Das dores e o Tao

Ontem quando vi o sol, coloquei meu pé no jardim, todo o meu corpo se fez presente e eu escrevi.

Então, voltei ao jardim em direção a praia. Assim que pisei na areia meus musculos se alongaram, e o que até então era pura presença se definiu no meu cérebro como dor.

Respirei fundo, e um certo desapontamento me visitou. Lembrei das minhas próprias palavras. A impermanência de toda aquela mobilidade. Confesso que pensei em voltar mais uma vez para cama.

Olhei o céu, as ondas, o sol. Tudo ali em silencio se pintava como um convite para dar um passo a mais para frente em direção aquela dor.

Andei, reconhecendo tudo que doía. E quando eu cheguei ao lugar exato da minha prática do dia anterior eu tentei tocar o chão. Meu corpo gritou mas eu preferi ouvir o OM do mar, e assim por mais um dia eu passei por todos os professores, lamas, yogis, mestres que eu encontrei pelo caminho enquanto fazia minha prática. Dessa vez com dor que gritava por todo o corpo.

Um dia a mais de quase total silencio. Graças a deus sem televisao, conversas inúteis. Um dia de pura tranquilidade, mais um.

Porque será que alguém se fecha numa caverna me perguntei? Sendo roubado da luz, do sol, do vento? Nao sei. Gostaria de saber.

Hoje eu acordei e tinha luz pelas frestas do meu quarto. Sinal que eu tinha dormido bem e muito. No meu mundo, um verdadeiro presente.

Acordei ainda dolorida e nem se quer pensei em nao ver o sol, o mar a areia. Tudo ainda doia, mas tampouco era essa razão de não começar uma prática de mistura de yoga, tai chi, dança contemporanea como tinha feito ontem numa praia quase totalmente vazia.

De olhos fechados esqueci que talvez hoje tivesse gente na praia. Horas depois, de ser molhada, meditar, entrar no mar. Algumas pessoas vieram me perguntar se eu era professora de yoga.

No laos algum fotografo de dança achou que eu era modern dancer. Tirou centenas de fotos,e perguntou se deveria me mandar. Disse que não e expliquei que assim ficaria para mim sempre, só a memória da concentração na minha respiração, e o movimento do rio tornando aquilo um professo interno de “balance”. Nunca esqueci.

Hoje um cara que fazia documentário me perguntou do Tai Chi. “Que bonito essa forma de Tai Chi”!

Sorri e pensei em Lao Tse. Nao quis explicar que aquilo nao era yoga, tai chi, chi kung, dança. Era quem sabe Tao.. O caminho. Pensei no lendario Lao Tse sendo forçado a escrever um livro antes de desaparecer numa montanha.

Ouvi todos, quase em silencio e voltei para a minha casa.

Desde de ontem penso na dor. Primeiro a dor que me impedia de ser o que eu sou. Uma dor silenciosa que te comprime e que te convence que o melhor é parar. E na dor de ontem e dessa manhã.

Dor gritada, dor de ferida aberta, dor que vc pode ou passar anestésico e cobrir, ou fazer como fizeram na montanha da kashemira.

Ocidentais mandaran fazer o primeiro na minha mao aberta subindo montanha. A senhora local me mandou abrir, desinfetar com alcool e deixar aberto todo o dia. Eu NUNCA gostei de médico, mas ali naquela montanha eu sabia que aquela senhora sabia melhor. Deixei-a limpar, depois deixei aberto até o sol da montanha desaparecer.

” Cubra agora antes de dormir. Amanhã abre de novo e deixe no sol.”

A dor de ontem e hoje foi igual! Latente, rasgada, gritada! Mas é dor de vida! Você quase aprende a ser grata pela sua existência. Te faz grata por conpreender a diferença das dores.

A primeira que te contem, te prende, nao te possibilita movimento, te apodrece por dentro, em silencio e se mascára de menor, de silenciosa, de que a cura é fecha-la, anestesia-la .

A segunda parece de cara que vai te matar, te rasgar, soprar ar com alcool, ferro no corte, mas ela abre aquela ferida, e queima tudo que tava apodrecendo, enche seu olho de lagrima de alivio, tem algo que se move, abre e espera secar com o sol.

De repente parece, que aquela frase é mais completa, algo se abriu um pouco mais e eu ouço no silencio do OM

“O mundo de dentro nao pode ser reflexo do mundo de fora. Consciente dele, o mundo de dentro deve buscar a permanência em meio a impermanência de tudo. No fundo, o mundo de dentro não pode tampouco confundir permanência com rigidez, com falta de movimento, dentro da impermanência de tudo, e a permanência interna se faz sempre necessário TAO, o caminho. Se faz necessário caminhar.”

20140806-191405-69245046.jpg

Anúncios

O Mundo, o de dentro e o de fora.

Abandono o silêncio obrigado, a temperatura do meu corpo ainda está alta. Nao faz sentido, simplesmente nenhuma daquelas regras fazem sentido.

Talvez tenha sido a infusão de canela e gengibre colocado a minha frente que me faz tomar a decisao final, depois de ter sido por alguém afastada do sol. Eu já sabia no meu corpo quente, que um lugar lotado de pessoas, diariamente tossindo mais , me deixaria mais doente.

Mas ali, aquela infusao de duas substancias que qualquer asiático sabe esquenta a temperatura do corpo tenha me feito decidir que eu partiria.

Para onde, me perguntei? E até a rodoviaria ainda nao sabia muito bem. Ubatuba sozinha, decidi. Faría minha meditacao em frente ao mar, poderia ler o que se passava no mundo, responder, comería, e faria o que diziam meus amigos era importante: correr, fazer yoga, nadar, e beber agua.

Nem sabia que o tempo estaria naturalmente perfeito. Eu tinha tudo para nao passar frio. Nada de praia. Andei pelo caminho sem me preocupar de ficar só numa casa aberta, a beira mar. Nem se quer entendi muito bem essa preocupação da minha mãe.

Bastou um dia para eu entender que fora de temporada e sozinha numa casa vazia eu me sentia perfeita. Tudo estava ali a minha volta, mesmo que eu jamais tivesse planejado vir para ca.

Dormi e acordei com a música do mar. Mas foi apenas ontem que eu resolvi fazer o que eu nao fazia há anos. Sentei na frente do mar, embaixo do sol e foi uma junção, como o quer de fato dizer a palavra yoga.

Enquanto eu dançava por todos os asanas e por partes do meu corpo tao proibidas para mim desde que eu quase morri, eu estive presente , totalmente presente.

As vezes lágrimas transbordavam e vinha a minha mente Rinpoche falando das lagrimas. Nao havia plano, trajetória e quando isso vinha a minha mente eu pembrava da minha prática num barco, por dias no Laos também assim.

E o movimento continuava como uma dança da qual eu era apenas espectadora. Quando eu eu me dei conta, meu corpo estava fazendo algo impossível por meses…

Erick, meu amigo que me levou para escalar a noite, e que é a unica pessoa que tinha de fato entendido a minha dor alongando. veio a minha cabeça dizendo. “Ju, voce sabe isso eh neural e mental, para de pensar, relaxa que tudo volta.” Eu ri e chorei e des-acreditei naquele dia.

E ontem eu continuei por horas fazendo yoga,numa praia quase vazia. Deitei num asana e o mar de repente beijou o meu corpo. Senti simples e total felicidade. Sinal que era tempo de parar. Sentei e meditei no comeco de olhos semi abertos, por fim fechados. Se nao fosse o mar me guiando talvez teria ficado por mais horas.

Entrei no mar. Tentei entoar “om mani padme hum”. No entanto parei e ouvi, que por baixo de todas aquelas quebras havia sempre simplesmente OM.

É dificil colocar em palavras o que eu senti. Todas preocupacoes do mundo pararam, eu nao queria nada, nem passado, nem futuro. Apenas uma enorme gratidao que meu corpo estava sendo aos poucos devolvido para mim.

Até sabia, que isso era muito impermanente, nao fazia diferença. Queria gritar para o mundo todo. Pensei em rinpoche, karmapa, dalai lama, lama sobsang, Raphael, César, Denise e tantos outros yogis do meu caminho.

Mandei uma mensagem para Bahia, para uma pessoa que eu sabia que talvez me entenderia muito bem. No fundo não sabia se o Sergio iria achar tolo. Ele entendeu. Claro que ele entendeu, nao tem quem tenha passado tempo com os Tibetanos que nao entenda.

Liguei para minha mae quando tinha voltado ao plano e pensei, ela entendeu. Minha avó, tbm mal ouvindo, acho que entendeu.

Pensei então “é tempo de eu deixar as pessoas que de fato se importam saberem.”

Eu só sei escrever. Quero contar isso. Do meu telefone…

Hoje amanheceu chovendo. Eu acordei antes de amanhecer com o som da chuva, mas o mar me fez dormir de novo. Andei na praia, com as pequenas gotas caindo em mim. Meu corpo, claro, sentia todas aquelas partes agora de volta a vida.

Tinha decidido que partiria quando o tempo mudasse. Nao me deu vontade de voltar para Sao Paulo. E uma voz talvez de uma outra vida parecia sussurrar

“O mundo de dentro nao pode ser reflexo do mundo de fora. Consciente dele, o mundo de dentro deve buscar a permanência em meio a impermanência de tudo”

20140805-175546-64546144.jpg