Mulher, um Universo- Para o Varal do Brasil

Eu acordei bem tarde, e o primeiro e-mail que eu leio me propõe pensar “mulher, um universo”.

Meu primeiro impulso é pensar porque não “ser humano um universo” ? Depois é analisar porque continua sendo tão difícil para mim pensar mulher como um universo?

Ainda me é tão difícil, eu sei por quê, eu sou mulher, eu sou ser humano. E por eu ter estudado antropologia, biologia, literatura, feminismo, política, etc, tudo isso vem carregado de tantas ideologias. Por ter viajado tanto e voluntariado mundo a fora e eu querer tanto um mundo menos desigual e ao mesmo tempo plural. Por eu sentir que ideologias vem (muito na superfície) buscar atenuar desigualdade que existe no mundo ( em escalas variadas) mas muitas vezes acabam nos roubando da pluralidade do mundo. Da beleza da diversidade. Da particularidade que todos temos por uma coisa ou outra.

Quando será que o Universo feminino ficou tão duro assim? Tao politizado? Penso tudo isso mesmo antes de sair da cama, então, me vem a cabeça uma frase que eu ouvi ontem a noite de um artista, num bar em São Paulo. Um homem que eu imagino sensível. Não crendo habitar o planeta machista.

Resolvo tomar um banho enquanto penso as frases.

O homem me diz num bar duas frases:

A primeira é uma pergunta:

“ Você é Balzaquiana ?”

Concordo tenho 31 anos, há dois anos sou uma mulher Balzaquiana. Isso não me ofende. Memso porque que eu nao sou a mulher de 30 anos de Balzac. Isso so quer dizer que eu tenho 30. Isso soh esta ali para nos fazer perceber que temos repertorio comum e que eu não sou uma mulher “qualquer”.

A segunda frase é:

“ Você é bonita, e tem canela grossa. Se eu fosse senhor de engenho te compraria para colocar na casa grande e não no engenho. Mulheres de canela grossa são boas de cama, mas são preguiçosas”

Sou pega de surpresa por essa frase. Nunca vou a bares desse tipo. Não moro no Brasil há tempo demais, e nao consigo imaginar isso acontecendo em qualquer lugar outro que ali. Não me ofende. É-me tão raro que eu tento contextualizar como eu posso. Contextualizo no intelectual. Pergunto a ele se de fato se dizia isso no passado se havia uma teoria mesmo referindo se a isso?

Faço isso por curiosidade, mas também por um certo desconcerto de ser explicitamente desejada, e ter sido colocado assim em duas frases… “eu quero saber se você tem meu repertorio. No entanto, eu quero você na minha cama.”

Nada disso eu coloco em palavras na hora. Eu fico no território que eu conheço: o intelectual. Não quero entrar no domínio do sexual. Como se aquilo não se referisse a mim.

Como se eu ser uma mulher não fizesse alguma diferença. Como se eu ser uma mulher bonita e ele ser homem ali não fossem as particularidades mais presentes. As que mais definisse o mundo que entravamos.

Mudo de mesa e começo uma conversa com outros homens. No plano do humano.

Volto para casa e acordo hoje para pensar o Universo Mulher.

Saio da cama, pensando o que vou escrever. Entro no banho, e me lembro que uma vez posei nua para um pintor russo na Inglaterra. Fazia mestrado na época, meus pais ficaram perplexos e eu tinha ido por curiosidade.

Na época, eu ainda estava um pouco cansada do tanto que a antropologia se afastava da biologia, da neurociência, o tanto que o feminismo vivia no ideológico. Fui lá ser pintada nua. Ser nada além de uma mulher nua. E foi uma experiência muito diferente. Porque ela me era impossivel.

Primeiro eu fiquei amiga do pintor, falei de Dostoyevski, me estabeleci como ser humano que tivesse uma particularidade. Depois eu reconhecia que estava lá porque queria e não porque fosse forcada.

Tirei minha roupa confortavelmente. A princípio fiquei desconcertada. Não tanto pela nudez, por também sempre aceitá-la como humana e comum, mas me desconcertou que alguém fosse pegar o que sentia ser a minha essência e por num papel. E ali, aquela essência me era sem controle.

Entendi melhor o que eu admiro do feminismo. A luta pela igualdade de direitos.

Olhei a principio para baixo. Depois resolvi olhar o pintor. Como quase um ato politico. Resolvi ser parte do processo de ser pintada. Ainda que fosse em silêncio. Ainda que eu fosse objetificada, eu observaria quem o fazia, que tivesse algum poder ali naquele processo de ser apenas uma mulher nua.

Ali eu senti o poder arquétipo de ser homem X mulher. A tensão que existe quando vc deixa de lado as particularidades e fica na essência do arquétipo. Eu era bela e frágil, vulnerável, ele forte, dono da situação. E ainda assim, eu ali não me senti sem poder. O poder que eu tinha vinha de não ser obrigada a estar ali, aquilo para mim era uma escolha.

Foi um tempo tenso, em que tudo que eu já vi de pintura de Ingres e Delacroix, das Odaliscas, me vieram à cabeça. Seria o orientalismo que eu via ali realmente delas, ou o que eu aprendi a ver quando vejo um quadro de um europeu, que retrata o Oriente por ter lido Said? Será que eu tentei vê-las? O que será que significava aquela postura, aquele silêncio?

Depois de tudo isso viajei, e passei muito tempo pelo Oriente Médio e a Ásia, sempre buscando e encontrando a voz dos que não tinham. E no fundo, todos nós estamos tão calados. Nos é imposto tanto que ouvir mesmo o universo do ser humano a sua frente é difícil.

Eu acabei pela Índia, e pelo caminho, encontrando versões de Tantra, o culto à Shakti, o feminino. E o que eu soube pegar disso tudo peguei, eu voltei a resgatar o mundo mulher em mim. O mundo feminino. Que suas características não pertencem só às mulheres, mas que me parecem (depois de tanto tempo pela academia e pelo mundo) estarem mais sim em nos que temos dois cromossomos XX.

Eu não quero entrar na biologia da questão. Eu não quero desmerecer a luta política por direitos iguais que o feminismo nas suas varias ondas teve. O que eu quero , ou melhor, o que eu tento , é aceitar que talvez o universo de qualquer coisa é plural.

A beleza da diversidade não pode ser apagada, ela não precisa ser erradicada para que a nossa comum humanidade se encontre. Não precisamos ser iguais par ter mesmos direitos. Direitos mais adequados.

Eu, hoje sei que sou mulher. É o que eu sou toda vez que eu encontro um homem que me deseja. Quando eu desejo o homem, me envolvo nesse discurso, senão, trago-o para um outro âmbito.

Essa tensão, ser mulher x homem, me faz pensar como eu vivi muito tempo, e vejo muitas pessoas viverem, sua sexualidade, como se fosse uma entrega, um presente, uma distração. Em toda essa busca eu encontrei uma percepção de sexualidade como uma possibilidade de um encontro. Um encontro pleno. Um encontro com o outro, uma possibilidade de dissoluções de barreiras.

No entanto, o que me parece mais problemático no “Mundo Mulher” de hoje, nas nossas sociedades, é como a sexualidade é roubada de nós mulheres. Ou para ser usada como um presente, ou como um ato de poder, ou de desmerecimento, nunca uma conversa, um diálogo consensual entre duas pessoas. Um encontro com o outro. Uma escolha principal e importante de todos os envolvidos.

Quando eu encontro um velho, sou jovem. Quando eu encontro um asiático, sou do Ocidente. Todas essas categorias não são fundamentais, tampouco, tão circunstanciais assim. Elas são imploradas em varias situações, pois nós habitamos muitos mundos.

Acho que as características que são atribuídas às mulheres: cuidado, delicadeza, beleza, fragilidade, são as que o mundo, que se desumaniza, tenta roubar de nós todos. Essas, eu mais do que nunca compreendo como características que por razão biológica, humana, ou sei La o que) me parecem ser a base da fundação do universo feminino. Essas são as que em nome de poder, muitas de nos mulheres (infelizmente) tentamos abandonar…

Eu acredito que essas devam ser características que devem ser cultuadas mais também no arquétipo universo masculino. Por que antes de ser mulher, e ele ser homem nos somos seres humanos… numa jornada que nos não entendemos muito bem. Numa jornada que nos desumaniza mais e mais a cada segundo. Nessa jornada vamos todos tentando entender pela razão tudo, enquanto navegamos o mundo pelos nossos corpos e sentidos.

O mundo mulher é só mais um mundo. Um que eu habito muito frequentemente. Um que hoje me é mais familiar. E que tenho muito ainda mais a aprender. Um que se politizou de um tanto que é difícil falar dele. E de passeá-lo.

Já o mundo em que todos nos habitamos, é plural e devíamos cultivar toda essa pluralidade sem jamais perder a ideia que no final ele é também muito comum. É o mundo da experiência humana.”

http://varaldobrasil.ch/media/DIR_158701/970412251dd984b1ffff8830a426365.pdf

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