Vivendo Nos Outros

Sempre me perguntam qual é meu lugar favorito no mundo. Antes de eu ir para o sudeste asiático eu sempre respondia que nao havia, cada lugar tem seu charme. E é verdade, eu continuo achando isso mas confesso que o sudeste asiatico se tornou o amor da minha vida. Já faz quase 6 meses que eu voltei e eu nao sei no meio de quantas noites eu já acordei sentindo um desespero enorme de pensar que talvez eu nunca mais voltasse a beira do rio do Mekong. É incrível, eu ainda me sinto tão proxima as pessoas que la conheci. Os locais e viajantes, as crianças, os donos de pousadas, os professores de yoga e meditacao. Assim que com e-mail e Facebook toda hora eu mando uma mensagem para um ou outro querendo saber um pouco da vida deles. Horm me mandou um e-mail super doce esses dias, tinha lido todo o meu blog em ingles, tudo que tinha escrito sobre a tailandia. Meu coracao deu um sobre-salto(?) ..meu deus, o que sera que eu escrevi? Faz tempo nem me lembro direito.

Faz umas semanas, fui jantar com mais uma palestrante da serie de Cultura e Congnicao da LSE. A mesa estava a palestrante Tanya Luuhrmann (professora de antropoogia de Stanford), e varios porfessores aposentados da LSE. Ao meu lado Chris Fuller e John Peel. Chris Fuller que é especialista no Sul da India, disse que para ele sempre foi bom estudar pessoas que pudessem ler o que ele escrevia, “afinal faz com que vc seja mais acurado no que escreve”. Diferentemente disse ele ” dessas pessoas que estudam uma tribo na melanesia, que podem dizer qualquer coisa”. Ler a mensagem da Horm, me fez pensar isso. Sera que eu fui acurada, e ainda mais grave sera que eu escrevi alguma coisa ofensiva? Acho que nao, pois ela gostou, me convidou muito para voltar e disse que quando eu voltasse eu ia ficar triste por um motivo, minhas amigas aranha, aquelas as quais tinha dado nome ( e escrito no meu blog), nao estavam la quando ela foi procura-las 🙂 Contou-me das criancas, do quanto elas ficam felizes quando eu escrevo, e de eu lembrar deles. LEMBRAR? Como assim, como eu poderia esquecer?

Fiorini, conta que os Nambiquara, quando alguem morre destroem tudo que pertence ou lembre aquela pessoa. Botam fogo nos pertences nao guardam nada. É porque para os Nambiquara eh necessario deixar com que o morto se esqueca, e enquanto ele existir em voce ele nao pode se esquecer. Entao, os que vivem queimam tudo, e colocam o morto numa gruta. La o morto vai aos poucos se esquecendo. E na hora que tudo que eh sua “consciencia” desaparece ele volta a ser “energia” ou espirito e vira uma estrela no ceu. Eu acho incrivelmente bonita essa ideia de existirmos no outro, e se de um lado precisamos esquece-los para eles poderem cessar de existir e partir, do outro, quando o outro parte, e deixa de existir eh como se alguma parte nossa deixasse de existir um pouquinho tambem. Como se morressemos um pouquinho.

Mas eu nao sou tao disciplinada quanto os Nambikwara e tudo que eu sou de desapegada de objetos eu nao sou de saber noticias de todos esses outros que contem pedacinhos meus. Entao eu mando mensagens e continuo visitando o facebook. E ele me avisando dos whereabouts de todos os meus companheiros de viagem nao me faz deixar de existir viajante o que torna a vida de sedentaria incrivelmente mais dificil.

Anúncios

The Virgin Whoppers

Que surpresa! Eu postei o video do Whopper, e recebi mil e-mails com as mensagens mais variadas. Pessoas que acharam que era fake porque ninguem se veste assim. Pessoas que acharam que eles estavam sendo ridicularizados por nao saberem comer hamburger. Pessoas que sentiram pena. Pessoas que acharam que era uma brilhante propaganda. Pessoas que adoraram.

Bom, eu nao pretendia escrever nada mas em face a tantas mensagens resolvi escrever. Engraçado isso. Ontem recebi uma mensagem do Ido meu amigo Israelense que eu conheci pelo couchsurfing com quem tenho discutido cultura e cognicao faz semanas. Ele mais para relativista cultural, jornalista independente me faz perguntas poignants sobre a utilidade de estudar o que há de comum no ser humano. Ontem me mandou esse video para ver o que eu pensava.

Coloquei o video, e pensei o que? Bom, para comecar eu sou vegetariana, nao gosto nem do Mc Donalds nem do Burger King. Nunca na minha vida acho que experimentei um Whopper. Assim, que quando o video comecou eu pensei ” MEU DEUS. nao acredito vao colocar as pessoas para falar que o Burger Kind eh melhor que o McDonalds” Mas ai deixei o video rolar, e deixei de lado o fato que era uma propaganda para ver o que tava acontecendo.

E na verdade, eu olhei para outras coisas: o fato que as pessoas tem sim curiosidade sobre o outro. O quanto hospitalidade e “comensality” sao importantes. Que de fato quando nunca fomos expostos a algo diferente nao sabemos como usar essa coisa! Na Tailandia, Horm, minha host morria de rir ao me ver usando os palitinhos, ou tentando fazer as bolas de arroz com o arroz errado! ou nem se quer saber usar com proficiencia a pequena colher. Isso para nao falar nas MILHOES de frutas que eu nunca tinha visto e nao sabia comer. Ou nas milhoes de coisas que qq crianca de 5 anos era proficiente, e que eu nao sabia fazer. Entao diferentemente de muitos, eu nao acho que mostrar as pessoas nao saberem como comer um hamburguer é ridiculariza-los. Acho que isso esta mais no olho de quem ve para ser bem sincera. Eu concordo mais com o que escreveu o Daniel Strauss (no comentario ao meu post), nao tem nada de obvio em muitos dos nossso comportamentos, observar alguem nao saber fazer uma coisa que achamos obvia, ou nao saber fazer o que muitas pessoas acham obvio nos faz consciente do quanto do nosso dia a dia “we take for granted”.

Uma outra amiga minha, disse que aquilo so podia ser falso afinal as pessoas nao se vestem assim. Tendo estado no norte da Tailandia e ido de carro de Londres a Romania posso dizer que sim algumas pessoas se vestem. Assim, como na Bolivia se encontra varias pessoas como roupas tradicionais, e em muitos dos outros lugares do mundo.

Agora o que eu gostei mesmo do video, eh ver a comida mil vezes mais saudavel, mais colorida, e provavelmente mais gostosa que os “nativos” preparam para os americanos como agradecimento. E no final, assistir o simpatico Inuit dizer cordialmente que gostou, mas que ainda assim prefere a carne de foca.

Das Diferencas Dos Muitos Parecidos

az tempo eu sei. E eis que uma dessas noites eu recebo uma mensagem da Renata uma “desconhecida que agora me conhece” e fico tao tocada que decido que tenho que escrever. Tao ironico isso. Marcelo Fiorini, ou Fortaleza Flores, que foi meu professor, de quem tanto ja falei, e hoje é querido amigo está sentado na cozinha aqui de casa junto comigo. Ele que morou com os Nambiquara por anos, responde ao Haiko qual o valor de fazer trabalho de campo. Psicologos e cientistas em geral, nao entendem muito bem, eu na minha pensada conversão ao mundo de cognição também penso o assunto pouco objetivo. Faz algumas semanas, eu fui jantar com o Dehaene depois de uma das palestras de cultura e cognicao que estão acontecendo na LSE.

Dehaene, que é diretor da Unidade de “Cognitive Neuroimaging” na INSERM-CEA, apresentou uma palestra sobre o que ele chama de” neuronal recycing”, simply put, o processo pelo qual “modulos” cerebrais se reciclam para fazer uma atividade ( nao selecionada pela evolucao) possivel. No caso dessa palestra, Dehaene falou de ler. A maioria dos antropologos que eu conheco fica horrorizada com fotos de cerebros, fMri e etc, assim que a platéia consistia na maior parte de psicologos, e cognitivistas. Depois da palestra tive o prazer de ir jantar com Dehaene, minha supervisora, alguns colegas, e a renomada psicologa de desenvolvimento Annette Karmiloff-Smith. Annette, dentre outras coisas trabalhou como tradutora da ONU, morou em diversos paises, e numa conferencia da WHO resolveu estudar psicologia. Trabalhou dentre outros com Piaget, e além de ser uma especialista em mental “disroders” como william syndrome, é uma critica de nativismo e modularidade. Ta isso ta ficando muito tec.nico. O ponto é que nessa noite, Haiko perguntou a Annette, que vem de um background completamente cientifico, psicologico, se ela achava que “field-work” era importante. Haiko conhece Annette pois trabalham no mesmo lugar, então sua pergunta era mais para ver o que alguem especialista numa area achava do metodo defendido por antropologos.

Annette, de quem eu gosto muito, respondeu de maneira cordial dizendo que nenhum metodo sozinho pode chegar a lugar algum. Lab studies sao importantes para chegar a conhecimento implicito, pq eh possivel controlar muitas variaveis, estasticamente significante. Ao mesmo tempo, field work and case studies are fundamental para entender as suas teorias. “Let me put that way, alone no method can tell you the truth, but if many different methods convey to same evidence, then you are getting somewhere.”

Entao nessa noite, eu que de certa forma, acabei “embodying” metodos mais psicologicos para chegar a conhecimento implictio, que sao consequentimente nao validos ecologicamente, insisti para que o Haiko perguntasse ao Marcelo como ele defenderia “trabalho de campo.” E o Marcelo, daquele jeito que é so dele, disse que um devia chegar ao trabalho de campo com perguntas, mas ficar tempo o suficiente para questionar as perguntas, depois questionar a propria endeavour. A pessoa devia deivar ter o tempo de passar pelo processo de se sentir perdido e achar que aquilo tudo nao faz sentido nenhum, para ai comecar a entender um pouco da maneira como esse outro grupo pensa. In a sense, é perdendo a objetividade que um chega a esse estado.

I pushed it. Perguntei se ele achava que as pessoas de diversas sociedades de fato concebiam distintamente. Sera que a maneria implicita como os nambikwara categorizam o mundo a sua volta é de fato fundalmentalmente distinta da maneira que nos concebemos. Expliquei que eu nao tinha duvidas que as “meta-representacoes” eram distintas, e que isso ja eh um mundo. Mas sera que as meta-representacoes afetam a estrutura. Sera que conteudo, afeta os processos? Sao perguntas é claro sem respostas.

Foi quando sentada a mesa, com o computador ao lado, resolvi mostrar um video do TED ao Marcelo. E eis que recebo a tal mensagem, de alguem que eu nao conheco mas que me deixa uma mensagem que me toca profundamente. Diz ter lido esse blog inteiro. Inteiro??? Como ela coloca “fica sentindo que me conhece sem me conhecer, sera que me conhece?”

Vou deitar, depois de muita filosofia, antropologia, cognicao, poesia, e eis que a mensagem da Renata nao me sai da cabeça. Ela leu me blog inteiro! Como será que eu sou no meu blog? Como será que eu mudei estes ultimos anos? Entao, eu volto la no começo do meu Blog. Lá em 2004. E começo a ler e para minha total surpresa percebo que na verdade eu nao mudei quase nada. Eu sempre acreditei que eramos os mesmo fundamentalmente, e que as variedades deviam ser preservadas. Um mundo multi-cultural tem que ser preservado , respeitado e apreciado! Nao podemos ter a ilusao e arrogancia de achar que o muito recente conhecimento cientifico ocidental tem as respostas para todas as nossas perguntas. Nao podemos sentar passivamente assistindo a destruicao das milhares de linguas e culturas (criadas a partir da nossa “shared evolved cognition”) achando que se todo mundo falasse a mesma lingua o mundo seria melhor.

Nao seria! O mundo fica melhor quando aprendemos a lingua do outro, a cultura do outro, dividimos a nossa, e compreendemos as limitacoes da nossa lingua, do nosso campo de trabalho, da nossa “cultura”. E fica melhor tambem quando compreendemos que apesar das limitacoes de um unico sistema, esse sistema is underlined pela nossa capacidade cognitiva universal. Marcelo, um pouco antes de eu dormir, me diz que se eu quisesse fazer meu trabalho de campo de doutorado na Amazonia podia me colocar em contato com umas 30 tribos distintas ainda sabendo que a minha pesquisa tenta responder questoes cognitivas. E aí fica claro para mim: façamos as duas coisas. Façamos o trabalho de campo passsemos pelo dificilimo processo de nao entender nada, mas o fato qeu eventualmente começamos a compreender o outro, é evidencia forte para mim, que dividimos muito do mesmo. Entao, lutemos pela preservacao da diversidade, respeitemos os limites das nossa disciplinas, e sejamos um pouco mais humildes, para usar quem sabe metodos interdisciplinares. Biologia, cognicao, na antropologia. Antropologia, e psicologa na medicina. Mas ainda mais importante, usemos o proverbo truco do vizinho de Istanbul, ou Confucius na hora que encontrarmos as limitacoes da nossa propria filosofia. Respeitemos e apreciemos a diversidade cultural. Permitamos que a cultura do outro nos faça questionar a nossa. Façamos tudo isso mas sem jamais esquecer que no fundo, somos todos muito parecidos.

ps: Renata, muito obrigada pela sua mensagem! Nao so ela me tocou profundamente, mas tbm me levou a pensar em muitas coisas. Obrigada.