A Assembléia

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Tudo que acontecia em Ban Nonpho ( a escola no vilarejo rural onde voluntariei) era assim para mim meio que um misterio. Como eu nao entenderia mesmo a explicacao as coisas aconteciam sem ninguem me explicar. Eu cheguei la meio que de paraquedas e me lembro de no primeiro dia, meio desorientada, ver todas as criancas no patio brincando. Lembro de assistir o professor dizer coisas em Tailandes. De ver as criancas foramarem umas filas completamente desorganizadas e passarem horas se arrumando. Lembro-me de ficar espantada, pois apesar da total zona, o professor permaneceu calmo o tempo todo. Nada batia como as minhas ideias de como seria uma escola asiatica. As criancas saiam das tais filas para colocar outras criancas no lugar certo o que consequentemente aumentava a desordem. Eventualmente uma logica foi aparecendo. Eles estavam tentando se organizar por idade. Essa ordem so ficou mesmo evidente para mim dias depois. Nesse dia, eu apenas assisti, me sentindo meio fora de lugar, e sem saber direito o que fazer. Horm , minha anfitria e professora da escola, desapareceu, e so reapareceu quando as tais filas estavam finalmente organizadas. A bandeira da tailandia foi erguida, enquanto eles provavelmente cantavam o hino. E entao todas as criancas se viraram para o pequeno Buda colocaram uma mao em cima da outra com as palmas para cima e fecharam os olhos numa pequena meditatcao. A Horm, minha anfitria, me explicaria depois que era uma pequena meditacao em agradecimento a todos que os ajudam. Meus olhos se encheram de lagrimas.

Essa pequena meditacao era o principio de todos os dias. Sexta feira no entanto, depois do almoco, todas as cirancas da escola ( +- 50 alunos entre 4 e 12 anos) se juntavam na sala do ano 5 e 6 para um evento so dos estudantes. Nenhum professor podia estar presente nessa ocasiao. Eu como nao era oficialmente uma professora fui permitida a entrar e ficar la. Ainda que eu nao soubesse o que estava se passando. No comeco vi que todas as criancas se sentaram no chao e começaram o que me parecia ser uma cerimonia budista. Budas foram colocados pelas criancas em frente a classe. Incensos acesos e eles comecaram , para meu espanto, rezar. Depois as criancas fecharam os olhos em meditacao. Ali sozinhas sem a supervisao de ninguem.

Quando tudo isso terminou percebi que a Tanoy, Nan e a Nook tomaram o lugar da frente da sala e comecaram a falar. Tinham uma lista na mao, e as criancas conforme elas iam falando iam dando palpite. Sem entender muito bem o que estava se passando resolvi ir procurar a Horm.

– “O que eles estao fazendo?” perguntei.
– Hoje é sexta, todas as sexta é dia de assembleia.
– Mas o que acontece nessa assembleia ?

Hom me olhou espantada e como quem explica a coisa mais obvia do mundo me disse : “Na assembleia os alunos decidem tudo que eles precisam decidir”. Perguntei o que isso significava e entao Horm me explicou que sexta feira os alunos se encontram para conversar sobre assuntos dele. Explicou que as meninas tinham sido votadas responsaveis por aquele ano. E que todas as sextas as criancas se juntavam na assembleia para votarem e decidirem todos os assuntos pertinentes a escola. Como quem vai limpar o banheiro, quem vai dar aula de educacao fisica, quem vai lavar os pratos, quem eh responsavel pela biblioteca. Problemas que tem acontecido com eles, brigas, discordias. Enfim, tudo!

Eu fiquei absolutamente em choque. Fascinada. Ali na minha frente estavam criancas entre 4 e 12 anos que meditavam as sexta feiras. Que tinham a responsabilidade de tomar conta da escola e dos seus probelmas sociais, e que ao contrario do que é pensado no mundo ocidental que essa responsabilidade nao roubava nenhum pouco da infancia delas. Aquelas criancas eram criancas, dessas que brincam de ciranda, de pular elastico, de jogar damas, de dar tapa na cabeca um do outro, de rir o tempo todo e ao mesmo tempo eram criancas que sabem que é o cuidado delas que mantem a escola bonita. Que na falta de um professor sao eles os de 12 que tem que ir ver o que esta acontecendo com os de 4. Que quando uma voluntaria vegetariana meio atrapalhada aparece que elas precisam “keep an eye on her”. E a voluntaria fica assim para sempre grata. E aquela pequena meditacaozinha do primeiro dia “em agradecimento ao que nos ajudam” fica entao fazendo mais sentindo do que nunca.

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Banco Imobiliario

Quando eu comeco um post raramente eu sei onde ele vai dar. Algumas vezes eu tenho uma ideia sobre o que eu quero escrever, e quase sempre eu termino falando de outra coisa. Foi assim com um dos meus ultimo posts que comecou falando da dificuldade do inicio da minha viagem e do meu voluntariado e terminou longissimo de onde eu tinha pensado que iria terminar quando eu comecei a escreve-lo. Naquele post eu queria contar uma coisa meio tola, eu queria contar dos recreios na escola onde eu voluntariei.

Em Ban Nongan, o vilarejo onde eu voluntariei fazia um calor, mas um calor assim desses que se le em livro, que se ve em filme, que quando lembrado ja nao parece mais tao quente. Calor desses que quando voce chega voce fica desesperado para vence-lo, para sobreviver, e com o tempo vai percebendo, ou simplesmente se adaptando a ficar imovel, numa imobilidade interna, letargica, olhando o mundo passar a volta devagar. Em casa eu me sentia, como ja descrevi antes, a perfeita heroina fresca de filme europeu que tenta sobreviver letargicamente, enquanto a volta enxerga os trabalhores rurais, senhores e senhoras trabalhando nos arrozais. Aqui em Londres, eu até sinto falta desse calor. Um calor vazio, que me deixava quase que num vacuo morno, sem muitas agitacoes, tormentos internos, esperando no principio ansiosamente mas eventualmente pacientemente a inevitavel tempestade.

Nesses dias em que a tempestade demorava mais a chegar, nem as criancas conseguiam ficar alheias ao tempo. Elas voltavam para classe na hora do almoco para brincar. E eu ia me juntar a elas pois era sem duvida muito mais interessante e divertido que ficar com os professores. Sentar no chao de azulejo azul esverdeado da classe refrescava fisica e psicologicamente. Eu sentava e assistia as criancas brincarem. Nesses dias tao quentes eu nao fazia muito mais que isso.

E eles jogavam damas, jogos com as maos, e muitos de inventar coisas assim meio que na hora. Jogos de cantar, de gritar, aquela eterna bagunca. Sempre me convidavam para brincar, e eu sempre me espantava com a habilidade que eles tinham de se divertir por tao longo tempo com tao pouco. Eu nunca vi nenhuma crianca da minha escola dizer que tava “bored”. A alegria deles cantando era super contagiante.

Um dia tiraram la do canto da sala um caixa do “banco imobiliario”. Tanoy e Pai com o eterno sorriso nos labios olharam para mim ” Krum Kru Chu play?”. Eu aceitei e me sentei ao lados delas. Logo percebi que o jogo na iria seguir as regras convencionais. NInguem tinha dinheiro. Como eu nao falo Lao ou Thai, e nem eles ingles e a essas alturas eu ja tinha aprendido a comunicacao nao falada esperei. E hoje eu ja nao sei mais explicar como é que nos comunicavamos, pois hoje em dia eu me lembro apenas é que nos nos comunicavamos”. O fato é que o jogo comecou, e a primeira diferenca da maneira dos meus alunos jogarem se tornou evidente. Quem sempre tinha que pagar era o banco! Portanto todos nos comecamos sem dinheiro, e quando paravamos numa propriedade o banco tinha que nos pagar aquele valor. Jogamos varias rodadas fazendo isso, ate todo mundo ganhar bastante dinheiro. Entao cada crianca comprou uma propriedade, oque significava que a partir de entao quem parasse na propriedade comprada nao receberia mais do banco e ao inves teria que pagar ao novo proprietario. Eu gananciosa comprei 2 propriedades. Niguem disse nada. E eu percebi que ninguem alem de mim comprou mais de uma. E naturalmente eu logo fiquei sem dinheiro pois ao parar na propriedade da Nook nao tinha dinheiro para pagar. Olhei para a Tanoy e ela juntou dinheiro dela e do Pote para que eu pagasse minha divida. Depois eu devolveria a eles. Eu tentei explicar que isso nao era justo, que eu devia sair do jogo, ou pagar um multa. Eles insisitiram que nao. Que continuassemos a jogar. E assim eu percebi que o objetivo do jogo nao era eliminar jogadores, nao era ganhar ou perder, nao era enriquecer mas simplesmente se divertir. E em Ban Nonpho para se divertir todo mundo tinha continuar la.

A Minha Casa Na Asia

Durante o meu tempo no Sudeste Asiatio, Nong Khai, como eu ja disse antes se tornou a minha casa. Por isso que depois de cruzar o rio Mekong para chegar ao Laos, atravessar Laos, voltar de barco para o outro lado da Tailandia, visitar o noroeste tailandes descer para Bangkok, Voar para Phnon Penh, visitar as ruinas de Angkor, correr entre Bali , Malasia,, Phuket, Ko Phi Phi, Ko Phan Gan.. eu finalmente completei meu circulo voltando a Nong Khai. Cheguei la acabada. Fisica e emocionalmente. É coisa demais em tempo de menos.

E eu voltei para la desesperada. Nao passei nem se quer um dia em Bangkok. Eu cheguei a BKK de Ko Phang Gan, ilha no sul, e na mesma noite peguei um onibus por 12 horas para chegar a NK. Com o desespero daqueles dos que precisam chegar em casa. Na maior parte da minha viagem eu tomei bastante tempo nos lugares. Mas da cambodia, Indonesia, Malasia, e ilhas tailandesas eu corri, meio como o Gauguin procurando sempre aquele lugar mais “certo”. E aquele lugar para mim de repente ficou claro era Nong Khai.

Peguei um daqueles onibus turisticos que saem de Khao San Road ( A rua de back packers de Bangkok. Kao quer dizer arroz, entao no passado era a rua onde vendia-se arroz) e levam os jovens ocidentais diretamente a Vang Vieng ou ate mesmo a Luang Prabang no Laos. Esses onibus tuisticos sao menos confortaveis que os OTIMOS onibus publicos tailandeses. No entanto, sao convenientes pois saem da rua onde as guesthouse ficam, sem vc ter que se deslocar ate o terminal Mochit, e portanto ou passar horas discutindo com um Taxi ( que eh sempre mais barato do que um Tuk Tuk em Bangkok), ou acabar pagando mais dinheiro entre passagem de onibus publico e taxi, do que os “um pouco mais caros” onibus de turistas.

Nong Khai fica no caminho, na fronteira entre Tailandia e Laos. Eu comprei minha passagem para ir a NK que era um pouco mais barata do que a passagem para Vientiane, e muito mais do que a Vang Vieng. Eu fui a unica no onibus inteiro que queria parar em NK. A viagem ate NK leva umas 12 horas, ate Vientiane do outro lado da fronteira umas 13, e ate VV umas 16. O motorista surpreso me disse na entrada “se voce quiser pode ir direto ate o Laos nao tem problema”. Eu expliquei que nao era um engano eu queria parar em Nong Khai. Ele nao compreendeu assim como os tailandeses nao compreendem quando voce diz “sem pimenta.” Eles entendem a frase mas imagino que achem que vc ta fora do seu perfeito juizo entao colocam um pouquinho. O motorista tbm colocou um pouquinho de pimenta e portanto as 5 da manha, eu acordei num posto no meio da estrada. Desci para perguntar onde estavamos. Ele me explicou que era para descermos e preenchermos os papeis para cruzar para o Laos. Eu expliquei que eu ficava em NK. Ele ainda meio chocado abriu o compartimento para eu pegar minha mala “are you sure, you dont have to pay extra i ll take you to laos”. Eu estava “sure” peguei um tuk tuk, ja me preparando para ter que brigar por um preco certo, mas em NK o tuk tuk me deu o preco certo, carregou minha mal, e ainda me protegeu do temporal. De fato eu estava em casa.

Era cedo, umas 6 da manha. Eu sabia que a recepcao da Mut Mee nao estaria aberta. Chovia cantaros. E eu estava feliz. Entrei no meu jardim preferido de mala e cuia. Coloquei tudo no chao, no mesmo lugar que tinha colocado inumeras vezes antes, e sentei nas mesas debaixo de bungalows de palha. Sentei e lembrei da Liz Gilbert contando de como ela tinha chegado ao Ashram na India no meio da noite ( no livro eat, pray and love), que tinha se sentido como uma galinha que eh colocada ali no meio da noite, para que as outras galinhas ao acordarem nao percebam que a nova nunca tinha estado la. Eu sentei, ouvindo a tempestade, mas minha espera durou pouco, nao mais de 1 minuto. A Pao, dona da Mut Mee, estava na cozinha, e ao me ver sorriu e disse “Welcome Back! Ta muito frio ai fora, voce sabe que quarto voce quer? eu te coloco no quarto e depois vc faz o check in mais tarde” Entao eu escolhi o meu quarto favorito afinal depois de check in and out 6 vezes da ultima vez, eu conhecia muito. E fui dormir o que eu esperava ser o sono dos justos. A ansiedade nao meu deixou dormir e as 7 eu estava desesperada para descer e ver meus amigos.

As sete da manha, o Simion, que trabalhava na recepcao estava chegando mal-humorado, mas ao meu ver o mal humor virou um grande sorriso e um abraco. E entao apareceu a Poon, a massagista, que veio me abracar e carregar! E entao o Julian, marido da Pao e dono da Mut Mee, e pouco a pouco fui encontrando cada pessoa querida que eu tinha conhecido ha mais de um mes atras. Um mes que eu tinha feito tanta coisa.

Eu tinha queimado minha perna numa moto, e portanto estava com uma bandagem. Uma tosse daquelas de tuberculoso que nao para nunca. Mais magra, mais suja, mais queimada, mais cansada. Nao que eu tivesse percebido imediatamente tudo isso. Foram as perguntas que foram me dando essa ideia. “Are you eating well? ” “What happened to your leg?” “How long have you been coughing like that?” E quando eu finalmente encontrei o professor de meditacao. Ele olhou para mim e disse
“We can tell how long a person has been travelling from by how worn out they look.” Eu comecei a rir. “Is it that bad?”. “Julieta voce precisa se cuidar. Isso tudo desgasta muito o corpo, a mente. Voce precisa descansar.” Sim eu estava de volta em casa, tinha cruzado todo o sudeste asiatico para voltar onde minha viagem tinha comecado. Tinha voltado para ficar doente em casa, onde eu podia contar com os cuidados daqueles que na Asia se tornaram a minha familia.

O Teletransporte

Faz quase duas semanas que eu voltei do sudeste asiatico. Passei um pouco mais de 3 meses entre Tailandia, Camboja e Laos. Levou mais de uma semana para o meu horario se ajeitar. Como eu ja vivi em muitos paises, e desde os 15 anos vivo nessas eternas idas e vindas, minha volta a Londres foi menos traumatica do que a dos muito viajantes que conheci. A unica coisa mais dificil é que o facebook é um constante “reminder” do mundo dos viajantes que eu dexei para tras. Todo dia eu leio alguem que ta chegando em algum vilarejo de algum lugar remoto do mundo. E o mundo é tao grande e tão cheio de vilarejos…e viajantes.

Hoje eu tenho a impressao que foi tudo tao facil. O sudeste asiatico é muito facil de viajar. Ainda mais quando comparado a outros lugares que ja estive sozinha como o Marrocos ou a India. A verdade, no entanto, é que a minha viagem comecou para la de dificil. Eu ja comecei doente tendo que posterga-la por causa de uma infeccao urinaria. E ai cheguei num calor alarmante em Bangkok, sentindo uma letargia total. Lembro de pegar o taxi em direcao a Khao San Road pensando ” onde eh que eu estava com a cabeca quando escolhi ir voluntariar num vilarejo rural na area mais pobre da Tailandia? “. Lembrei de uma amiga que sempre diz “essas coisas sao melhores pensadas”.

Deitada numa rede meses depois, num dos lugares que visitei, conversando com dois alpinistas que planejavam a construcao de alguma coisa que a minha leiguice em engenharia e alpinismo nao permitiu entender eu propus que eles construissem uma maquina de teletransporte. O tal do teletransporte é uma ideia que ficou na minha cabeca gracas a um inesquecivel vendedor de cachorro quente em ubatuba. Consiste basicamente em voce pensar e se teletransportar para onde quer.

Brendan, o engenheiro alpinista, olhou para mim e disse ” Can we focus on feasible plans?” Vencidos pelo meu desejo filosofico de discutir o teletransporte comecamos a pensar. Nos teletransportariamos para onde? Para a guesthouse. Direto da rede para a Maylin Guesthouse! Mas como ficariam as nocoes de privacidade? E as fronteiras? E se vc pensasse num quarto de hotel que esteve, e alguem que tbm la ja esteve tbm quisesse o mesmo quarto, no mesmo minuto? Afinal as memorias sao distintas, e infinitas mas os lugares nao! Entao, comecamos a pensar nas regulamentacoes que seriam necessarias com o advento do teletransporte. Os problemas eram infinitos. Tao infinitos que saimos do bar, andamos toda a cidade e eles nao acabavam.

Em meio a discussao o outro alpinista percebeu ter perdido sua chave. Brendan e eu sentamos na calcada. Iriamos espera-lo busca-la. Passaram por nos bebados perdidos. Gente que nao sabia em que guesthouse tinha ficado. Passaram bicicletas assim no meio da noite. Tendo que esperar olhamos para tudo que tava a volta. Os cachorros, o ceu que estava todo estrelado, as placas, as pessoas, tudo. Quando a chave foi reecontrada recomecamos a nossa caminhada. Chegamos a famosa ponte de Vang Vieng. A ponte que nos separava de todo aquele caos do outro lado. Cruzamos ainda falando do teletransporte.

Se ele existisse nos provavelmente nao cruzariamos essa ponte. Eu nao teria passado 2dias num barco no Mekong e mais um dia de onibus para cruzar do Laos a Tailandia. Eu nao teria pego os muito onibus porcaria, nas muitas estradas tortuosas. Consequentemente nao teriamos conhecido todas as pessoas que encontramos pelo caminho. Nao teriamos visto todos os vilarejos. E ficou evidente que o que importa é a jornada. Abandonamos o plano ali na ponte, nao porque ele era impraticavel. Simplesmente porque nao nos interessava. Andamos cansados as ruas enlamacadas, no escuro felizes por ter essa experiencia.

A minha amiga tinha razao. Alguma ideias sao melhores pensadas. Nao a ideia de viajar, ou de voluntariar num lugar remoto. Essas sao as que vividas valem sempre a pena. As ideias que sao melhores so pensadas sao as que reduzem os caminhos, as dificuldades, e os prazeres da jornada.

Pensamentos Ciganos

Ontem a noite fui ao Goodenough College para assistir a London Gypsy Orchestra. Eu ja perdi a conta de quantas vezes eu fui ao Goodenough. Ja fui para visitar amigos morando la, para ouvir musica, palestras, churascos, pique niques, e para é claro as eternas despedidas. Portanto entrar la ontem na sala que a Sabrina se apresentou tantas vezes sem encontra-la, ou encontrar nenhum dos meus usuais amigos foi extremamente nostalgico. É sempre estranho andar por corredores que ja abrigaram tantas pessoas, que ja ouviram tantos murmurios de segredos, fofocas, ou incriveis “post graduate” insights 🙂

A orquestra era incrivel, daquele jeito que so orquestra cigana, ou klezmer, leste europeu consegue ser. Extremamente alegre e extremamente triste ao mesmo tempo. Com melodias que parecem cortar como faca enquanto te fazem dancar. Eles tocaram uma musica do Kusturica e essa musica ainda acordou em mim mais memorias. E é incrivel como o cerebro vai ligando as cores, aos sons, as memorias, numa ordem quase impossivel de ser retracada mas que flui naturalmente como se nenhuma outra linha de leve pensamento fosse plausivel.

E eu sentei la ouvindo os violinos, e as cantoras, os instrumentos de sopro viajando pela Turquia, Romenia, Hungria e a musica que la ouvi, olhando a sala onde a Sabrina tocou, vendo ao meu lado o Chris que eu conheco da LSE que nao faz parte de nenhum dos meus mundos ali ligados. Faz parte do mundo da LSE e mesmo totalmente fora de lugar, foi gracas a ele que eu fui assistir essa orquestra. Quando fui ao banheiro e andei pelo corredor lembrando que esse era o caminho que eu fazia para visitar a Marisa dei de cara com uma menina que saia do banheiro chorando. Hesitei por um segunto se devia perguntar a ela se ela estava bem. Esse segundo durou o suficiente para ela sair e eu entrar. No chao do banheiro estava um teste de gravidez. Positivo. Com as duas listras. Jogado ali por alguem que obviamente estava abalada demais para pensar em qualquer outra coisa. E um estranho pensamento passou pela minha mente. Eu, que nem conheco aquela moca, fui a primeira a saber de uma noticia assim tao importante. Porque o mundo eh assim meio ao acaso, as pessoas vao se encontrando, se conectando, e as memorias vao se formando fluidamente. Talvez a unica coisa que eu me lembre dessa noite seja esse evento, talvez eu me lembre da flautista mal-humorada. O caminho que tomarao meus futuros devaneios hao de ser, eu imagino, nomades e itinerantes como a musica da orquestra.

O Sentido da Vida

Conheci Carlo num boteco de Luang Prabang no Laos. Em Luang Prabang todos os bares fecham as 11, e depois disso sobram os turistas desesperados para encontrar um lugar para beber, a discoteca que fica fora da cidade, e o BAO LING ( boliche) para onde todo mundo vai dancar e beber enquanto as bolas percorrem tortuosos caminhos. Eu conheci Carlo no bar Lao Lao, bar que tem o nome da pior bebida da Asia ( um whisky feito de arroz que segundo os que provaram tem efeitos colaterais mais graves que tomar gasolina) onde a maior atracao eh a sinuca de graça. Assistimos um lady boy e uma moca Lao jogarem contra dois ocidentais. Como o jogo nao terminava nunca comecamos a conversar.

Carlo tinha 33 anos. Aos 27 se tornou CEO de uma empresa americana da qual ja nem me lembro o nome, aos 31 estava ganhando muito dinheiro, “engajed” para casar e absolutamente infeliz. Resolveu partir. Sua mae que trabalha na ONU teve um ataque. Seu pai neurologista apoiou a ideia. A noiva, bem dessa eu achei melhor nao perguntar. E ele partiu para o que seriam 6 meses de viagem, e quando eu o encontrei no Lao Lao ja fazia 2 anos que ele viajava. No Laos voluntariava por um tempo numa reserva de protecaos aos elefantes. Pelo que ele me contou, o Laos é o pais no mundo que mais tem elefantes selvagens.

Perguntei onde no mundo ele tinha estado, e a lista eh tao extensa que eu ja nao me lembro. Quando ele no entanto me contou que viajou por dois meses a Mongolia, pedi mais detalhes. Eu morro de vontade de conhecer a Mongolia eu expliquei. Carlo tirou a camera do bolso e mostrou me uma foto de dois cavalos lindos. Nao compreendi exatamente o porque dos cavalos ate aparecer as proximas fotos. Eram da Mongolia. Vi as famosas casas/tendas nomades, as pessoas, o deserto, muito terreno inospito.

Entao Carlo contou me que viajou sozinho a cavalo. Comprou dois cavalos um para carregar as coisas, e outro para ele mesmo e cruzou a Mongolia. Sabendo dos riscos que incorrem visitar a Mongolia perguntei a ele. ” I had an Axe and a knife, and the face of someone who is ready to use it.” No mais, saindo das cidades as pessoas sao muito generosas. Sempre te convidam para entrar na tenda delas, para ficar.”

Carlo cavalgou por semanas chegando a ficar ate 2 semanas sem falar com niguem. Falava com os cavalos nessa altura me explicou. E num certo dia no meio dessa cavalgada em silencio por muito tempo parou e pensou ” Qual é o sentido da minha vida nesse segundo? ” “Percebi que era apenas existir, sobreviver, e nesse dia eu soube que para mim isso era pouco, procurei um vilarejo, e encontrei um homem velho. Eu nao sabia falar a lingua dele, nem ele a minha, mas percebi que eu podia ajuda-lo no seu trabalho. Eu o ajudei. E ali a vida ganhou sentido. Faz so sentido existir quando voce se relaciona com outras pessoas.” E essas palavras me fizeram lembrar claramente do final do filme Into the Wild “Happiness is only real when shared.”

Da primeira visita a Vang Vieng- Laos


Eu acabei indo ao Laos duas vezes. E acabei como todos me encantando com o Laos. A primeira vez eu confesso que detestei. Cheguei la depois de ter vindo de Isan, o nordeste pobre da Tailandia, onde eu tinha passado tempo voluntariando no meu pequeno vilarejo rural. De la fui parar na beira do Mekong, em Nong Khai, lugar que se tornou minha casa na Asia, para onde eu voltava todas as vezes que eu tava para desabar 🙂 E na beira do Mekong, de um lugar tranquilissimo, eu enrolei, enrolei, enrolei para cruzar para o Laos. Do Gaia, o bar barco eu olhava para o Laos do outro lado com antecipacao, mas alguma coisa me prendia ali naquela pequena cidadezinha. Depois de 3 meses eu descobriria que eram as pessoas, a calma daquele lugar. Mas ainda nao sabendo eu antecipava todas as noites a minha partida, e todas as manhas eu desistia, por uma ou outra razao, abandonando companheiro atras de companheiro de viagem. Foram mais ou menos 12 dias que eu fiz isso. E quando eu finalmente resolvi partir, eu acordei bem cedo, antes que eu encontrasse qualquer pessoa conhecida e fui para fronteira para encontrar os italianos. Os italianos com quem eu nada tinha combinado, apenas ouvido eles combinarem que se encontrariam as 9 da manha na fronteira.

Os italianos eram: Lucca, uma magico profissional, Michaela e Elisa, bellissimas mae e filha viajando juntas. Tinham conhecido o expansivo Lucca na viagem, e se juntado a ele para cruzar a Asia. Na noite anterior, eu toquei violao no Gaia, e o Lucca fez um show de magica que misturava NLP e nos deixou a todos perplexos. Acabamos ficando no barco ate quase de manha. Na manha seguinte, portanto, no horario combinado Lucca como bom magico desapareceu. Como ele nao estava la horario combinado juntei me as belas italianas fluentes em portugues e juntas cruzamos a fronteira. Rimos muito, de quase tudo que encontramos pelo caminho pois Michaela era assim leve e engracada.

Pegamos uma pequena van para ir direto a Vang Vieng. 4 horas de viagem por tortuosas estradas. Campos verdes, arrozais, montanhas, pequenas casas de madeira, e quase nada. Dentro da Van muitos ocidentais meio mal-humorados. O tipo de ocidental que vai para Vang Vieng fazer o tal do Tubing. O tipo de ocidental que nao ta muito interessado no Laos. Nos rimos, de quase tudo, e principalmente de todo esse mal humor.

La chegando nos separamos. EU queria ficar na Maylin guesthouse. Guesthouse recomendada a mim por varias pessoas, e pelo Lonely Planet. As italianas nao queriam andar de mala e cuia. Entao la fui eu sozinha, rejeitando todas as opcoes que me eram oferecidas pelo caminho. E para chegar ate a Maylin cruzei a ponte privada pela primeira vez. A ponte que custava 4000 kip (£0.30) para indignacao de quase todos. Andei pelas ruas toda cheia de pedra e lama, e logo percebi que aquela ponte mantinha o outro lado intacto, totalmente diferente do lado onde eu tinha chegado. Continuei caminhando ate chegar a Maylin.

O dono, Joe, um Irlandes sarcastico, mal humorado, e rabugento estava tirando meio que sarro dos hospedes. Eu sentei, sem nem saber que ele era o dono e pedi alguma coisa para comer. Eventualmente o rapaz ao lado dele comecou a conversar comigo. Saxon. Um australiano que trabalha como poilicy advisor para o governo da australia. Ficamos amigos quase que imediatamente. Joe disse algumas coisas rudes, mas depois de eu solenemente ignorar a grosseria e ser sarcastica de volta ele virou meu amigo. E ficou por muito tempo na minha mente como a minha melhor memoria de Vang Vieng.

De noite, com Saxon cruzei para o outro lado da ponte para conhecer melhor a “cidade” de Vang Vieng. La chegando fiquei horrorizada. Um bar atras do outro de musica altissima. Ingleses, e australianos e outros ocidentais e israelenses jovens completamente bebados. Todos os bares passavam family guy ou friends. Ao mesmo tempo tocavam musica e a cacofonia era realmente insuportavel. Andei meio que em choque pelas ruas de Vang Vieng. Eu que tinha vindo do meu pequeno vilarejo, eu que tinha vindo do Gaia em Nong Khai nao conseguia acreditar no que tinha acontecido com aquele lugar em tao pouco tempo. Saxon a melhor coisa que tinha me acontecido em VV partia na manha seguinte.

Encontramos Lucca o magico e as italianas sentados num dos mil restaurantes iguais. Ja que era impossivel conversar pedi ao Lucca que fizesse magica ao menino Lao. O garcom que estava ali nos servindo. Lucca nao hesitou e em 3 segundos ja tinha cativado o menino. Eu sentei e olhei. NO meio a todo aquele caos, musica dos bares, as televisoes ligadas, os bebados, os em bad trip, tudo que eu via eram os olhos do pequeno menino Lao completamente desconcertado, enfeiticado, pelas magicas e pela docura do Lucca.

No dia seguinte convenci Saxon a perder sua passagem e ficar comigo em VV. Desta vez desistimos de ir para o outro lado e resolvemos ao invés explorar as cavernas, as trilhas, e a lagoa azul. O tempo nao estava dos melhores. Mas conversamos tanto que os 7km de caminhada pareceram minutos. Passamos em meio aos arrozais, as criancas, os vilarejos, as pontes, as pessoas, e eventualmente chegamos ao lugar certo. Subimos a montanha que nos levaria a caverna e la dentro caminhamos ate encontrar o “reclining Buddha” e as outras muitas formacoes geologicas. Sujos de lama dos pes a cabeca voltamos de tardezinha para a Maylin no dia seguinte partimos. Parti de Vang Vieng sem fazer o tube, esperando por la nunca mais voltar.

Um mes depois voltei. Com minha mae. O tempo lindo. Nenhum nuvem no ceu. Nenhum vestígio da lama que tinha sujado tudo que eu tinha usado em VV. Cruzei a ponte mais uma vez, paguei mais uma vez os 4000 kip e quando cheguei a Maylin senti-me em casa. Tudo daquele lado continuava intacto. E todas as vezes que eu paguei aquela ponte, eu paguei feliz sabendo, que aquele lado de mantem natural do jeito que se mantem por causa da ponte! E eu acabei afinal indo fazer o tal do tubing. E essa estoria fica para o proximo post. Para um dos muito posts que eu tenho que escrever sobre a asia.