Do Grupismo as Cotas

Acabei minha dissertação. Graças a um atraso no meu voo a Budapeste. Sim, em meio ao meu ultimo mes meus pais vieram para Europa e me convidaram para ir a Budapeste. Não consigo dizer não para uma viagem nunca. Fiquei um pouco preocupada afinal eu já tinha mudado o meu tema de ultima hora, e ainda sair 5 dias para viajar??? Então, levei o computador comigo, e no aeroporto com um atraso de apenas 7 horas sentei e pela primeira vez li tudo que eu já tinha escrito na ordem certa. E fui conectando, reformulando, assim que quando cheguei a Budapeste minha dissertação estava praticamente pronta. Nao sei se ela esta boa. Sei que ela diz tudo que eu quero dizer, e que não quero dizer mais nada sobre isso. Pelo menos nao por agora.

Foi bom, pois meu santuário português deixou de ser santuário. Dna Cecilia toda vez que eu partia passou a desejar me “sonhos cor de rosa” num sotaque lindo português. Depois fregueses passaram a me perguntar o que era que eu estava fazendo. Quando eu respondia “antropologia cognitiva” invariavelmente, partiam, voltavam e perguntavam o que era. Eu, que começo sempre de “Adão e Eva” 🙂 perguntava: ” você quer mesmo saber? se quiser eu explico, mas então senta”. Queriam. E assim sentaram na minha mesa vários senhores, e ouviram a história da antropologia.

O dia mais engraçado foi o dia, que eu já me sentindo em casa, com todos os meus artigos marcados com caneta daquelas fluorescentes esparramados sobre a mesa… ouvi um homem me chamar.

“Desculpe, mas eu estou muito perturbado com esse seu artigo”

Eu estava tão concentrada que tive que voltar de outro planeta, olhar para ele, para a mesa para ver do que ele falava. Um artigo cognitivo de Gil-White chamado “Are ethnic groups biological ‘species’ to the human brain?”. Eu que achava que cognição era bem menos polemico que religião comecei a explicar.

“Esses artigos estão falando da nossa tendência cognitiva de classificar, identificar, essencializar. A ter uma tendência por grupismo. Por grupismo, expliquei, eu quero dizer, a tendência que humanos tem de criar grupos, e de percebe-los como entidades substanciais no mundo. Fazemos isso o tempo todo. Desde bebe até adultos. Categorizamos. Formamos categorias de copos, xicaras, leoes, e aparentemente de pessoas. Categorias tem muita informação implícita e são indutivas. Ou seja, nos fazem prever o que esperar e como agir quando encontramos algo. É um mecanismo cognitivo para poupar esforço. Imagine se tivéssemos que realmente a cada encontro com uma nova coisa aprender tudo sobre ela. Nosso cérebro portanto cria categorias.

Categorias sociais ( etnia, raca, nacionalidade) não são coisas concretas no mundo. O que esses artigos estão fazendo é tentar entender a nossa tendência a perceber esses grupos como concretos. Dizer que eles não existam concretamente não é dizer que eles não tenham poder. Claro que tem! Vemos isso todos os dias. Como diria o Brubaker um approach cognitivo a grupismo permite que pensemos em grupos ( racas, etnias, nacionalidades) não como coisas NO mundo, mas sim perspectivas SOBRE o mundo. E se compreendemos grupismo como parte da nossa cognição natural percebe-se o porque é tão presente e o porque é tão difícil passar por cima desses mecanismo. Isso é claro, expliquei, não é para dizer que eu ache que por temos essa tendência a classificar, essencializar e a gostar mais do nosso grupo do que o dos outros ( ainda que esse grupo seja completamente arbitrário) que por isso devemos achar que racismo, xenofobia etc e tal são aceitáveis. Exatamente o contrário, compreender melhor esses mecanismos nos ajuda a desenvolver melhores métodos para combater grupismo quando usado nocivamente.

Expliquei tudo isso e mais um pouco. Ele me olhou, olhou, fez perguntas e partiu. Depois voltou e me disse:

“Eu sou meio louco, sou bipolar, já tenho 47 anos, por isso não estou te convidando para sair sair, mas vc quer ser minha amiga?”

Comecei a rir, nunca tinha visto ninguém se apresentar assim. Disse que sim, claro, perguntei seu nome, e nao resistindo perguntei. “Por que vc ficou tão interessado no meu artigo”

“You know, when I visited Tajikistan I thought they were different people, like they were from another species, I am glad to know is not that it was not me, just my brain.”

Eu não disse nada. O dualismo é incrível. O que esse cara quis no fundo dizer era ” fiquei feliz que eu não sou uma ma pessoa porque achei eles tão diferentes…. meu cérebro classifica”.

Categorias são indutivas. Algumas categorias são mais indutivas que outras. E é claro que cognição não flutua no vácuo. Ela informa e é informada pelo nosso meio socio-cultural. Não é de se surpreender que em Israel, as pesquisas com crianças mostrem que a categoria social mais indutiva é etnia. “Arabe” e “Judeu”. Mesmo em Israel no entanto, há diferença entre grupos, Judeus religiosos generalizam mais com essas categorias do que judeus seculares ou árabes. Em outros lugares pode ser gênero, ou status… sei la.

Quanto mais eu tenho lido sobre isso, mas eu acho que tornar categorias explicitas em discurso é pior. Porque essas categorias retificam a idéia que esses grupos existem como entidades substantivas. Eles não existem. Nos somos todos humanos. No entanto, as percepção desses grupos é real, e portanto tem conseqüências políticas.

Como sempre meus posts são assim começam num lugar para parar noutro. Eu já estou pensando no sistema de cotas no Brasil. Eu não sei se discriminação positiva é uma boa coisa. Tenho impressão que são medidas paliativas que não lidam com os problemas reais. O problema real é melhorar o ensino público para TODOS. Eu realmente não sei. Sei que lendo cada vez mais sobre o efeito de tornar uma categoria social parte de discurso ( Utus e Tutsis por exemplo) é uma idéia com seus riscos. Tenho medo que o que seja gerado no fim seja uma redução de empatia. Se nos já temos uma tendência a gostar do nosso grupo em detrimento do outro, será que criar mais grupos é uma boa idéia? Não sei direito…

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No "Meu" Café

Estou no meu café Português. Acho que ainda nao falei dele. O café português. O “meu “ café português é um lugar perto da minha casa. Quando eu estava estudando para minha última prova um dia esqueci meu Oyster card (cartão do metro e onibus aqui em Londres) e com preguiça de voltar em casa entrei nesse café. Ele é feio por fora, como é sem graça por dentro. Ele nao tem internet nem nada de aparentemente especial. Aparentemente é claro porque para mim ele é magico. Eu entrei, sentei, pedi um um café e meio sem graca tirei uns artigos da bolsa para ler. Nao tive coragem de tirar meu computador. Porque meu café é assim um lugar meio austero. Pedi um café, e eu que nunca bebo café senti meu coracao disparar. E entao comecei a ler. E assim que comecei a ler, comecei a me emocionar com tudo que eu nao tinha lido durante o semestre. Tudo foi se juntando na minha cabeca de maneira pouco ortodoxa e eu voltei para casa e escrevi um paper. Mandei ao meu supervisor num estado de euforia porque as minhas conexoes e “claims” eram completamente minhas. Um pouco insegura mas querendo saber o que ele pensava mandei. Ele me escreveu dizendo que o paper era brilhante em letras capitais. Se vc reproduzir esse tipo de trabalho na prova, disse ele, vc não terá problemas. E então, nesse dia, o café português virou o “meu” café.

Aos poucos fui ficando cada vez mais a vontade. Tirando mais artigos, livros, este computador. Lendo em meio a barulheira, as conversas que pouco me interessam, aos barulhos de pratos, xícaras, maquina de café. Ao bonito som da língua portuguesa na boca de angolanos, portugueses, cabo-verdianos. Aos sons de outras línguas misturadas no ar fosco e pouco interessante do meu café. Para poder fazer doutorado, apesar de ja aceita eu ainda tenho que ter mérito no meu mestrado. Fiz minha prova, meio preocupada. E confesso que sai direto de la para uma palestra onde encontrei minha ex-supervisora ( e futura de doutorado) sem saber muito bem como tinha ido na prova.” Jules, I am sure you did well” Disse ela. Eu , no entanto, nao estava tao sure. Eu misturei neurociencia, com antropologia e filosofia, e mais uma variedade de pensamentos que as vezes so fazem sentido na minha cabeca. Como se eles viessem de areas totalmente distintas e se sintetizassem no processo da escrita. Como aqui alias. Então, a minha professora podia odiar, ou amar, ou mais ou menos. Sei la. No fim, foi uma estória de final feliz, porque eu tive distinção. Para a minha total supresa.

E eis que agora eu preciso terminar minha dissertacao ate dia 1 de setembro. E eu que tinha tudo claramente decidido em minha mente ha meses resolvo assim de ultima hora, faltando menos de um mês mudar de tópico, de artigos, de estória. Andando assim, na biblioteca. Meio ao léu peguei um livro na prateleira e ao abri-lo, meus olhos encheram de lágrimas. Um livro escrito por uma Palestina e um Israelense. “Coffin on our shoulders: The experience of Palestinian Citizens of Israel.”

O livro é escrito pelo Dan Rabinowitz, antropólogo formado em Cambridge, e professor em Tel Aviv, e pela Khwala Abu Baker, Palestina professora no Emek Yezreel College. O livro mistura a conseqüência do sionismo para a família dela e dele, com a Historia de Israel. Como sionismo salvou a sua família, causou “excruciating” dor para a dela.

Ali, naquele principio eu soube que eu queria escrever sobre isso. Não só já é muito relacionado ao meu doutorado, mas eu queria ler mais. E eu li. E comecei a ler sobre os nossos processos de categorização. A nossa tendência cognitiva de classificar o mundo a nossa volta. A tendência que temos de “essencializar” ( buscar essências em coisas). Resolvi que eu queria falar sobre “ethnicity” de um ponto de vista cognitivo. Ou seja, em vez de tartar raças como fixas, substanciais, como experiências subjetivas informadas pela nossa “natural” tendencia a essencializar, categorizar, identificar grupos no mundo.

Entao voltei ao meu pequeno café portugues. Onde tudo faz sentido sem fazer sentido nenhum. Como é que eu posso conseguir me concentrar aqui e nao na minha casa, e nao na biblioteca ? Aqui as idéias fluem,se misturam mas acima de tudo me emocionam. E fica muito facil eu aceitar tudo que eu sou… antropologa, cognitive, apaixonada por musica, yogi, gostando de de meditação, tomando café, etc etc etc.

Recebi um email muito muito tocante de uma professora de NY. Um email em resposta ao meu de agradecimento a ela por me acordar, e me inspirar na luta por justica. No email, ela diz

“ Tem gente que acha que a situacao ( Palestina-Israel) eh complexa. Eu nao sou uma dessas pessoas. Eu acredito em justiça. Por isso acho que nos temos que confrontar racismo todas vezes e onde o encontramos”

As palavras são fortes. Como sempre foram. E enquanto eu aqui no meu pequeno café leio sobre a nossa natural tendência de classificar, de gostar de grupos eu nao posso deixar de pensar que se vamos construir um mundo mais justo, e onde vivemos TODOS melhor, precisamos comecar em nos mesmos com as nossas proprias tendências. Eu ja disse mil vezes que nao sou nacionalista. Hoje eu sou ainda menos . Pois fica cada vez mais claro para mim nesse café cheio de gente de lugares distintos, falando línguas difererentes que precisamos tornar estranho o que nos é familiar. Só assim, nesse diário esforço contínuo de lutar contra nossa tendencia cognitiva de classifcar o mundo em grupos vamos conseguir um mundo mais justo, de mais empatia com o outro. Um mundo onde não tenhamos a necessidade de nos sentirmos parte de um grupo e portanto distinto de um outro. Um mundo, onde orgulho nao seja ligado a ser parte de algo que esta inteiramente fora do nosso controle.

Sempre que eu digo isso, alguns amigos me dizem “ Juleita, você é brasileira!” ( quase que ofendidos por eu me considerar humana).” Olha a sua música”. É verdade, eu toco , e sinto a música brasileira onde eu nao sinto outras. Eu sou mais fluente em português do que em todas a outras línguas que eu falo juntas. Eu acho um milhão de manifestações culturais que acontecem no territorio “imaginado” Brasil lindas. Mas eu tambem sou tocada por muito que vem de outros territórios imaginados. Acima, de tudo, ter passado tempo voluntariando num vilarejo onde eu era a unica “farang” ( em Tailandes “goiaba” termo que eles usam para brancos de fora:), nao sabendo a língua me iluminou muito para isso. A nossa fundamental humanidade. O comunicar nos gestos, nos olhos, no riso. Claro, que eu não nego as diferenças de cultura. Eu só acho, no entanto, que somos humanos. Temos essa tendencia a classificar o mundo em categorias porque isso torna mais facil cognitivamente viver. Numa categoria há muita coisa inferida. E apesar de reconhecer que categorizar é parte da nossa cognição natural,que por isso mesmo precisamos em vez de tornar categorias sociais mais fortes no nosso discurso ( nos sentirmos brasileiros, ou budistas, ou torcedores do flamengo) precisamos praticar nos “estranharmos” dessas categorias. Assim como filósofos, ou viajantes. Nesse saudavel estranhamento fica mais fácil de lembrarmos que no fundo nos e o Tuareg, o Nambikwara, o Piracicabano, o Russo, o muçulmano, o ateu, o evangélico, o !Kung que nunca sequer encontramos somos no fundo muito, muito, muito parecidos.