Circulos

Quando eu fui para Israel em Setembro fiquei na casa do Netanel em Jerusalem. ELe, que é guia turistico, teve a paciencia de me contar 4000 anos de historia em uma longa caminhada. Passou dias comigo me mostrando todos os detalhes de Jerusalem. Eu, como já deve ter ficado bem claro, presto mais atenção em gente, do que predios. Então enquanto eu ouvia atentamente ao meu guia privado, especialista em todos os segredos historicos e arqeuologicos de Jerusalem, eu secretamente me distraia olhando os ortodoxos com seus chapeus, os Cristãos alugando suas cruzes, as mulheres e suas perucas, as crianças que corriam, os homens arabes tomando seus chá sentados numa mesa qualquer numa daquelas milhares de ruelas.

Eu olhava para o que ele me explicava, eu prestava atencao; no entanto, o que me chocava, e entretia sempre mais era imaginar que por aqueles milhares de anos as pessoas andavam naquelas ruelas, que o chao é marcado dos passos, de milhares de pessoas com milhares de duvidas existenciais, certezas religiosas, preocupações mundanas sempre carregadas nas pernas dessas pessoas…. sempre ficando ali no chao daquela cidade que se pudesse falar faria tão pouco sentido como faz sendo vista.

Netanel me levou aos mercados, aos lugares secretos, a econtros do couch surfing, me contou as lendas, as historias, cozinhou para mim, me explicou os caminhos todas as vezes que eu ligava perdida. Falamos de viajantes, do gato, da mae, de musica da irmã. Um pouco sobre o exerctio… bem pouco porque quando eu fiquei na casa de Netanel eu ja tava meio que emocionalmente exausta. Combinando a personalidade reservada dele, a minha exaustao quanto a questões tao emocionais como a questão Palestina na minha estadia em sua casa nos nunca falamos nada sobre isso.

E agora aqui em Londres, em meio ao turbilhão de mudanças, perguntas sobre que caminho seguir, como é que eu recomeço, faço doutorado, largo doutorado? Mudo de volta para o Brasil, vou para Romenia, para a Tailandia? eu recebi esses dias aqui em casa o Netanel. Fazia 4 meses que não nos viamos. E a chegada dele trouxe um pouco de calma… afinal não dá para ficar deprimida com um visitante. Não to querendo contrariar os gregos 🙂

Netanel foi nosso primeiro Couch Surfer nessa casa. Foi incrivel. Incrivel como sempre é. Eu fui sem dúvida pior anfitriã e pior hóspede do que ele…. que ja chegou trazendo alento, zatar e canela de Jerusalem. Chegou ja cozinhando. Chegou de mansinho, ficou bem quietinho. Eu nao pude contar a historia de nada pq eu nao sei a historia de nada. Eu tava mais para calada considerando as circusntancias.

Ontem a noite no entanto, no nosso ultimo jantar que ele cozinhou para todos nós propus que fizessemos o ritual da minha despedida. Dessa vez o bastião da fala foi um “nao sei como se chama” budista. Como um prayer bell daqueles de girar com a escritura dentro. Quem começou foi a Iva agradecendo a vinda de Netanel. Agradecendo por aprender sobre esse jeito de viajar sem sair de casa. Eu não vou falar do que todo mundo falou pois levaria muito tempo. Como sempre foi bonito.

Agora o que me tocou mesmo foi o que Netanel contou. Netanel que nao é um ativista me contou que ele já tinha estado na Palestina como soldado. Tinha estado carregando fuzil, com as costas na parede e com medo. Que faz 2 semanas organizou um grupo de couchsurfing para ir a Palestina. Foi pela primeira vez como civil. Entrou no campo de refugiados. Conversou em broken arabic. Quando disse que era Judeu foi tratado com total surpresa. Depois que voltou para Jerusalem recebeu um palestino em sua casa. Um couchsurfer. Contou das conversas. E conclui dizendo:

“Antes de eu ir, eu achava que para melhorar a situacao a Palestina precisava ser melhorada materialmente. A situacao la é terrivel. Eu achava que o principal para vivermos em paz era que eles pudessem melhorar economicamente. Agora que eu fui la, sem fuzil, sem estar com as costas na parede eu sei que isso não é o suficiente. É importante mas não é o suficiente. Agora eu sei que a unica coisa que realmente pode nos levar a paz é contato.”

Meus olhos se encheram de lágrimas. Assim como se enchem agora. Esses dias eu vi um TED talk onde uma escritora turca começava contando que foi criada pela mae secular, e a avó muito mistica. A avó, ela explicou, sempre recebia pessoas que vinham benzer suas verrugas e marcas na pele. A avó benzia e fazia um circulo com uma caneta a volta da marca. Os pacientes voltavam com as marcas desaparecidas. A autora explicou que dizia a avó que se intrigava com o poder da fé. A avó então disse a neta ” Sem duvida a fe move montanhas, mas nao se esqueça do poder dos circulos. Tudo que vc fecha em um circulo, rodeia acaba se destruindo,se consumindo… desaparece”

Ouvindo o meu amigo que não é um ativista sair do seu circulo para encontrar o outro de outra cultura me toca. Não é necessario abandonar a sua identidade para encontrar o outro. Agora ficar só no seu grupo, no seu circulo é bem perigoso. Eu concordo com a autora turca que fala do poder das estórias. Estória nos levam a conhecer o outro. E como vcs bem sabe eu acredito no poder dos encontros. Encontro, amor e compaixão são realmente as unicas coisas verdadeiramente subversivas.

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Ponto e virgula

Cruzei as mil fronteiras imaginadas, que no céu parecem ainda mais absurdas, dormindo. Acordada as vezes me vinha umas lembrancas soltas. Nossa quanta coisa aconteceu enquanto eu estive no Brasil. Quanta coisa dentro de mim. Cheguei a uma Londres nem tão fria nem tão cinza. Cheguei já com uma mensagem de texto de um amigo yogi me desejando as boas vindas. Sorri, não há nada melhor do que ser acolhida assim de cara por amigos que voce não imaginava que saberiam a duração da sua ausencia.

No meu último post eu estava assim, me sentindo sem ponto final. Estava totalmente fora de lugar. Querendo ficar e tendo que ir. Inventando mil cenarios onde em todos eu parecia estranhamente fora de lugar. Tudo isso tem a ver com o tempo. Em grego, aparentemente, existe a diferença entre Chronos ( o tempo cronologico) e Kairos ( o tempo, o momento supremo). Aliás isso é tão parecido com o BUdismo. A impermanencia de tudo é no Chronos. Estar sempre presente deve ser Kairos. Acontece que nesses momentos Kairos dá um medo de perde-los no tempo. No Chronos 🙂

Eu tava assim perdida em Chronos. Correndo atras daquele Kairos que só podia existir quando existiu. Sempre na frente ou sempre atras. Eu morria diariamente umas 10 mil vezes tentando encontrar. Até o dia da minha despedida. Aquela que no
último post eu esperava me sentindo sem ponto final.

Chegaram as pessoas. Amigos de varias partes. De varias idades. De varias ideias. E ali no encontramos. Primeiro em estorias de viagens, estorias engraçadas. Depois já no final da noite, Malu Barciotte, que eu tinha conhecido na Lapinha, e que ja tinha feito o ritual das lanternas que tanto mexera comigo propos um outro ritual. Eu não me lembro muito bem o nome do Ritual. Ele bascimanete consiste em ouvir o outro. Sentamos em circulo e escolhemos o bastião da fala. Eu escolhi a estátua africana. Uma cabeça de mulher que minha avó trouxe de uma viagem que fez a Africa. Maluh começou por explicar as regras. Quem segura a cabeça fala. Fala quem é o que pensa, o que faz, alias fala o que quiser. E nos todos ouvimos. Ouvimos com tudo. Sem interromper. Ainda que tivessemos mil perguntas, ainda que discordassemos, apenas ouvimos. E como é dificil só ouvir 🙂 Quando concorda-se com uma ideia diz-se “Hou!”. E no final da sua fala que dura o tempo que vc quiser termina-se por dizer ” Eu sou …, falei, Hei!” e nos respondemos “Hou”.

O que sempre me impressiona em rituais é como é fácil para nós humanos nos conectarmos a eles. Vide o poder de religioes, futebol, exercitos. Fazer coisas juntos, sincronizar comportamento tem uma coisa evolutivamente, e cognitivamente muito forte. Então ali sentados em circulo observando as regras em pouco tempo o ritual ficou profundo. Maluh comecou falando de Arete. De acordo com Wikipedia Arete vem “de excelência, ligado à noção de cumprimento do propósito ou da função a que o indivíduo se destina. [1] No sentido grego, a virtude coincide com a realização da própria essência, e portanto a noção se estende a todos os seres vivos. Segundo Sócrates, a virtude é fazer aquilo que a que cada um se destina. Aquilo que no plano objetivo é a realização da própria essência, no plano subjetivo coincide com a própria felicidade.”

Maluh começou ali falando do que fazia, ela que eh geneticista, artista e mais um milhao de coisas, falou de baixar um pouco a bandeira dos direitos e levantar a bandeira da responsabilidade. Em seguida falou Diego, que por ser filosofo, começou de Arete mesmo. Fiquei pensando dentro de mim naquela sincronicidade. E o resto da noite foi assim. EU que conhecia a todos pensava “meu deus, tantas coisas estão sendo ditas aqui que tantas pessoas precisam ouvir”. Como é possivel uma coisa dessa que as vezes aquela coisa exata que precisa ser ouvida se transborda assim da boca do outro?

O nosso ritual foi profundo. Tão profundo que todos que participaram escreveram algo sobre o ritual, ou mensagens para mim. Fiquei pensando como ali, em tão pouco tempo as pessoas se conectaram com suas essencias. Mesmo as pessoas que falaram menos pareciam tão conectadas a tudo que estava sendo dito.

Minha buscas ali foram parcialmente resolvidas. Aquele sentimento de solidão que eu senti tantas vezes no Brasil se preencheu. Se preenche sempre no encontro com o outro. E esse outro tá em todo o lugar. Cheguei desencontrada e saí convencida que em qualquer lugar se encontra gente que tem as mesmas buscas. Ainda que as vivam de maneira muito distintas. Saí com um sentimento inabalavel de otimismo, de amor, de gratidão.

E saí sem precisar de ponto final. Me sentindo assim, num ponto e virgula. Afinal de contas a vida continua.

Sem ponto final

É chegada mais uma vez a hora de eu partir. Já pensei umas mil maneiras de não partir. Mil coisas que poderiam dar errado e me prender aqui. Será que eu sempre faço isso. Confesso que eu já não sei mais se sou tão viajante, ou se por viver tanto essas mudanças o tempo todo acabei acreditando que sou. O que eu sei é que nessa manha faz sol la fora e a idéia de voltar para uma Londres gelada e sem luz é bem pouco charmosa.

Minha estadia no Brasil teve 4 fases. Um calendario lunar 🙂 A primeira fase sempre começa comigo vindo tensa me escondendo no meu cantinho indo visitar a “maquina”, fazendo meu exames, esperando o resultado, recebendo-os celebrando os e aos pouquinhos saindo da toca.

Na segunda fase eu fui me acalmar lá no sul com minha prima recem coincida de fato, mas como ja expliquei aqui, conhecida de muito tempo de dentro. Passei com ela o tempo da paz. Fazendo nada alem de ter conversas inspiradoras, caminhadas em meio ao verde, yoga, comendo comida organica, me encontrando com pessoas muito especiais. Renovando todas as baterias. Lembro de pensar enquanto estava na Lapinha que de fato 2010 tinha sido tranquilo que eu nem se quer precisava descansar tanto. Mas como a vida escreve certo por linhas tortas eu compreenderia depois que eu nao estava me renovando por esgotamento com o passado, eu estava me preparando para encarar o que viria no futuro.

A terceia fase foi o Rio de Janeiro. E o Rio de Janeiro foi tudo que há de intenso para mim. Sol demais, emoções demais, encontros demais, reencontros fortes.. e ainda uma despedida epica numa noite chuvosa onde eu acabei passando uma das piores noites da minha vida tentando fugir de um ataque um amigo meu. Foi epico. Chovia, eu chorava ele gritava. E eu que já tava meio esgotada antes da tal noite parti do Rio assim como quem foge esperando encontrar no deslocamento um cessar para toda o turbilhão e reviravoltas do dentro.

Então chegou a quarta fase: Ubatuba com minha familia. A fase de reavaliar tudo. O que é mesmo que eu to fazendo? Porque mesmo quero ir fazer minha pesquisa de campo em Israel? Porque é que eu moro em Londres? Porque é que eu deixo aqui tantas pessoas que eu amo? Perguntas, muitas perguntas sem resposta. Morria umas dez vezes por dia por não entender muito bem o tempo das coisas. Alguem que tiver lendo aí da uma luz. Como é que a gente sabe se quebra tudo? Ou se espera o furor passar? Não sei. Então eu nadei pedindo a todos os orixas e todo aquele resto de coisa que eu nunca nem sei quem é que tirasse ali no mar tudo. Andei a praia de ponta a ponta umas mil vezes. Fiz Yoga em todos os pedacos do meu jardim, em todas as partes da praia, em todos os pedacos de mim. Meditei na areia, na pedra, sentindo areia, sentindo o mar, sentindo os sons. Conversei com desconhecidos, com familia e até tive a chance de conhecer o grande flautista Toninho Carrasqueira e tocar com ele e seus amigos no Hotel da Dona Antonieta amiga da minha mãe.

Pronto e aí chegou a hora de partir. Voltei para Sao Paulo num choro silencioso de quem realmente nao sabe o que fazer. Será que toda vez eu passo por isso? Eu nem sei mais. Como é que a gente aprende a ficar no tempo nas coisas o tempo todo? Sem querer que ele se estenda ? Mas ao mesmo tempo como sera que a gente sabe que talvez nao esteja mais vivendo o tempo das coisas e por isso fica querendo fazer todo os resto se estender. Nao sei. E toda a meditacao do mundo nao resolveria, porque quando isso bate, bate assim sem vc querer se anestesiar, sem querer deixar passar.

Entao eu sento aqui na sala. Sento mais uma vez esperando meus queridos amigos aparecerem para dizer adeus. Muitas vezes esses adeus sao” Olas” pq na minha estadia eu nunca consigo ver todo mundo que eu queria ver. E sao nessas despedidas que eles vem dizer “Ola e Adeus” junto. E eu fico sempre com um nó na garganta. Sempre tento me convencer que isso é só até eu chegar do outro lado e me refaço nos outros encontros. Eu sei que um post devia ter conclusao… Normalmente eu concluo nisso em saber que do outro lado as coisas se resolvem mas nesse exato momento eu to me sentindo assim sem ponto final.