Videos No Youtube

Ontem coloquei vários vídeos de músicas minhas no Youtube. Fazia muito, muito tempo que alguns amigos meus me pediam para fazer isso. Eu sempre meio insegura, mas ontem passei o dia tocando violao, um violao que nao é meu, aqui na casa da minha amiga Dri e gravamos vários videos no jardim!!! Esse primeiro é de uma música que acabei de fazer. O resto ta AQUI
Espero que vocês gostem!

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Promises

Minha querida amiga Gabi que faz quase um ano foi trabalhar em Bangalore na India me deixou uma mensagem no ultimo post falando do filme Promises. Na hora que eu li eu me lembrei na hora do tempo em que eu morava em NY, e da minha housemate marroquina Leila. Lembro dela voltando desse filme completamente emocionada. Leila, fotografa e sociologa, não é manteiga derretida como eu que choro até em propaganda de margarina. Leila tem um coração tamanho do mundo, mas por fora ela é durona.

Quando meu Landlord Iraniano Mr.Tala entrava na casa sem bater, eu servia cha, Joss, minha housemate americana, se escondia debaixo da cama. Leila, na unica vez que estava em casa quando isso aconteceu andou sem hesitar em direcao ao Mr. Tala e disse: ” Mr. Tala you have not been invited to come to this place so you must leave!.” Mr. Tala é um senhor Iraniano e um verdadeiro misterio para mim. Ja tinha feito, ou pelo menos dizia ter feito de tudo na vida. Normalmente, tudo variava de acordo com o interlocutor. Comigo me contava de suas experiências no Brasil, para Leila falava do Marrocos, com meu amigo tenista falava de quando tinha sido campeao de tennis. ENfim, a lista era tao extensa que eu comecei a anota-la. Esse dia, Leila severamente disse ao Mr Tala:

” Mr. Tala if you want to come here you call first! If no one picks up you do not come! If one of us picks up you wait to be invited, if you are not invited you do not come! If you are invited you drive all the way here then you ring the bell, if no one answers you turn around and you go home! If one of us comes downstairs, opens the door, you wait to be invited inside, if you are not invited you do not come! You turn around and you leave! Only once you are invited you are allowed to come in! Do You understand?!”

Eu e Joss, estavamos tão quietas quanto as criancas de 6 anos na escola onde eu voluntariava ao ouvir a gritaria da professora. Mr. Tala diante da explicacao passo a passo da Leila disse apenas: ” Leila, what is your father’s email?” Leila, ficou meio que perdida. E perguntou ao Mr. Tala o porque da pergunta. Ele deu uns tapinhas carinhosos e fracos no rosto dela e disse no seu tom empolgado ” Because I must tell him what a very inteligent daughter he has!”

Esse era Mr. Tala, e essa era Leila. A mesma Leila que o defenderia com unhas e dentes quando Joss resolveu que deviamos press charges de harressment contra o Mr. Tala. Leila, perplexa disse ” But you can’t go from offering him tea to suing him without ever telling him you dont want him here!!!!”

Assim que quando a Leila voltou emocionada do filme eu soube que tinha que ve-lo. E de fato, quase tudo que eu tenho lido e vivido ultimamente vai me lembrando de promises.

Ontem, eu fiquei sabendo que ganhei dinheiro do departamento da LSE para fazer meu doutorado. Quando contei ao filho do Adam que estava pensando em ir a Israel agora em Setembro ele me disse:

“Jules, where are you going?

Contei a ele o nome das cidades que eu pretendia visitar (que sao as cidades onde ficam as escolas). E ele ontem, veio me dizer que eu tinha que ir para Nazareth na escola dele.

_ Mas vc se lembra que a escola que eu vou tem Arabes e Judeus.

Eu ja estava esperando que ele dissesse de novo que isso era uma pessima ideia.

_ Na minha escola tambem tem arabes. Tem um arabe na minha classe!

Fiquei surpresa!

_ Really, but I hear you don’t like him.

_ He is ok. He is nice. It is only sometimes that he get angry very fast. I get angry very fast too.

Eu fiquei em choque.

_ Really? How come?

_ I guess after all we are not that different!

Se tudo isso é vontade dele de me convencer a ir a escola dele eu nao sei. No entanto, eu fiquei feliz.

Hand In Hand

Acho que nao contei aqui que me inscrevi para fazer doutorado na LSE. Como quase tudo na minha vida foi meio por acaso. Eu escrevi um paper e meu supervisor disse que seria um bom projeto, esse projeto virou um outro projeto, eu fui meditar para descobrir se queria mesmo fazer doutorado, nao descobri e uns dias antes de me inscrever para receber dinheiro do departamento minha supervisora Rita Astuti, me disse que achava que eu nao estava motivada para esse projeto. Era verdade. Ela sentou comigo e disse “let’s think together”. Sugeriu que eu voltasse para casa e lesse mais que talvez mudasse meu projeto de trabalhar com ortodoxos judeus, para budistas. Voltei, li, li, li e por acaso cai no site de um grupo de escolas em Israel chamado Hand in Hand De acrodo com o site “each school is co-directed by Arab and Jewish co-Principals; and each classroom is co-taught by Jewish and Arab teachers. Students at each grade level are balanced between Arab and Jewish children. Students at all grade levels are taught in both Hebrew and Arabic, learning to treasure their own culture and language while understanding the difference of others around them.”

Adorei a idéia de trabalhar com essas pessoas. Afinal de contas sao pessoas que estão fazendo uma escolha difícil no estado de Israel de mandar seus filhos sejam eles árabes ou judeus para uma escola de ideologia tao alternativa porque acreditam que so no encontro e respeito desses dois grupos pode haver paz. Antropólogos sao muito críticos sobre escolas. Escolas sao veículos pelos quais estados constroem cidadãos, onde ha o desvalorizamento de cultura local ( como no caso de populações tribais que sao forcadas a irem a escola), ha um milhão de estudo de como educação reinforça divisões de classe, poder etc. Essa escola, portanto, ja é interessante por isso, já que ela eh “anti-establishment”. Ela busca uma compreensão entre esses dois grupos que durante tanto tempo estiveram em conflito. Eu nao pretendo aqui entrar nas mil outra complicadas nuances ( por exemplo a difícil distinção Árabe X Judeu, os diferentes Judeus etc). Para o meu post basta dizer que essa escola tenta trazer esses grupos que se consideram distintos numa mesma escola, sendo ensinado em Arabe e Hebraico por duas professoras ao mesmo tempo.

O meu interesse é vasto tanto antropológico, como cognitivo. Interessa-me muito como as crianças “essentialize” essas categorias sociais. E como joint action ( acao conjunta) influencia no processo de “othering”. Mas eu nao vou chatea-los com esses detalhes. Tudo isso é para dizer que provavelmente eu devo comecar meu doutorado no semestre que vem, e em um ano ir fazer trabalho de campo em Israel.

Por isso, quando o Adam meu flatmate anunciou que seu filho de 9 anos que é Israelense viria para Londres, fiquei curiosa em saber como ele concebia dessas categorias. Ele é timido e no comeco mal falou comigo. Depois de jogarmos dias de futebol, eu aprender a tocar uma musica que ele gosta no violao, fazermos yoga, acrobacias, jogos da copa do mundo ele virou meu amigo. Assim que ontem, nao queria ir comer fora a nao ser que eu fosse junto. Fui, e no meio do jantar o Adam, contou a ele que talvez eu fosse a Israel trabalhar numa escola.

Seu filho me olhou, e disse ” como que vc vai fazer se vc nao fala hebraico?!?!” Eu respondi que eu iria aprender. QUe eu queria aprender Arabe tbm porque a escola onde eu ia trabalhar era metade Judia metade Arabe. Ele ficou mudo. Parou um segundo e disse ” Jules, change the school. that is not a good idea! Os Arabes sao todos maus!”. Perguntei a ele como ele sabia disso. Ele explicou que todo mundo sabe. Eu perguntei se ele conhecia todos os arabes do mundo, ele concordou que nao, e eu disse entao que era impossivel para ele saber se eles eram todos maus! Lembrem-se essa conversa era com uma criança por isso eu estava tentando faze-lo pensar, tentando descobrir como ele pensa, nao tentando ataca-lo.

“I jsut know.”

Adam comecou a explicar que ha pessoas boas e más na inglaterra, no brasil, no africa do sul, na franca, na Italia, em Israel… enfim no mundo todo. ( eu queria ate questionar o maniqueismo mas diante de uma crianca de 9 achei melhor follow through com a divisao bom e mau). Seu filho nao convencido disse ” Isso é verdade para o mundo todo menos para os Arabes e os Alemães!”

Expliquei para ele que a guerra tinha sido ha muito tempo. Que os alemaes sao boas pessoas. Ele deixou isso passar mas disse ” But no the Arabs! Eles sao todos maus!!!” Ele olhava para mim perplexo como se eu e o Adam tivessemos fazendo uma piada. Como se estivessemos dizendo algo do tipo ” se vc soltar o prato no ar ele nao cai no chao!”

Perguntei a ele entao se ele nao gostava de NENHUM arabe! Ele concordou que nao gostava! Entao eu disse: ” E seu eu te contasse que eu sou Arabe?”

_Jules, I know you are not! You are Brazilian!

_Well, I am Arab Brazilian, porque minha mae eh do LIbano”. disse séria apesar de nao ser verdade.

Ele pensou, pensou, pensou e disse ” Nao voce entao nao eh Arabe”

_ Claro que eu sou! Voce nao eh Judeu porque sua mae é Judia? EU sou Arabe pq minha mae eh Arabe.

Ele ficou em silencio um tempao pensando ai virou para mim e disse:

” Well, As mulheres Arabes sao boas pessoas, sao so os homens que sao maus.”

Eu comecei a rir..porque o reasoning foi mais ou menos assim: ” 1. Os arabes sao maus, 2. Eu gosto dela!…… entao ou ela nao pode ser arabe ou eu preciso adequar o meu pensamento! E ele o fez.

De um lado me fez perceber o quao fora de discussao esta a ideologia. O quao forte ela eh numa crianca de 9 anos que tem um pai Ingles. Do outro, me deu um certo otimismo de imaginar que sem duvida nenhuma se vamos conseguir jamais alguma diferença em processos de minizar os efeitos de ver o oturo como inimigo isso tem que ser feito nao na ideologia mas no encontro dessas pessoas. Na acao conjunta. No brincar. It is a long shot e eu sei que há muitas pessoas que nao querem que isso aconteça. Isso coupled com a tendencia do nosso cerebro de classificar em grupos dos quais pertencmeos ou nao. Mas eu sou otimista, e tbm acredito na nossa natureza social, e altruista. Por isso espero que sim, que essa escola consiga fazer essas criancas que se concebem tao distintamente a andarem hand in hand.