergunta. E através do filme ela vai tentando organizar, ela cria o seu cantinho, ela vai trabalhando os seus sentimentos, suas duvidas, suas idéias, sua relação com seu irmão, com sua família. E para mim, ela parece se encontrar na estorias do começo do mundo. Ela tenta fazer sentido do mundo com as estorias que ela ouve das suas babas. Ainda que as estorias mudem, ainda que as babás desapareçam sem muito aviso. Anna, vai empiricamente encontrando o seu lugar.

Na Asia de La

Dia 10 de Junho eh minha ultima prova na LSE, dia 11 eu embarco para Tailandia.” You couldn’t go any earlier, could you Jules?” Disse um amigo meu. Errado ele, a prova eh durante o dia e eu quase comprei a passagem da noite do dia 10. No fim, achei que era melhor nao ter que me estressar duas vezes no mesmo dia 🙂

Vou passar 3 meses no Sudeste Asiatico e ainda nao tenho muitos planos. Sempre quis ir viajar sozinha pela Asia meio sem destino. Mas esse sem destino eh quase que impossivel, porque assim que eu compro o tal do guia eu ja vou vendo um monte de destinos. A ideia mesmo do sem destino, eh saber que o destino pode ser mudado la, de acordo com as informacoes de outros viajantes. Assim como eu fui parar no Peru quando cheguei em La Paz. Entao, o meu plano eh inicialmente Tailandia, Laos, e Cambodia, mas pode virar um unico lugar na Tailandia, ou de repente ir ate Malasia, ou quem sabe ate o Vietna.

O que eu sei eh que chego em Bangkok dia 11 de Junho, e parto de la no dia 11 de Setembro. A outra coisa que ficou decidida com a compra do meu LP eh que eu vou voluntariar. Eu ja estava com vontade de voluntariar e quando li sobre projeto Volunthai no LP me inscrevi.

Eh um projeto de um casal Thai/Americano onde voluntarios ensinam ingles a criancas do nordeste da Tailandia ( a area mais pobre e menos visitada). A ideia eh morar com uma familia local, e dar aula 4 horas por dia. Os finais de semana sao livres para viajar, aprender sobre Budismo, e outras atividades. Na minha aplicacao eu tive que escolher entre vila, e vilarejo rural, e no momento de curiosidade antropologica, e coragem eu optei pelo vilarejo rural. “hopefully there will be someone who speaks english there” estava escrito em algum lugar.

Como tenho estado bem ocupada estudando e trabalhando nao tenho tido tempo de estudar mais a fundo a cultura tailandesa e nem tao pouco um pouco de tai. Estou eh claro ansiosa, curiosa, e confessi com um pouquinho de medo, pois eu nem sequer imagino como deve ser morar num vilarejo rural onde eu nao vou entender nada.

O meu segundo plano fixo eh ainda mais complexo. Eu prentendo fazer um retiro de meditacao Vipassana em Chiang Mai ( norte da Tailandia). O retiro inteiro dura 26 dias, e o minimo que se pode ficar sao 10 dias. Eu na verdade estou torcendo para conseguir ficar depois do segundo dia 🙂 10 eh meu objetivo, mas apesar da minha enorme vontade de fazer esse retiro, eu reconheco que deve ser dificilimo. Sao dias de apenas meditacao e silencio. Dias que comecam cedo e terminam tarde.

Por definicao qualquer pratica contemplativa ( como a meditacao), eh uma pratica de suspensao das atividades analiticas, e discursivas do cerebro. Por isso num retiro de Vipassana ( que eh tambem conhecida como mindfulness)alem de nao falar, as pessoas devem evitar pensar analiticamente, ou imaginar, ou ler, ou qualquer coisa que tire voce do seu objetivo de contemplar a mente. E eh claro que isso eh dificilimo para nos ocidentais! Por isso queridos amigos aceito todo o pensamento positivo para eu aguentar passar os primeiros dias que sao eh claro os mais duros!

Eu andei lendo muito a respeito de meditacao, e particularmente de Vipassana. Muitos laboratorios neuro-cientificos tem estudado meditacao e praticas contemplativas. Eh impressionante os efeitos para o cerebro e corpo. Ha estudos que mostram desde controle de depressao sem remedio, melhora de sistema imunologico, ate o nao afinamento do cortex com a idade. Para quem tiver interesse nesses estudos assistir esse video.

Bom. Por enquanto eh isso. Eu eh claro pretendo manter o blog ativo la da Asia de la. Durante o meu voluntariado deve ser mais facil. Ja no meu retiro impossivel. Se alguem tiver sugestoes de lugares imperdiveis, ou furadas evitaveis nao hesitar em me contatar 🙂 E agora de volta aos estudos!

Das Viagens

Este é o terceiro ano que trabalho part time de vigia de prova na Birkbeck College. O trabalho consiste em dar uns 5 minutos de informacao, e depois, bom oficialmente acho que era para vigiarmos, mas o que acontece mesmo eh que como a maioria dos vigias sao doutorandos e mestrandos, portanto passamos o tempo todo a ler e estudar. Nada mais conveniente.

Na minha primeira sessao de de trabalho ha tres anos atras, eu trouxe para ler o guia Lonely Planet do Marrocos. Quem trabalhou comigo foi um rapaz silencioso que nao disse nada nesse primeiro dia. Depois conversamos mais ele me contou que era da Argelia, e que fazia doutorado em economia, falou da tese essas coisas.

O ano passado quando encontrei com o Karim numa prova eu estava lendo o Lonely Planet da India. Ja me conhecendo melhor dessa vez ele nao hesitou.

– Jules, eu nao me conformo o que eh que voce quer fazer nesse lugares caoticos?

Eu fiquei meio surpresa. Ele entao continouou:

– No ano passado voce foi para o Marrocos, agora voce quer ir para a India???

– Karim, voce é Argelino como pode dizer isso?

– Ueh posso dizer com toda propriedade, de zona ja basta o meu pais. Quando eu vou
viajar eu gosto de sossego! Lugares organizados!

Eu achei aquilo muito engracado. Trabalhamos mais algumas vezes juntos. E depois disso mais um ano se passou sem eu encontrar o Karim. Ja no meu terceiro ano de trabalho de vigia na epoca de provas, eu posso dizer que conheco mais ou menos todo mundo. E os vigias que nao estao sei que terminaram suas teses, e os novos sei que estao comecando. Faz ja algumas semanas que eu comecei a trabalhar e ate ontem eu nao tinha encontrado o Karim. Na verdade eu nem tinha pensado nisso ate encontra-lo no corredor.

– Karim, voce nao esta trabalhando?
– Nao,esse ano eu to muito atarefado.

Nos despedimos e assim que eu sai andando ele me chamou:

– Jules, I am very curious, which Lonely Planet are you carrying around this time?

Eu sorri, e expliquei que nao tinha nenhum Lonely Planet comigo. Eu estava estudando durante todo o meu tempo de vigia.

– Are you serious? Voce nao esta planejando ir a nenhum lugar caotico nesse verao?
Nenhum Lonely Planet do Iraque ou do Afeganistao na sua bolsa?
– “Nao. Da uma olhada.” eu disse brincando.

Ele sorriu meio espantado, e eu nao resisit e tive que confessar.

– Karim, eles estao em casa.
– Pakistan? Mongolia?
– Eu adoraria ir a esses lugares. Mas nao dessa vez. Dessa vez eu to indo passar
tres meses no sudeste Asiatico:) Voce?
– You know me, I ll stick to Europe! So which guides did you get?
– Thailand, Laos and Cambodia 🙂

Eternamente

“E de novo acredito que nada do que é importante se perde verdadeiramente. Apenas nos iludimos, julgando ser donos das coisas, dos instantes e dos outros. Comigo caminham todos os mortos que amei, todos os amigos que se afastaram, todos os dias felizes que se apagaram. Não perdi nada, apenas a ilusão de que tudo podia ser meu para sempre.”

Miguel Sousa Tavares

Listas

A Sabrina foi embora de Londres na quinta-feira passada. Foi assim sem ser muito bem definido se volta para ficar, se mudar para outro lugar, que lugar seria esse, enfim, foi assim em meio a uma enorme incerteza. Foi no dia do seu aniversario que celebramos no mesmo lugar onde tomamos muitos brunches e onde passamos muitas horas conversando das coisas mais variadas. Falamos de teses, de fisica, de antropologia, de filosofia, cinema das coisas mais profundas as mais banais tambem. Nessa quinta falamos de tudo menos é claro da despedida.

Anteontem eu fui a despedida da Marisa. Marisa que tambem esta terminando doutorado, que eu conheci num outro churrasco de um outro amigo que tambem ja partiu. Eu fiquei amiga da Marisa por causa da minha enorme distracao. Todas as vezes que eu ia mandar uma mensagem para Marisa Portuguesa que estuda comigo na LSE eu mandava a mensagem para a Marisa Brasileira que eu pouco conhecia. Todas as vezes ela me avisava, e todas as vezes eu ligava de volta para pedir desculpas. O tamanho do pedido de desculpa ia aumentando, tornavam-se no comeco saudacoes, depois conversas, e enfim amizade, logo assim bem pertinho dela ir embora. Bem pouco tempo antes da Marisa se mudar para os Estados Unidos.

Quantas pessoas tem que conscientemente escolher em que continente vao morar? Muitas no mundo eu imagino, mas nao sao tantas assim. A maioria das pessoas muda so de casa, de bairro. Outras mudam de cidade, mas assim de país não são tantas. E sao ainda menos as que mudam de paises varias vezes. Essas pessoas se encontram pelo mundo. Se encontram onde é que estejam. Pois essas conhecem bem a angustia que vem com a “liberdade” de mudar de paises. Essas sabem bem o que é uma vida de olas para muitos desconhecidos e adeus para muitas pessoas queridas.

E nao há momento que sintetize isso melhor do que deletar o nome de alguem querido do seu celular. Eu evito por um longo tempo fazer isso. Deixo o nome la, como varias desculpas “caso a pessoa volte”, ou simplesmente so para me sentir acompanhada. Mas aí voce passa por aquele nome a quem tanto ligava e sabe que agora ja nao pode mais disca-lo. Passa, passa, passa varias vezes até que chega o dia em que voce vai até as funções do seu celular e escolhe “apagar”. E fica ali olhando a ampulhetinha virando enquanto aquela pessoa está sendo apagada da sua vida.

E é claro que nos refugiamos em outras coisas, prometemos usar o skype, o facebook, o e-mail, o orkut, o msn afinal a pessoa nao vai desaparecer “de verdade”. Depois de um certo numero de numeros apagados, no entanto, sabe se bem que apesar daquele pessoa nao estar de fato sendo apagada, do seu dia-a-dia ela está.

E é por isso que olha a ampulhetinha é tão duro. Por isso ela é tão simbólica. Ela mostra o tempo passando. E as amizades quando se mora fora parecem ter data de vencimento. “Quando termina o seu doutorado?” “E o seu mestrado?” “Quando voce deixa de receber a sua “grant” ? ” “Até quando é o seu posto?” “Seu visto?” É mais ou menos assim que parecem ser “medidas” as amizades.

E eu me escancaro todas as vezes. Seja numa amizade de 3 dias no deserto do Sahara, seja com um companheiro de musica num posto diplomatico, seja com uma querida amiga que talvez va fazer post doc num outro continente. Porque eu estou convencida que por mais dificil que seja deletar alguem do seu dia-a-dia, um dia-a-dia vazio é pior. Entao de todas essas MUITAS despedidas que tenho tido fica um enorme sentimento de alegria e gratidao. Nesse eterno ciclo de deletar pessoas da minha lista do celular eu tenho criado uma lista bem mais importante: a lista das pessoas que fazem parte da minha vida.