Going Home

Acabo de chegar em casa depois de uma dessas noites excepcionais. Fui assistir um concerto e quando estava voltando para casa, no ponto de ônibus vi uma senhora que parecia perdida olhando para o ponto. Está frio aqui em Londres, uns 10 graus. A senhora estava num vestidinho rosa que parecia ser uma camisola, um sapatinho que parecia de quarto, e eu na rua ja tinha percebido que ela devia estar perdida, mas ainda não tinha percebido de onde exatamente.

Fui até a ela e perguntei para onde ela estava indo. Ela pareceu surpresa com minha pergunta mas me explicou e eu na verdade não entendi. Perguntei se ela estava perdida e ela disse que não. Explicou que queria ir para casa. Perguntei se ela sabia como chegar em casa e ela apontou para o ponto de ônibus a nossa frente. Li todas paradas de todos os ônibus que paravam no ponto e quando o primeiro ônibus chegou entramos.

Ela colocou o dedo na maquina do oyster card, pois não tinha bilhete e o motorista perguntou a ela para onde ela ia. Ela respondeu e ele deu o assunto por encerrado. Eu apontei para ele o fato que ela devia estar perdida mas ele nao soube muito bem o que fazer. Disse apenas que o onibus dele estava indo naquela direção Que direção eu nao perguntei pois percebi que nao faria diferença.

A senhora entrou e sentou-se. Foi então, que eu percebi no seu braço a pulseira de hospital, os curativos, e uma agulha (dessas para quem ta recebendo soro) na mao. Uma menina muçulmana de véu e vestida toda de negro foi até a senhora e explicou que sabia onde ela ia e que portanto a levaria até lá.

Saíram do ônibus. Todos nos que ficamos la dentro começamos a nos perguntar o que aconteceria com a senhora nessa noite gelada perdida em Londres. Claramente ela tinha fugido do hospital. Eu sabia que não ia conseguir dormir sem saber se essa senhora estaria vagando sozinha pelas ruas de Londres, então virei para o Haiko e disse “vamos descer desse ônibus e encontrar a velhinha porque precisamos ter certeza que ela está bem e precisamos leva-la de volta ao hospital!”

Ele concordou, descemos, andamos um pouco e encontramos a menina muçulmana que como nós tinha se dado conta da situação e a estava levando a uma estacão de ônibus para que pudesse pedir ajuda. Fomos os 4 juntos. A senhora na sua camisola de hospital, a muçulmana de véu preto, eu de vestido de inverno , meia calca e bota, Haiko de casaco de inverno. Pode se dizer que eramos um grupo eclético. Enquanto eu tentava engajar a senhora numa conversa que a fizesse ficar conosco e não tentar uma nova fuga, a menina muçulmana foi procurar ajuda.

A senhora queria a todo custo partir. Eventualmente conseguimos convence-la a entrar num oinbus parado para sair do frio. Antes disso a menina muçulmana tirou seu próprio casaco e o colocou em cima da senhora. Entramos os quatro no ônibus. A senhora a minha frente não compreendia porque o ônibus nao saia do lugar. A muçulmana do meu lado junto comigo tentava explicar que o ônibus estava atrasado.

E ficamos ali esperando que a policia chegasse. A policia chegou e a senhora nao ficou muito feliz com a ideia de ir ao hospital. Negava ter estado la internada. O policial gentil, e ao mesmo tempo realista a confrontava com o fato que ela estava com a pulseira do hospital. Quando eu olhei sua pulseira descobri sua idade: 90 anos!

A senhora era lucida. E não queria voltar ao hospital. Passamos pelo menos uma hora nesse ônibus e em alguns momentos eu parecia estar num filme. Haiko em silencio observando tudo, a doce muçulmana sentada ao meu lado, eu tentando explicar para senhora que nos estávamos preocupados com ela, os policiais ingleses, o motorista do ônibus, e até um passageiro bêbado e dorminhoco que tinha ficado no andar de cima do ônibus e apareceu pedindo desculpas pelo transtorno.

Partimos quando a senhora estava já na ambulância. Eu nao fiquei sabendo o nome da muçulmana mas ao ir embora ela me agradeceu. Como disse o Haiko foi tocante ela me agradecer por eu estar ali com uma pessoa tão estranha a ela como a mim. E eu disse um obrigada de volta que na hora nao teve muito sentido. Agora que eu sentei aqui para escrever tudo isso ele faz mais sentido. O meu obrigada a menina de véu é por ela ser tão excepcional e me lembrar que há pessoas no mundo que param para ajudar os outros. Não podemos parar sempre, mas quando paramos essas conexões ainda que breves, ainda que anonimas tornam evidente o quanto faz muito mais sentido viver num mundo onde tomamos conta uns dos outros.

Quando o policial disse “we are here because we care” a senhora discordou. Eu insisti dizendo que nos estávamos sim preocupados. Ela olhou para mim e para a muçulmana e disse ” The two of you I know, but the police is just meddling with my affairs” 🙂 Kathlin tem 90 anos, é casada com Albert, e é uma east ender. Uma senhora lúcida, e que tinha fugido do hospital. Como eu também já fugi uma vez eu a compreendo 🙂

Anúncios

Ser Humano

Tenho estado ocupada. Entre aulas, palestras, a impossível tarefa de aprender hebraico, a maravilhosa oportunidade de encontrar e conhecer os meus colegas de doutorado, ensaiando as minhas musicas com um amigo para fazer um show, e ainda tendo mudado de casa! Sim, aquela casa, aquela da Nigeriana, e das estorias que me servem para um dia escrever um livro ficou para trás. Um novo endereço que ficou para trás, para o novo vieram dois dos meus antigos vizinhos, os amigos que eu ganhei naquele turbilhão de emoções. Shane e Iva.

Sobre Israel eu já falei tanto para as pessoas que eu encontrei que eu sinto que ta meio esgotado o que eu tenho a dizer. Talvez seja um pouco de medo de voltar a um ninho de emoções pouco compreendidas. Sentei ontem aqui e comecei 3 post distintos. Todos assim sem alma 🙂 sem graça e aí tive que sair de casa para encontrar meu amigo Chris, meu melhor amigo da LSE, que fez mestrado comigo e que partia hoje para fazer trabalho de campo em Moçambique.

Nos encontramos também no sabado, e muitas e muitas vezes antes disso. Somos muito amigos, e eu ainda comecei a ensina-lo portugues assim que nos últimos meses foram dezenas de horas que passamos conversando sobre os mais variados temas. Sempre rimos muito, e nunca levamos nada muito a sério. Foi igual ontem. Eu mais uma vez indo ao Goodenough College que sempre me traz lembrança de amigos que partiram para dizer adeus para mais um.

Sentamos para tomar um chá e enquanto falávamos só bobagens foi tudo bem. No entanto, eventualmente chegou a hora de eu dizer adeus. Um adeus temporário afinal ele so fica no Moçambique dois anos, e depois eu fico em Israel tbm só 2 anos (o só é irônico) . E aí não deu. Eu transbordei em lagrimas (daquelas que você ta tentando engolir com os olhos)…. “When do we see each other again?” ele perguntou ” Vou estar em Nampula semana que vem, mas voce vai ta em Maputo então nos desencontramos” brinquei… “acho que então só em pelo menos 2, ou 3 anos”. E os meus olhos encheram de lagrimas como enchem agora. Pois é claro que esse adeus não é só ao Chris. Esse adeus, é mais um adeus da pilha de “Adeus” exaustivos que nos que vivemos em Londres (uma cidade que ninguem para nunca) temos que dar. Esse adeus nos lembra sempre a impermanência de tudo.

E impermanência me faz sempre lembrar da minha meditação vipassana e ouvir Goenka dizer para estarmos presente! Chego em casa, e encontro Shane e Iva que eu já aprendi a amar, e ODEIO o pensamento de que eles também voltam a seus países eventualmente. Digo isso em voz alta, e enquanto Iva concorda Shane nos lembra “let’s be in the present!” E eu volto ao presente para aproveitar o que esta aqui.

Mentalmente eu quero que o Chris tenha o melhor trabalho de campo no mundo. Emocionalmente eu queria ele aqui. Israel foi assim também. Esse descompasso entre mecanismo cognitivos, pensamentos ideológicos e realidades emocionais. Como é difícil (as vezes) ser humano.

Aulas de Hebraico

Comecei a fazer meu doutorado. E já que minha pesquisa será em Israel comecei portanto a aprender Hebraico. Aliás, eu deveria dizer que eu me matriculei na aula de Hebraico, e assisti duas aulas. Começar a aprender é sem dúvida bem distante da realidade. Cheguei a minha aula que é no King’s College, logo ali ao lado da LSE e ao entrar na aula me surpreendi logo de cara. Eu imaginei que seria como quando eu fiz Holandes, onde 90% das pessoas que estavam lá, estavam porque tinham um namorado/a ou marido/mulher holandes(a). Hebraico eu imaginei seria uma mistura disso, com alguns judeus que ainda nao falam a lingua querendo aprende-la. Eu estava totalmente enganada. Não que algumas pessoas não se encaixassem nesse perfil. Poucas, havia apenas uma menina judia, e apenas uma outra menina que tinha um namorado Israelense. O resto, o resto estava ali pelas razoes mais variadas possiveis.

Como por exemplo a Nigeriana que é de um Igreja cristã na Nigéria onde tudo é falado em Hebraico. Quando eu expressei minha surpresa, ela explicou que em londres, eles tbm falam em hebraico, e os ritos sao ministrados em hebraico, mas que eles são menos acurados pois tudo é escrito foneticamente usando “as nossas letras”. Na Nigeria, ela explicou, leva-se mais a serio, etnao, é tudo escrito em Hebraico

Tem também o rapaz que começou a estudar Hebraico porque precisava de um desafio. O trabalho, ele explicou, é muito chato. Quando a professora perguntou porque Hebraico e nao alemao. Ele respondeu “porque alemao eu ja sei”. Ela ainda insistiu “mas porque Hebraico?”. Ao que ele respondeu ” Por que nao?”

Depois tem um Arabe que quer aprender Hebraico porque é parecido com Arabe. E a chinesa que mal fala ingles e resolveu aprender Hebraico ( atraves de ingles) porque quando viajou por Israel fez amigos que tiraram sarro dela e ela não conseguiu entende-los. A professora parecia tão supresa quanto eu com esse apanhado de gente e com essas estórias tão insólitas. Tinha é claro, também os que queriam aprender pois trabalham com “war zones” e precisam fazer pesquisa. Overall, não havia muito critério.

A falta de critério pareceu reinar na minha primeira e hoje na minha segunda aula. Depois de nos apresentarmos. A professora resolveu nos ensinar o alfabeto. Eu que não sei NADA achei que eu iria morrer. Nada fazia sentido. Ainda mais quando minha professora dizia coisas do tipo ” Alef na bíblia é escrito assim, em letra “cursiva” é assim, mas eu gosto de desenhar assim :)” Ninguem, parecia se preocupar muito com a falta de estrutura. E quando eu perguntava ” mas porque isso é assim” ela dizia ” bom, a razão mesmo vc so vai entender no terceiro ano”. Sem contar o fato, de que as vogais sao omitidas, portanto vc precisa adivinha-las a partir do contexto da frase. Só imagina como isso não é simples quando voce NAO CONHECE A LINGUA!!!

Hoje minha aula começou meia hora atrasada. A professora estava vindo direto do aeroporto. Para compensar por esse pequeno lapso nos trouxe chocolate Israelense. Um chocolate que explode aos poucos na boca. O chocolate uma delicia, ja o meu progresso….

Adam

“Incrivel, não é?”

Volto a terra e vejo ao meu lado Adam. Eu estava tão concentrada no outro planeta onde eu visitava os monges Etíopes que nem o tinha percebido ali.

“Incrivel!”- concordo.

Seu rosto é muito familiar, e então eu o reconheço. Havíamos nos conhecido na noite anterior. Adam também estava no Couchsurfing meeting onde Netanel meu anfitrião tinha me levado. Ele me pegunta o que eu fazia em Israel. Explico, que tinha vindo para descobrir se queria vir fazer minha pesquisa de doutorado ali em Israel.

Pergunto a ele a mesma coisa. Ele suspira e me pergunta se eu quero mesmo ouvir a estoria. Digo que sim e então ele começa.

“Meu pai era ortodoxo. Depois de servir o exercito foi visitar pela Europa. La conheceu minha mãe, Alemã e Cristã. Já desiludido com a religião, e apaixonado por minha mãe resolveu ficar na Alemanha, casar-se.”

Casaram e tiveram Adam. E quando o menino completou 2 anos o pai começou a sentir falta de Israel, e de Deus. Resolveu que queria voltar a terra santa. Explicou o que se passava a mulher e então pediu a ela que se convertesse e que viesse com ele para Israel. Ela rejeitou.

Nesse momento Adam pausa., me olha longamente e diz: ” Nessa parte eu nunca sei direito se continuo ou nao”. Peço que continue.

“Entao, meu pai, decide falar com minha tia, irma da minha irma e pergunta a ela se ela se casaria com ele, e se se converteria ao judaismo Ortodoxo.. Ela concorda, e então eles se mudam para Israel.”

Eu perplexa, sem palavras, pergunto se sua mãe tinha se sentindo traída.

“Não. Ela ama a minha tia. E assim foi melhor para todo mundo. Minha mãe tem outro namorado. Minha tia teve 6 filhos e é feliz como Ortodoxa, e meu pai está feliz.”

“E voce?”

“Eu vim para encontra-lo depois de 20 anos sem ve-lo. Conhecer meus meio-irmaos que são também meus primos. Senti enorme amor da minha fmailia. Voce quer ver uma foto?”

Claro que eu quero, e entao esse doce menino tira do bolso uma camera. Mexe no botão até encontrar a foto de um homem alegre, com baraba comprida, meio gordo claramente satisfeito de ter seu filho ali (invisivel naquela foto) a sua frente. Apesar de Adam ser o fotografo e não o fotografado a foto mostra de certa maneira a alegria daquele pai que escolheu a religiao aa familia. E Adam, Adam está feliz.

No Telhado da Igreja do Santo Sepuclro

Como eu fico na duvida por onde comecar resolvi comecar assim do meio. Mesmo porque as estorias se confundam na minha cabeça como se fosse um sonho ondes os rostos se misturam e eu já não me lembro mais a ordem dos eventos. E isso tão pouco faz muita diferenca. Entao, eu vou comecar de um momento especial para mim: o telhado da Igreja do Santo Sepulcro.

Já era o meio da minha viagem, e eu estava pela segunda vez em Jerusalem. Voltara para visitar a escola Hand in Hand. Meu novo anfitriao Netanel é um guia turistico que me contou 4000 anos de historia assim numa longa, longa caminhada. No dia anterior, tinhamos ido a um encontro de Couch surfers. La conheci muita gente. Sentamos a volta de uma mesa longa, numa das ruas de Jerusalem. O tempo perfeito. Fresco, com uma brisa leve. Conversei com alguns estrangeiros, alguns Israelenses e depois voltamos para casa.

No dia seguinte, andamos ate o centro historico e la comecamos o nosso tour. Eu ja tinha estado no centro historico mas andando meio sem critério. Mesmo porque confesso, que pessoas me interessam mais do que lugares, entao eu fiquei na minha primeira vez apenas fascinada com aquela mistura de turistas, religiosos de todos os tipos, criancas, gatos…

Com Netanel, prestei atencão no que significavam os prédios, as lendas, as evidencias arqueologicas etc. E ele resolveu me levar não na Igreja do Santo Sepulcro, mas no seu telhado. Subimos e la no telhado era um total silencio. Antes mesmo de saber o que estavamos fazendo eu ja fiquei encantada com a ideia de que debaixo dos meus pes corriam, rodavam, se emocionavam muitos cristaos, muitos turistas, enquanto ali em cima do telhado o silencio era total.

Netanel entao me explicou, que ali em cima do telhado havia um vilarejo Etiope. Eu fiquei boquiaberta. Nao conseguia acreditar. Como assim ? De acordo com Netanel, a presenca do Etiopes dates back ao encontro da rainha e Sheba e o rei Salomao (mais info aqui) O que me surependeu nao foi tanto a razão historica, mas que existisse um vilarejo ali em cima. Andei pelo telhado fascinada, e de repente cheguei a uma porta. Nao era uma porta fechada. Era mais como uma portal, que no meio era dividido por uma cruz verde.

Eu parei e olhei la dentro, que era la fora, porque nao havia telhado. E la no fundo eu via monges negros, etiopes, vestidos de petro, e cores bem fortes. Sentados, em silencio. Eu me senti transportada a outro mundo, outro continente, outro tempo. Fiquei parada la. Nao me escondi. Nao tirei foto. SO fiquei la uns cinco minutos olhando. Um desses presentes inesperados, impossiveis de reproduzir em fala. Senti que enquanto eu olhava tudo meio que deixava de existir. Seria aquilo minha imaginacao?

Um couchsurfer, que eu tinha conhecido na noite anterior, apareceu e ao dizer uma palavra fez com que tudo voltasse ao real. Como no segundo que Fernando Pessoa (Alvaro de Campos) ve um homem entrar na Tabacaria (para comprar tabaco?)
E a realidade plausível cai de repente em cima dele. O couchsurfer era Adam. Alemao. Que estava na verdade tao encantado como eu. E Adam, aumentaria ainda mais a minha sensacao de que em Jerusalem tudo pode acontecer. Mas eu conto do Adam uma proxima vez para que meu post nao fique tao overwhelming como foi minha viagem.