Ori-Tel Aviv

Ori tem 20 anos. Quando cheguei a Tel Aviv ela que é namorada do housemate do meu amigo Alex passou quase uma semana sem falar comigo. Não é que ela estivesse me evitando. Nao, ela parecia deprimida, no mundo dela. Todos os dias eu chegava e a via sentada no sofá. Muito bonita, muito jovem, ali sem vida, se fundindo ao sofá.

Numa certa noite resolvi sair com Alex, e quando chegamos ao bar no bairro de Florentine em Tel Aviv vi que Ori estava la com seu namorado numa mesa. O lugar era bonito, trendy, um desses lugares que poderia ser em qualquer lugar do mundo. No fundo do bar estavam os amigos do Alex sentados a volta de uma mesinha. Todos eles programadores e meio gênios do mundo de IT. Judeus todos. Alguns Israelenses, a maioria não. Sentei entre um sul africano de quem Alex já tinha muito me falado e Ori. Lembrei me então que Alex tinha me dito que adoraria me ver encontrar o sul africano ja que nos tínhamos, segundo ele, visões politicas radicalmente distintas.

Eu que não queria ter uma discussão virei para Ori e perguntei como ela estava. Ori tem 20 anos e esta no exercito. Ori odeia o exercito foi criada num kibbutz, com valores humanistas, me explicou. “Como é que eles querem que agora eu pegue uma arma?” Perguntei a ela o que ela fazia no exercito e tudo que ela não me disse na primeira semana ela transbordou em mim em uma noite. Ori com 20 anos foi colocada ali na fronteira, perto de gaza e do Egito. Seu trabalho era dar aulas de Hebraico para o pelotão do IDF ( Israeli Defence Force) de Beduínos.

Como assim? perguntei. Ela me explicou que eles são beduínos árabes mas são soldados. “Por que eles não podem ser árabes, e beduínos e israelenses??”Explicou me que apesar deles falarem hebraico eles não sabem ler hebraico. Ori me contou de um homem que assim que aprendeu a ler veio ate a ela gritando ” para que? para que nos temos que aprender isso?”. Percebendo a minha confusão ela explicou. Vc nunca viu escrito por ai “Morte aos Árabes”? Esta por toda parte. Ela dizia em Hebraico, e depois em Inglês. Repetia, com a voz mareada, os olhos sem voz. Eu fiquei quieta so ouvindo.

“Jules you change. Do you have any idea how many times I saw Egypstians shooting at refugiados sudaneses?”. É tanta violência de todos os lados. Voce muda. Seus amigos mudam na sua frente. Eles nao percebem mas eles mudam. EU tinha que sair de la, Eu imporei para sair de la eu estava enlouquecendo. Eu odeio que eles roubem anos da minha vida!”

Percebendo o quão petrificada eu estava, o sul africano ao meu lado disse” Meninas, no serious talk, lets enjoy the night”. Sem querer contrariar nossos anfitriões eu estendi minha mao, segurei a dela num ato misto de compaixão e de nao saber o que fazer. Olhei para ela em reconhecimento, pegamos o copo do que estávamos bebendo, demos mais um gole, empurramos os pensamento de lado como queriam nossos amigos. E sorrimos. Assim é Tel Aviv.

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Israa- Hebron/Khalil

Israa tem 22 anos. Eu a conheci na sua casa. Casa que é também de sua mãe, casa e escritório do seu irmão Ahmed que é uns 30 anos mais velho do que ela. Conheci Ahmed numa van, logo na minha primeira viagem pela Palestina. O conheci quando fui de Ramallah a Nablus. Ele que tinha terminado seu doutorado na LSE nos anos 80, ao saber que eu tbm fazia meu doutorado la me convidou para visita-lo em Hebron/Khalil. Percebi que devia ser um homem muito importante pois ele escreveu seu nome pomposamente num papel e insistiu muito para que eu aprendesse o seu sobrenome.

Hebron/Khalil é provavelmente a cidade mais tensa da Palestina. É la que fica o que os Palestinos chamam de mesquita de Ibrahim, e os Judeus “the tomb of the forefathers” ou “cave dos patriarcas”. Hevron é o nome Hebraico da cidade, Khalil é o nome Arabe. A cidade fica na cisjordânia e é lá onde ficam os assentamentos ilegais mais problemáticos da região. A mesquita de Ibrahim é dividida em dois. De um lado passam os judeus para olhar o túmulo de Abraao e Sara, e do lado da Mesquita ficam os muçulmanos.

Só depois que cheguei a casa de Ahmed que pude entender o quão serio era para um homem importante politicamente, e religioso como ele convidar uma mulher viajando sozinha a sua casa. Em Khalil/Hebron as pessoas são muito religiosas, e o controle social é fortíssimo. Na rua da casa de Ahmed mora toda a sua família.

No prédio onde ele mora cada andar mora uma parte da sua família imediata. Logo no primeiro dia conheci a doce Israa. De cara eu me apaixonei por ela. Doce como uma personagem que saiu de um livro romântico de outra era.

Ela me trouxe suco de laranja. Sentou ao meu lado sorrindo sem dizer quase nada. Ahmed contou que ela iria se casar agora em julho. Perguntei a ela se ela estava feliz e ela respondeu apenas “Al hamdu el allah” ( nao sei como se escreve.. mas quer dizer gracas a deus).

Ela não falava muito, por timidez, por não falar muito bem inglês, por ser reservada. Ela no entanto ficava ali do meu lado o tempo todo. Na hora que saímos para ver a famosa mesquita, me entregou uma “head scarf” emprestada para que eu nao tivesse que usar as que eram emprestadas na mesquita. Eu a coloquei mesmo antes de chegar la. Ela olhou para mim surpresa e disse entusiasmada ” you look so beautiful in a hijab!!”. Tiramos uma foto juntas enquanto andávamos pelas ruas cobertas de alambrados. Ahmed falava comigo o tempo todo. Contava me a historia da cidade, e eu tentava prestar atencao mas estava num misto de fascinada por tudo que via, ouvia, com totalmente intrigada pela doce Israa.

Como Israa foi a primeira mulher Palestina que eu conheci cada palavra dela era preciosa. Ela era a primeira porta a um mundo todo secreto para mim. O mundo dos homens tinha sido até então muito mais fácil de acessar. Mas o que será que pensavam as mulheres as mulheres na Palestina? No entanto, nao era apenas isso que me fascinava na Israa. A Israa é especial pela sua pureza, pela sua doçura. Descobri aos pouquinhos, entre palavras quebradas que ela ia se casar com um homem que tinha visto apenas duas vezes na vida. Um homem que mora na Jordania. Fiquei sabendo que depois do casamento se mudaria para la. Eu ja tinha é claro ouvido falar de casamentos arranjados antes, já tinha lido sobre eles, discutido nas minhas aulas teóricas, mas nunca tinha encontrado cara a cara uma menina doce de tudo que ia ser mandada assim para um outro pais sem saber direito a sua sorte.

Passamos por toda sorte de obstáculo. Check points, barreiras de ferro, detectores de metal, meninos do IDF com fuzis… tudo isso para poder entrar na Mesquita. Tirei meus sapatos ainda impressionada com o futuro de Israa. Coloquei uma saia por cima da minha calca para poder entrar na mesquita. Tudo isso em modo meio automático. Eu olhava a doce Israa sorrindo e pensava nela. Ela encantada com a mesquita ficou comigo o tempo todo. De repente me pediu licença para rezar. Enquanto eles rezavam eu fiquei olhando o tumulo de Abraao/Ibrahim. Do outro lado do tumulo eu via uma janela. Do lado de la da janela eu via um judeu ortodoxo tirando uma foto do tumulo. O mesmo tumulo que eu via pela janela do lado muçulmano. Tantos sentimentos misturados. Gratidão por poder ver tudo isso, tristeza de sentir na pele toda essa separação, mas acima de tudo preocupação pela pequena Israa.

Saimos da mesquita caminhando pelo centro comercial de Hebron. Todas as portas fechadas. Ahmed me explicava que por causa do perigo, dos ataques do IDF o comercio nao funcionava mais ali. Eu caminhava embaixo da rede de arame vendo tudo que foi jogado la de cima. Via crianças brincando. Sentia o clima tenso no ar. Arames farpados por toda parte, soldados Israelenses que sorriam para mim. Jovens e simpáticos comigo. Via trabalhadores de ONGS, tiros nas paredes, amêndoas verdes a venda e de repente a doce Israa ficar para trás.

Depois a vi reaparecer com uma pequena pulseira na mão. Um presente para mim por trazer a ela tanta alegria. Ali bem em frente a rua bloqueada aos palestinos porque virou um assentamento ilegal judeu no meio da cidade eu coloquei o meu presente no broca. Ali vendo tiros nas paredes eu olhei para essa doce menina e desejei a ela em silencio do fundo do meu coração toda a felicidade do mundo.

No meu ultimo dia em Hebron eu perguntei a ela minha primeira pergunta mais uma vez. Israa voce esta feliz de se casar ? Depois de poucos dias de amizade, de poucas palavras e de enorme empatia ela respirou fundo, olhou no meu olho e disse “eu rezo a deus que tudo saia bem. eu estou feliz e ao mesmo tempo aterrorizada.”

E eu me peguei dizendo “Nao se preocupe, vai ficar tudo bem! Insh’allah! Mas se esse teu marido nao perceber a mulher maravilhosa que vc é e nao te tratar como uma princesa vc me liga, me escreve e eu vou la! :)”

Rimos as duas na cozinha sabendo que eu nem ela tinhamos controle nenhum sobre o futuro. “Sim, voce vem!” Ela concordou dando risada. “Thank you Julieta!” E me abracou. Senti no abraco dela um enorme carinho, uma certa gratidao, por nada alem de eu estar ali e colocar em palavras o medo do futuro, do incerto. Um medo que no fundo é de todos nós.

Narrativas alternativas

O meu doutorado, aquele que eu abandonei, era para ter pesquisa em Jerusalem com criancas judias e palestinas numa escola de coexistencia. Nao, eu nao sou Judia, e nem tampouco Arabe. Como foi que eu fui parar nisso? eu já nao tenho a menor ideia. O que eu sei é que hoje em dia eu tenho uma relacao de amor e odio com o oriente medio. Essa alias é uma relacao muito comum. Dificil viver la, mais dificil ainda imaginar que para la nunca mais se volta. Na primeira vez que eu fui a Israel quem le meu blog deve se lembrar que eu fiz couchsurfing o tempo todo. Dessa vez, eu fiquei na casa dos ex -desconhecidos e agora amigos em Israel, e passei um mes ficando na casa de entao desconhecidos e agora tbm amigos na Palestina.

Quem tem amigos em Israel pode imaginar o tipo de reacao que eu recebi quando disse que ficaria na casa de estranhos pelo couch surfing na Palestina. De previsao de “harrassement” a morte. Se vc esta lendo isso faça o seguinte experimento: escreva “brazilians” no google images, depois “palestinians”, depois “israelis”. Assim como brasileiros nao sao so praia e futebol e carnaval, na palestina nao ha so criancas machucadas, “terroristas” e tao pouco em Israel é so soldado do IDF.

Eu cruzei o muro. E como eu falei no ultimo post os muros tem aquele poder de deixar a gente ficar imaginando as imagens do google como representativas. Eu escrevi muito do que me aconteceu aos meus amigos, e como me tem sido pedido muito que eu escreva aqui vou tentar revisitar o que escrevi, o que vivi, para trazer as narrativas alternativas. Eu aviso desde já que essa viagem é meio sem volta… nada é mais branco no preto. Nao ha nada de coerente por aquelas terras…. alias será que existe algo de coerente na humanidade? Eu sofri e sofro por ter amigo dos dois lados. No entanto acho que as estorias tem que ser contadas. As estorias tem poder pois elas nos lembram da humanidade que o muro tenta apagar.

Eu estou para embarcar para India e vou viajar com um Israelense que eu conheci na comunidade da India do Couch Surfing. Meu teste inicial a ele foi contar que tinha passado um mes no west bank. Se o cara fosse um total radical ja se desculparia e discretamente nao falaria mais comigo. No entanto, ele se mostrou interessado. Ele se emocionou ouvindo minhas estorias. Filho de mae iraniana e pai iraquiano tao pouco pode jamais voltar a casa da mae no Iran. Ele tem amigos palestinos de nablus que trabalham ilegalmente em Israel. Fiquei surpresa. Como assim? Um judeu Israelense com amigos Palestinos muculmanos ilegais? No entanto, ele entende, talvez isso de ter uma casa para qual nao possa voltar o faca o compreender. Nao sei. Como as pessoas reagem as coisas é sempre um mistério.

“Podemos ser amigos mas só até um certo ponto porque na verdade é muito dificil para eles serem eles mesmo aqui. vc nao imagina como é dificil. Eu odeio politica. Meus amigos de esquerda, que sao super contra a ocupacao so querem falar do conflito mas quando eu trago meus amigos palestinos eles nao sabem como trata-los como humanos!. O mais basico eles nao sabem! Voce nao pode imaginar!” Eu expliquei que posso, que imagino que senti na pele.

Esses dias um dos amigos dele foi pego sem documentos. “Oque vai acontecer com ele?” perguntei. Ser preso, deportado, mas depois ele volta. Nos ate temos uma brincadeira. Ele sempre me diz que o bom de ele ser preso é que ele pode trazer comida que presta de Nablus para eu comer porque a mae dele cozinha melhor do que niguem. E isso é o que me quebra de vez, ele nem se revolta.”

É isso eu vou tentar escrever aqui sobre esses mundos secretos. O mundo das mulheres que eu conheci no Hamam, o mundo dos religiosos que respeitaram a minha falta de fe, o mundo dos meninos entediados em Nablus, o mundo dos meus amigos israelense que tem medo, que tao pouco querem ser odiados no exterior, ou tao pouco adorado por fascistas, o mundo da depressao dos soldados do IDF que se justificam o tempo todo. O mundo das pessoas que dizem as coisas mais chocantes, mais abusrdas, mas que no fundo como todos nos mudam de pensamento, tem varias narrativas. Um mundo que nao é esse das imagens do goodle. Se vc quer saber um pouco mais da complexidade de ser humano no oriente medio, assim vista por uma nao expert nao judia, nao arabe, nao inglesa, nao americana… uma brasileira a passeio, venha aqui e leia. Eu nunca achei que o que eu ecrevesse tivesse importancia. Sempre escrevo por escrever, mas essas estorias eu acho que tem que ser lidas. As vozes dessas muitas pessoas que as vezes dizem coisas brancas, ou pretas mas na maior parte do tempo vivem no cinza. Essas estorias tem que ser ouvidas. E ja que a historia nao envolveu minha familia nem o meu pais nessa politica eu acabo tendo um acesso a informacao realmente invejavel. Se quiser venha, eu prometo que conto os segredos que eu descobri da nossa incoerente humanidade, mudo os nomes, mas mantenho as vozes.