O Amor é Subversivo- Para o Varal do Brasil

“ O amor é subversivo”

Foi o que eu pensei quando terminei de ler o amor no tempo do cólera. Florentino viveu histórias onde não esteve para esperar um amor sonhado na infância. Ele só é possível na Colômbia quando uma bandeira está lá, a bandeira do cólera.  Porque cólera é contagioso e o amor só podia existir assim, contido, num rio, num barco, porque na sociedade corrompe tudo. Corrompe as divisões.

Esse meu pensamento, voltou mil vezes à mente. Todas as vezes em que eu estive em lugares violentos. Todas as vezes em que eu estive em lugares desenvolvidos. Por que será que é tão difícil o amor?

Na minha própria vida, eu buscava dar amor a tanta gente, por tantos cantos. No entanto, sempre houve um momento em que eu ia embora. Porque o amor que eu buscava, para me resgatar de mim mesma, não podia fazê-lo. O amor me fazia vulnerável.

Porque o amor  faltava em mim.

O amor colapsa uma coisa para a qual não estamos preparados. Ideias versus o corpo. Sentimos o amor, ou alguma versão dele, no corpo e pensamos ele de uma outra forma.

Sinto que o amor é compaixão. Compaixão é entender o que os asiáticos, o religiosos,  os sociólogos e muitos outros tocaram. Que somos o tempo todo indivíduos num mundo plural. O amor colapsa separação do outro. O amor é humano.

E como disse o ativista  Vittorio Arrigoni que foi morto em Gaza: precisamos nos manter humanos.

Quando eu cruzei o muro da separação em Israel para chegar na Cisjordânia ( contra a vontade dos meus amigos) e fui ficar na casa de pessoas que eu fui conhecendo pelo caminho. Na época, eu estava envolvida no meu doutorado. Na época, eu escrevia as histórias das pessoas que não têm voz. Da Palestina eu escrevi o que eu via lá. Nada de político, nada sobre a ocupação. O dia-a-dia meu.

Um dia, um filósofo israelense, com quem eu tentava me encontrar há dias, me mandou uma mensagem de texto dizendo “eu queria ver o que o você está vendo”

Propus a ele que lesse os e-mails que eu mandava aos meus amigos (e que hoje está no meu  blog  www.translatingthoughts.wordpress.com  junto com todas as outras histórias da volta ao mundo). Mandei todos os emails  e, em poucas horas, ele me mandou uma mensagem de texto que dizia

“não posso te ver”.

Perguntei se era por causa dos textos. Ele concordou. Fiquei intrigada, não tinha escrito nada sobre a ocupação, ou a política. Liguei para ele. E ele me explicou que não sabia explicar por que era tão difícil.

Insisti que tentasse, afinal ele era filósofo. E ele disse:

“É humano demais”

Foi  difícil demais para ele dizer aquilo. E eu me senti muito grata. Ele prosseguiu:

“Se você tivesse falado contra a ocupação, se você tivessse falado da política, eu entenderia. Eu podia concordar, ou discordar… mas quando  escreve sobre amor, sobre yoga, sobre como eles tomam conta de você como nós tomamos aqui… é humano demais.”

Eu ainda fui esse dia até Jerusalém para conversar com ele. Nunca mais o vi. E isso ficou na minha cabeça para sempre. Quando eu escrevo do humano eu colapso todas as separações. Todas.

E não há nada mais humano que o amor. O colapsar da mente versus o corpo.  Toda a confusão que vem com a enorme vulnerabilidade de amar, de ser humano.

Na Colômbia, há pouco tempo, encontrei um homem de Gaza. Ele abriu um bar em Taganga, vilarejo de pescadores, na beira do parque Tayrona. Era sua forma de lutar pela

Palestina: servindo comida.

Amor

Na frente do café havia desenhos do Handalas, e “Revolución” escrito.

Handalas são cartoons. Ele/s são a personagem mais importantes do  Naji al Ali. Handalas normalmente são pintados de costas com as mãos fechadas e cruzadas. Eles representam crianças de 10 anos que foram mandadas de casa em 1948 na Al Naqbah ( O grande desastres para os Palestinos, quando perderam suas casas).

Eles estão sempre de costas e de mão cruzada,  porque Naji al Ali  que era crítico tanto do governo de Israel como dos governos Árabes. Rejeitava todas as soluções de paz que viessem de fora.

Não na Colômbia. Quando eu cheguei à Taganga, eu vi primeiro a bandeira da Palestina e depois a Revolución e depois os Handalas. Me apresentei ao dono, Yassert do café/restaurante como alguém que amava o oriente médio e que tinha amigos dos dois lados do muro da separação em Israel.

Voltei ao café do Yassert todos os dias tomando café, conhecendo seu filho, sua história.

E logo no primeiro dia eu fui pesquisar sobre a personagem Handala. E depois me lembrei que ali na Colômbia os Handalas pintados no café de um homem que fugiu de Gaza estavam de mãos dadas. Abraçados. Um carregava uma chave, outro uma arma, outro uma câmera, outro um estilingue para baixo. Tudo isso nos ombros.

Eu não gostei de ver a arma. No entanto, quando li que o Naji al Ali tinha sempre os feito de mãos separadas, e de costas, me senti aliviada. Ali na Colômbia eles estão abraçados. Tem algum que carrega uma arma no ombro mas suas mãos carregam o outro. Os vizinhos.

Olhei na minha memória para me lembrar que a palavra REVOLUCIÓN estava escrita diferente.  Tinha a palavra LOVE destacada no meio, só que ao contrário e em vermelho. Sorri. Ali na terra onde o amor foi tão subversivo, um homem, que tinha lutado na Intifada, hoje serve comida. Ele luta pela sua causa com seu restaurante, alimentando gente, trazendo pessoas para conversar.

E na sua parede os Handalas se abraçam e a maior palavra é “Love”, que é amor.

Yassert

O amor é subversivo, mas não ficou contido no barco. O amor é humano. E Vittorio Arrigoni, italiano, que morreu em Gaza, sabia disso.

Eu tinha um pouco de aflição de ativistas, que parecem sempre lutar seus próprios fantasmas em outros lugares. O mesmo que eu fiz por tantas partes do mundo.

Nesse dia, eu vi pela primeira vez o blog do Vittorio sua principal mensagem era: Stay human! (Permaneça humano).

Amar é permanecer humano. Com as armas e as câmeras e os medos.  O amor é subversivo porque nos obriga a ficar, a colapsar tudo que é divisão.

Então da Colômbia, de Taganga, eu dei “Graças a deus que o cólera foi contido, mas o amor não. O amor está em toda a parte em que permitimos que ele esteja. O caminho deve ser esse: deixar ele estar em toda a sua humanidade em toda sua perfeita imperfeição e ficar.

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