Budrus

Meu grande e querido amigo, cineasta Fellipe Gamarano Barbosa, de quem ja falei aqui, ha mais ou menos quatro meses me encaminhou um email da sua amiga Ronit Avni (fundadora da Just Vision), falando do seu ultimo filme Budrus. Budrus o email explicava estaria em cartaz aqui em Londres no Human Rights Wactch International Film Festival. Percebi pelo e-mail que o filme tbm era projeto da Julia Bacha, amiga do Felipe de NY a quem ele tinha me apresentado brevemente enquanto eu morava la. Na época, a Julia ainda estava na faculdade mas algum tempo mais tarde eu leria seu nome nos creditos de Control Room, um documentatario incrivel sobre como a midia cobria a guerra do Iraque.

Na epoca lembro de pensar no brilhante livro do Edward Said. Covering Islam: How the Media and the Experts Determine How We See the Rest of the World que como Orientalismo fala de como o Ocidente cria a imagem do Oriente. Nesse livro em particular, Said fala de como a Midia literalmente cobre , no sentido de colocar uma coberta, esconder, a situacao real. O livro que foi escrito se nao me engano no comeco dos anos 80, falava da entao revolucao de 79 no Ira. Eu morando em NY desde a queda das torrres, assistindo diariamente como aos poucos ia sendo construido o argumento que legitimasse uma invasao primeiro ao Afeganistao e depois ao Iraque, senti um frio na espinho lendo o livro. O mesmo frio que eu senti assistindo filme da Julia.

Portanto quando vi que ela fazia parte da producao de Budrus soube na hora que eu queria ver o filme. Um sentimento forte, mas ainda nao “sensorial” “corporal”. Apertei o link do email que me levava a pagina do documentario e assim que comecou o trailer meus olhos encheram de lagrimas. Assim que o filme terminou eu comprei meus ingressos pela internet mais de um mes antes do festival. Mandei um email coletivo a todos meus amigos que eu achei que se interessariam. “Ju mas esse filme vai passar em mais de um mes”. De fato, mas eu ja sabia que eu precisava ve-lo.

E entao, chegou o dia, e la fomos nos. A esta altura o filme ja tinha ganhado o premio do Juri no Festival de Berlim e de la para ca, ganhou premios me Madrid, Tribeca, Sao Francisco,. Levou o De Niro, Michal Moore, a Rainha da JOrdania to name a few a seus “screenings”.

O filme é absolutamente “breathtaking!”. Logo na chegada percbei que o filme estava sold out. Entramos assim que a porta abriu e pude observar a sala se enchendo de ingleses, de judeus, de muculmanos, de viajantes do mundo como eu. E o filme comecou. Comecou com os Israelenses vindo arrancar as oliveiras para construir o muro ilegal que deixaria muitos vilarejos completamente fechados, sem acesso ao resto das suas terras. Assisti uma senhora vindo defender sua oliveiras. Uma arvore, eh uma vida. Arvores que tem centenas de anos, que vem sido cuidadas pelas mesmas familias, o simbolismo da violencia é dilacerante. Ali comecei a chorar e nao parei de chorar no filme um minuto se quer. No comeco de choque, tristeza, depois de raiva da injustica. Mas o meu choro mudou durante o filme para um overflowing de emocao, de comocao com forca de grassroot movements, com o poder da solidariedade que passa por baixo de linguas, culturas, nacionalidades, credos.

O filme, conta a estoria de um protesto pacifico que teve sucesso. Um protesto que uniu palestinos e israelenses judeus e a comunidade internacional. Que uniu ate os soldados que depois de servir o servico obrigatorio passavam para o outro lado, protestando juntos contra a construcao do muro naquel local. O filme que em si é a colaboracao da filmagem de todos essas pessoas durantes 6 anos. Julia, estava la para responder as perguntas da plateia. Ayed o personagem principal, o lider palestino, que tinha estado em Berlim teve sua entrada barrada na Inglaterra. Julia, nos deu muito mais informacoes, e num momento absolutamente emocionante, um israelense, que como eu, estava emocionadissimo, agradeceu a Julia pelo filme. Disse que nao tinha ideia de nada disso, disse que mostraria o filme a todas as pessoas que conhecia.

O filme é um dos projetos da organizacao Just Vison. A organizacao fundada pela Ronit Avni e da qual Julia faz parte. Uma organizacao que tenta combater o que o Said há um tempão tentou nos alertar. A Just Vision tenta trazer ao publico instancias onde os dois lado do conflito, as pessoas tentam buscar solucoes pacificas. Tentam se encontrar. Enquanto a midia foca em politicos e terroristas, a Just Vision conta a estoria de solidariedade entre humanos.

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Anger depois de Vipassana

Estou aqui no meu quarto, na minha cama, sentada, lendo e lendo, e lendo pois minha ultima prova é nessa segunda quando de repente, alguem bate na porta, e um homem abre a porta.

Quem é voce? Eu pergunto. O homem responde que eh o agente e que quer mostrar o quarto para umas pessoas que vao mudar aqui para essa casa em setembro.

Bom, tenho que voltar na estória, lembra quando eu tinha postado que o teto tinha caido? Pois é. Logo no segundo dia depois de eu voltar de Vipassana. Estava aqui estudando, quando um senhor entra, sobe, e vem me dizer para nao pagar mais aluguel para a Ms. Afolabe. Apesar de reconhece-lo do primeiro dia, quando ele tinha feito xixi no chao, pergunto a ele quem ele é. Mr. Olu Ado, explica, dono da casa. Mr.Olu Ado mora na Nigeria, esteve numa disputa legal pela casa com o irmao, e tendo retomado a posse tinha demitido a minha landlady pois achava que a casa estava muito mal cuidada. Eu nao poderia discordar disso. Ele tao pouco gostava da Sam Alexander, a agencia picareta que nos alugou o quarto. Pedi para ver papeis, e perguntei a ele o que aconteceria. O homem era bem velho, bem tradicional. Ponderei se ele nao seria algum lider tribal. Abriu a pasta deixando que tudo caisse no chao. Mostrou me varios papeis, e para provar sua identidade assinou um papel. Um outro advogado viria: Mr. AdE, que eu jamais confiasse em nada que nao tivesse seu nome.

Assim que o senhor foi embora liguei para Ms.Afolabe que ficou perplexa. No seu estilo normal barraqueira comecou a gritar ” Como eh que eu poderia acreditar numa pessoa que aparecesse assim….? Expliquei a ela que para comecar tinha sido ela mesma que tinha me apresentado ao senhor Olu Ado como dono da casa. Descomposta passou o telefone para outro senhor. Eu sob efeito de meditacao disse em voz para la de calma: ” Desde que eu mudei para essa casa eu fui enganada, ludibriada, engambelada, nada funciona, e para completar o senhor que me foi apresentado como dono da casa aparece aqui e me diz que demitiu voces, uma vez que vcs eram ineficientes. Como eu nao posso discordar disso, estou ligando pq uma vez que meu contato é em nome da sr. Afolabe, e de acrodo com o dono ela foi demitida, eu queria o meu contrato de volta.

Ms. Afolabe desesperada disse que viria a casa trazendo papel provando que ela tinha sim o direito de alugar a casa. Aceitei e pedi copias. Enquanto ela nao vinha liguei a todos os departamentos que eu podia ligar. Liguei Citizen Advisery Bureau, registrei queixa na policia, falei com todos meus amigos advogados ( contratuais e nao), meus amigos engenheiros e arquitetos. Consultei o Landlord Tenant Agreement, o Housing Act. E acabei por fim tendo que aceitar que eu estavva presa ao meu contrato. Ela ter o direito ou nao, era problema do Sr. Olu Ado.

Entre esses mil telefonemas apareceu aqui o Gassan, o agente que eu imaginava ser o mais 171 do pedaço. Trazendo um potencial novo morador, na minha frente ele mentiu dizendo que a casa tinha varias coisas que nao tinha. Enquanto eu explicava para os novos moradores o pq eu os desencorajava de mudar para essa casa, Gassan no seu estilo sorrateiro desapareceu.

Fui ate seu carro e perguntei.
_Gassan quem eh o dono dessa casa?
-Ms. Afolabe.
_ Eu imagino que uma agencia tenha que ver os documentos da casa antes de aluga-la. Estou correta?
_ Sim
_ E voce os viu?
_ Sim
_E la estava escrito que a Ms. Afolabe é a dona da casa?
_ Sim
-Nossa Gassan, que estranho pq a Ms. Afolabe mesmo me disse que ela nao eh a dona. Que o dono eh o Olu Ado

No total cinismo, Gassan, riu, e propos que talvez ela tivesse dado a casa de presento para o senhor. Talvez ele fosse seu tio.
Diante de tal frase, dei meia volta, e voltei para casa.

Tudo isso aconteceu, e apesar de eu achar o cumulo isso tudo nao me afetou. Eu sentei e denuncei a agencia Sam Alexander em todos os reviews sites que eu encontrei. Ate criei um site contando das nosssas experiencias com eles.

Enfim, entre Ms. Afolabe aparecer, o um vazamento comecou, que levou ao teto de ums dos quartos cairem. O que levou a Ms. Afolabe a dizer ” Nao acredito, agora eu vou ter que chamar “a proper builder” em ref aos pessimos pedreiros poloneses que tinham feito essa reforma. Bom, os proper builders eram tao cinicos como o Gassan. Ms.Afolabe trouxe um paper da Nigeria onde o Mr.Olu Ado da plenos poderes a ela. No fim, ela explica que ela era advogada dele na causa contra o irmao, e que ele nunca pagou as fees entao ela ta tomando conta da casa. Para la de shady tudo isso, mas ja sabendo que eu esotu presa ao contrato dela nao digo nada. Paralelamente, Shane, o australiano contador, e eu tomamos para nos a tarefa de documentar todos os probelmas legais e de construcao com o intuito de ter informacao para quebrar o contrato.

Mas como Adam, que eh maniaco por limpeza, tomou para si o posto de organizar direito a casa resolvi dar mais tempo antes de chamar o Environmental Health. Ele organizou para que todo o entulho e lixo fosse coletado, para que a internet chegasse, para que a casa fosse pintada, ta planejando arrumar o jardim… E no final como eu gosto muito das pessoas que aqui moram, acabei me adaptando.

E eis que hoje eu estou aqui na minha cama, lendo, lendo, lendo, quando esse novo agente aparece com as tais pessoas que vao mudar em setembro. De um certo ponto de vista, isso deveria quase ser um alivio. No entanto, nao foi. Me levantei fui ate a porta e perguntei a ele quem era. Virei para os estudantes na faixa de 18 e expliquei eles deveriam verificar com quem estavam lidando afinal a casa estava totalmente alugada com contratos de um ano. O homem se revoltou e tentou me intimidar.

_ Eu tenho o direito de alugar essa casa.
_ E quem te deu esse direito?
_ Nao posso dizer, pois nao lido com voce!

Viro para os estudantes e comeco a enumerar todos os problemas legais .

_You stop talking to my people.

Fico perplexa!

_ O que? O senhor entra na minha casa, sobe ao terceiro andar, entra no meu quarto e quer me dizer com quem eu posso falar ou nao? Este é um pais livre democratico e eu falo com quem eu quiser. E eu nao vou stand here calada enquanto a mafia dessa agencias completamente nao confiaveis se aproveita das pessoas. O senhor eh capaz ou nao me dar documentos legais provando os direito que tem,

_ EU nao tenho que te responder nada, pq eu nao sou seu agente. Vc leu o seu contrato? Voce nem o conhece direito.

Nessa hora, eu realmente perco a paciencia

_ Meu senhor qual é o nome mesmo da sua agencia?
_ Eu nao tenho que te falar.
_ Meu senhor eu nao so conheco o meu contrato, como estive em contato com mais orgaos legais do que voce pode imaginar.
Eu os enumero. O homem vai ficando cada vez mais bravo. Continua insistindo que eh dono de uma agencia e que tem direito sobre a casa.

_ Qual o seu nome ? pergunto
_ Nao tenho que te falar. Eu tenho o direito de alugar essa casa a partir de setembro.

Eu entro na casa pego minha camera, aponto para ele e digo

-Vc se importa em repetir tudo isso que me disse para que fique documentado?

Ele vira a cara, visivelmente revoltado. Eu nessa altura estou completamente alterada. Nao visivelmente, mas a consciencia que eu tenho praticado em meditacao me faz sentir tudo intensificado. O sangue perccore mais rapido, minha respiracao eh mais curta, e rapida, sinto meu estomago receber jorradas quimicas, meu coracao bate mais rapido, me sinto tremendo um pouco de raiva. Ali naquele homem na minha frente eu vejo materializado todo o cinismo, e falcratruas de todas essas pessoas com quem tenho lidado. Todo o cinismo de todas as pessoas que usam e abusam dos outros para seus proprio proveito. Os estudantes, meio bobos, nao percebem a dimensao do problema. Perguntam so se a casa é boa. Nisso, chega Charlotte, namorada do Adam, que é policial. Delicada do jeito que é explica ao homem que temos um contrato. Ele quer partir. Sem duvida nao esperava dar de cara assim, comigo, embuida de sentimentos justiceiros.

Ligo a Ms. Afolabe, e ela explica que os tinha demitido faz tempo. Liga no viva voz para a agencia. Comunica a eles mais uma vez que eles nao tem direito de alugar a casa. “A informacao sera passada a diretoria”. Eu ligo depois para comunicar o incidente e dizer que nao quero mais que aparecam aqui. O homem, diz que tem o direito. Eu o confronto, com o fato que acabei de ouvir a Ms. Afolabe ligar para eles. Ele fica sem graca e diz ” well, we will see. We will talk to her, we will let you know”. Desligo e resolvo reportar na policia. Que fique registrado tudo isso. Ligo mais uma vez a agencia Victor Stone

Ja bem calma, digo em tom baixo e inalterado.

-Estou ligando pois hoje um incidente desagradavel aconteceu. Narro todo o incidente.” Antes que ele tenha chance de dizer de novo que vai avisar a diretoria eu adiciono. “Eu estou ligando para informa-los que eu registrei o ocorrido na policia. De acordo com minha landlady vcs nao tem o direito de aparecer aqui. Se resolverem aparecer “make sure” de trazer documentos que provem essa autorizacao, otherwise, eu vou chamar a policia.”

Digo isso calmamente, o homem, meio que ri e diz “ok”.

Sentindo ainda a ressaca quimica da raiva que eu senti sento aqui para narrar tudo isso esperando ter um insight. A certeza que eu tenho é que toda essa emocao é negativa. Em Vipassana, uma das coisas mencionadas é que vipassana nao faz uma pessoa menos ativa. Ser equanime nao é o mesmo que ser apatico, ou passivo. Ser equanime possibilita um a agir sem sentir que a batalha eh travada dentro. O grande segredo é provavelmente travar toda essa batalha la como no primeiro dia. A batalha pelo correto, mas sem que a batalha vire minha. Aparentemente Buda, diz que uma ofensa é como um presente, que vc pode ou nao aceitar. Mas como é dificil as vezes nao aceitar.

Pelo menos, a ressaca emocional depois de vipassana dura bem menos.

Paredes Porosas

Como eu passei por muitos departamentos na minha vida academica, posso dizer que tive uma educacao bem variada. No centro do meu interesse, no entanto, sempre esteve os seres humanos. Hoje em dia antropologia e cognicao estao mais no foco do que eu leio. A relacao esteoreotipica entre cognicao e antropologia me fascina. Enquanto, estereotipicamente psicologos cognitivos criticam antropologos dizendo que seus exemplos de variedade sao mais de conteudo do que estruturais, por outro lado eles nao propoe explicacoes tao claras de como é que tanta variedade em conteudo é criada de a partir “so called common evolved structures”. Se deixarmos a esfera estereotipica de lado, percebemos que o ponto crucial desse debate é enteder como estruturas e processos cognitivos se relacionam com conteudo. Em outras palavras, sera que variedade em conteudo implica em mudanca em estrutura, e se esse for o caso até que ponto?

Bom, eu nao pretendo aqui ficar escrevendo muito disso. Esse exemplo era so para dar uma ideia, em que geralmente eu perco horas lendo. Na verdade, eu ja passei muito tempo lendo sobre colonialismo, pos-colonialism, direitos humanos, filosofia. Alias, semana passada numa conversa com um amigo filosofo, ele explicou que conhecimento sempre tem que ser mais fraco que evidencia. Dissociou certezas, de conhecimento. Certezas sao coisas como ” a certeza que o mundo existe”, ou a certeza de que “somos um ser que comeca e termina” essas certeza sao é claro bem universais. EU pelo menos nao sei de ninguem, ou nenhuma tribo que acredite que o mundo nao exista do lado de fora. A nao ser de uma maneira filosofica, um questionamento desses que nao tem prova. Eu e meu amigo ponderamos sobre certezas religiosas, sem duvida elas nao podem ser tao fortes, afinal vemos conversoes, ha variedade, e eu passei dias pensando nisso… Como sera que aprendemos essas certezas, e quao fortes elas sao?

Antes disso eu passei muito e muito tempo estudando politica do oriente medio, e eu perdi a conta de quantos protestos eu ja estive para mostrar o meu apoio. Para dar voz aos sem voz. De alguma maneira, injustica sempre mexeu comigo. MInha avo, diz que desde crianca eu ja dizia chorando ” mas isso nao é justo”. Eu sempre me imaginei uma pessoa de mente aberta, que tenta entender o outro. Na verdade, no mundo de direitos humanos, e defesas dos injusticados, nos de certa forma aceitamos mais os direitos daqueles que condizem com os do nosso zeitgiest. Um zeitgeist individualista, onde a liberdade do individuo é vista como paramount value (um desenvolvimento diga-se de passagem muito moderno). Essas visoes, é claro, num mundo incrivelmente plural e globalizado ficam cada vez mais dificieis de invocar sem cair em frases vazias como “o meu direito termina onde o seu comeca” que no fundo, no fundo nao dizem quase nada. Afinal de contas as nossas concepcoes de direitos e espaco nesse mundo plural varia MUITO!

Esse post, eu ia escrever para falar do Adam, meu companheiro de casa ex-militar, e do Piero meu amigo que se converteu ao Isla. Mas minha cabeca é meio assim, vai ligando as coisas mais improvaveis, ou o que esta ao meu dispor, e nesse momento pq eu tenho lido muito para minha prova, eu acabo me referindo a ciencia social. Do trabalho de Max Weber na a etica protestante, e “ciencia como vocacao” saiu o conceito de “disenchantmente” desencatamento. Bom, confesso que como nunca estudei ciencia sociais em portugues nem os titulos nem os conceitos sei muito bem. Sera entao, como quase tudo que escrevo, uma livre traducao. A ideia basicamente consiste no seguinte. Como no prostestantismo calvinista as pessoas eram predestinadas a serem salvas, nada que fizessem durante essa vida faria muita diferenca. No entanto, para Weber, a ansiedade causada por essa incerteza fazia com que calvinistas trabalhassem muito, pois inversamente, viam os frutos de seu trabalho como sinal da predestinacao a “salvacao”. E como a etica protestante condenava confortos e luxo, todo o dinheiro ganho era re-investido no negocio. Essa etica (junto com outros fatores), para Weber, era a ideologia ideal para o “rise” do capitalismo como sistema. No entanto, com o “rise” do capitalismo a racionalizacao necessaria para produzir lucro etc, aos poucos tomaria lugar da ideologia que instaurou. Por isso para Weber, capitalismo, modernidade, levariam a racionalizacao, secularizacao, individualizacao : ao densencantamento do mundo. Bom, eu to simplificando bem, mas o que importa para meu post, é que para Weber, na modernidade religiao perderia seu lugar de poder social e o mundo ficaria desencantdo.

Essa teoria parcialmente empregada por teoristas modernos (Bruce, Huntington, Tibi) ainda preve que o mundo esta passando por esse processo de secularizacao. O enorme crescimento no Isla, Hinduismo, cristinanismo, movimentos New Age, para nomear alguns deixou muitos proponentes dessa teoria, é claro, perplexos. Na antropologia, esse probelma se traduziu numa linha de estudo sobre o re-encantamento do mundo. Robert Hefner, professor de Stanford, escreve muito sobre isso: sobre religiao e as multiplas modernidades. O que ele mostra revisitando o desenvolvimento do Isla, Hinduismo e Cristianimso, é que na realidade essas religioes nao perderam forca politica. Nos EUA, por exemplo, cristianismo por ter se mantido a margem no estado se manteve muito forte. Para Hefner, o crescimento do Isla se beneficiou muito da modernidade. Da objectificacao de conehcimento que foi permitida pelos “rise” dos estados, educacao superior, livros mais baratos. E para ele enquanto a modernidade de um lado fomenta a expansao do Isla, do outro fomenta tbm a sua interpretacao ( mais pessoas tem acesso, e o valor de interpretacao cresce). Em mundos tao globalizados, e plurais sobram 3 opcoes uma tentativa de dominar e colonizacao, manter-se “puro e excluido”, ou enfraquecer suas doutrinas. Afinal num mundo onde a presenca de diversas religioes é constante, as paredes que as divide se tornam mais porosas.

Eu de estranha maneira posso dizer que isso tem acontecido comigo. Durante a minha vida ultimamente tao academica eu fui muito protegida do outro tao outro para mim. E eis que agora eu estou morando com um ex-militar. Um ex-militar que esteva em 9 guerras ( Iraque, Iugoslavia, Rwanda, Belize, Afeganistao etc) e que adorou ter ido para guerra. Um ex-militar que vem me mostrar fotos que ele tirou nesses paises. Volta e meia eu digo algo provocativo “Quando vc assistiu Avatar ficou bravo que o homem trauiu o exercito” “Claro que nao Jules. I have a heart! The army was wrong!” E é claro que ainda que eu fosse passar horas dizendo que os ingleses tbm estavam wrong de estar no Iraque ele nao concordaria. “You know. I just do what I am told. I am not a politician” O negocio estranho é que no passado eu teria entendido isso como uma defesa psicologica, como o discurso criado para poder suportar o terrivel. Vivendo dia a dia com o Adam as paredes entre opressor e orpimido ficam bem mais porosas. De alguma maneira surreal ele se importa mais com as pessoas do que todos os meus amigos e eu que defendemos direitos humanos juntos. Assim com Alyosha ele se importa com induviduos, enquanto nos com a distante “humanidade” (Nos Irmaos Karamazov).

Anteontem, Adam, que é simples e do norte preparou um jantar para casa inteira. Fez meu prato especialmente vegetariano. Trouxe um por um. Nos explicou que isso era comida tradicionalmente inglesa. Eu fiquei tocada, toda aquela comida para todos nos. Depois explicou que queria nos levar a Scarborough, sua cidade natal. Até a maneira dele de me incentivar é totalmente o oposto do que eu esperaria …”All the Pubs are at least 400 years there… know you dont drink and all, but Scarborough is the most beautiful place in the world. It was on TV the other day!” Tem fotos do seu filho que é Israelense e chega em junho por todo o quarto. O filho tem 10 anos e quando eu perguntei o que ele achava dele “join the Israeli army” Adam, me explicou que “the Israeli Army is fantastic, not that he would say it is better than the British one, only if he had to. But my baby, my son, I want him to be in the marine, and just float.” Pergunto por que “Are you crazy too much life being lost there for nothing!”. Pergunto a a ele se ele iria para Gaza, ele diz que sim. “Entao porque voce nao quer que seu filho va????” “Jules he is my baby son, my baby, are you crazy!” Adam telefona para o filho todos os dias, vai a Israel 4 vezes por ano, e o traz nas ferias de verao para passar 3 meses com ele. Quando fala dele se emociona. Da ex-mulher, explica “que é uma mulher forte maravilhosa. We fell out of love, we are great friends though!” E ao poucos vai cativando a todos, na sua simplicidade, na sua humildade, na sua generosidade. Noutras vezes, no entanto, as paredes se tornam completamente visiveis, concretas, solidas. Ele traz um album de fotos, nele fotos dele no Iraque, Belize, etc Uma foto esta faltando, ele a descreve, é uma foto maravilhosa ele explica: “Eu no Iraque, o sol quente, o deserto, dois Iraquianos ajoelhados, eu apontando minha metralhadora para cabeca deles, e o vento batendo no meu lenço.”

Haiko fica sem palavras. E eu confesso que nao sei direito o que pensar. Assim como quando meu amigo Piero ( o que se converteu ao Isla), me escreveu ha algumas semanas dizendo que apesar de discordamos em poucos pontos somos muito parecidos. Manda essa mensagem junto com o link que explica que era dia da Fatimah, a mulher ideal de acordo com o Isla. Eu fico sem palvras porque no fundo eu nao entendo. Mas vai ver que o Hefner tem razao, nesse mundo tão plural so existe a opcao de total seclusao, de overpower, ou de enfraquecer um pouco das nossas ideologias, pois essas sao paredes sao porosas demais.

Vipassana II- Das Flores

“What a strange thing!
to be alive
beneath cherry blossoms.”
— Kobayashi Issa

Enquanto as milhoes de estorias borbulham dentro de mim, eu é claro não tenho tanto tempo como gostaria para escrever. Tenho que estudar para minha prova que será no 17 de maio. Não posso reclamar pois com meu horario regulado gracas ao retiro, e minha concentração bem mais aguda estudar tem sido mais prazeroso, mais fácil e muito menos overwhelming. Desde que voltei mandei um email a alguns amigos, aqueles em quem pensei durante o retiro. Aqueles que eu achei que de alguma maneira aproveitariam uma oportunidade como essa. E eis que recebi algumas respostas, algumas perguntas que me fizeram pensar mais a respeito da minha experiencia.

Como eu fiz em meu e-mail vou tentar livremente explicar mais ou menos como eu compreendi Vipassana. Basicamente nos 3 primeiros dias do retiro somos ensinados a sentar e prestar atencao na respiracao, só isso, mais nada. Apenas a respiracao sem vocalizacoes, ou mentalizacoes para que se aprenda a focar a mente, para que a mente fique aguda o suficiente para se poder praticar Vipassana.

Vipassana é baseada no seguinte: a ideia que sofrimento vem do padrao da nossa mente de nunca estar no presente. De sermos jogados do passado ao futuro por nossas emocoes e pensamentos o tempo todo. Sempre reagimos com aversao ao que nao gostamos e com apego ao que queremos e como tudo é impermanente sofremos. Mas tudo que existe no presente sao sensacoes. Por isso, Buda acreditava que se aprendessemos a nos tornar totalmente conscientes das nossas sensacoes e aprendessemos a ficar equanimes ( nao reagir com apego ou aversao a elas) quebrariamos profundamente o padrao de reacao da mente. Vipassana, portanto, treina voce a ficar consciente das sensacoes corporais ( calor, dor, formigamento, vibracoes etc) e a praticar equanimidade ( nao reagir, observar as sensacoes “como um cientista” objetivamente).

Entao, durante os ultimos 7 dias aprende-se a observar o corpo todo. Comecando pela cabeca, e pedacinho por pedacinho scaneando o corpo e observando as sensacoes até chegar as pontas dos dedos do pé. 3 vezes ao dia, faz se uma determinacao de sentar-se por uma hora sem se mexer observando o que é que se passe, o que é que se sinta com desapego, pois tudo é impermanente. Durante o retiro, observa silencio nobre. Silencio de fala, gestos, pensamento etc…

Eu tive é claro muitas duvidas filosofico cognitivas. Ficar em silencio foi facil. Uma vez la ha uma sensacao de enorme apoio, de enorme gratidao. Como nao se paga nada para ir quando vc chega, e conforme os dias passam, e observa-se como tudo é bem mantido, fica cada vez mais evidente que tudo aquilo so é possivel porque as pessoas que la estiveram antes de vc doaram dinheiro para que essa oportunidade tambem fosse dada a outras pessoas. Toda a deliciosa comida que se come é preparada por voluntarios que além de meditar acordam ainda mais cedo para cozinhar para vc.

Eu tive muita sorte com o tempo. Os dias estavam lindos. A primavera estava chegando e simbolicamente eu sentia a vida voltando. Confesso que nao reparei nas flores quando cheguei. Talvez tenha sido no terceiro dia quando eu ja estava realmente concentrada que reparei que as cerejeiras na frente do meu quarto estavam florescendo. Compreendi profundamente dessa vez Kurosawa num dos seus “Sonhos”. Entendi mais os japoneses que falam tanto da beleza das cerejeiras em flor. As festas (hanami) para ver as cerejeiras em flor(sakura) acontecem no Japao desde o seculo VII.

Há alguns preceitos que se observa quando se pratica Vipassana, e um deles é nao matar. Nos meus tres primeiros dias eu passei mal, tive diarreia, e muita dor de estomago, mas observando o silencio, e nao tendo muito o que fazer fiquei em silencio. Minha companheira de quarto que deve ter reparado minhas massagens no estomago, colocou ao lado da minha cama um pequeno vidrinho. Quando eu voltei ao quarto, sem olhar para ela, evitando qualquer comunicacao reparei a presenca de um vidrinho verde desconhecido no meu lado da mesinha. Fiquei surpresa, peguei o vidrinho e vi que era um remedio natural para dor de estomago.

É incrivel, como pequenos gestos como esses te tocam. Fazia 3 dias que eu estava em silencio e eu sabia que apesar do silencio estavamos ali uma no apoio da outra, e todos mutualmente se apoiando em silencio. Eu nao podia dizer obrigada, nao podia escrever obrigada, resolvi que em agradecimento colocaria uma flor no seu lado da mesa. Como eu não queria matar nada, inclusive uma flor, procurei uma flor que estivesse caida. Coloquei-a do lado da mesa que ficava perto a cama de Liz.

Os dias foram passando, e a cada dia eu olhava para as cerejeiras para ver como elas estavam naquele dia. Sentia-me tocada por meu retiro acompanhar o desabrochar das cerejeiras. No final dos 10 dias elas estavam completamente em flor. Eu finalmente entendi ali toda a literatura japonesa que eu ja tinha lido. Não é apenas que elas sejam lindas, mas é o processo que acontece todos os anos, um processo impermanente, onde nehum dia é igual ao outro, onde, as petalas voam, onde tudo se move em direcao a perfeicao, ao que pode parecer um momento fugaz de beleza, ao qual vc nao pode se apegar. Eu observei o processo, e entendi experiencialmente a beleza de uma cerejeira em flor. A breve, fugaz, impermanente beleza da cerejeira apesar de “breathtaking” não é o seu maior poder. O mais tocante é observar o processo diario. O mais poderoso talvez seja a permanencia do impermanente. Observar as cerejeiras desabrocharem, e saber que apesar da primavera ser todas as vezes diferente, ela é sempre primavera. Observar uma cerejeira em flor é observar a coexistencia do tempo cronologico e o ciclico.

No decimo dia, quando o silencio foi levantado Liz veio me dizer obrigada pela flor no seu lado da mesinha. Expliquei a ela que tinha pegado uma flor morta pois nao queria matar uma flor. Ela eh claro ja tinha compreendido isso no nosso silencio. E é claro que se eu tivesse colhido uma flor viva, ela teria sido morta no ato. No entanto, de alguma maneira ali a impermanencia da vida e da beleza da flor se mesclaram. A gratidao, no entanto, simbolizada na impermanencia do material se dissociou do material.