As Nuvens e a Montanha

Meu mundo parece as vezes extraordinário. Talvez o ordinário até me assuste.

É comum ouvir os Tibetanos falarem da montanha e das nuvens.

Faz uma semanas guiada por um impulso desconhecido coloquei um bilhete na mesa de um homem que parecia perdido. Ele me disse

“Desculpe, eu to surpreso e com a cabeça longe, posso pegar seu telefone?”

No entanto, com todos os sinais do mundo que ele não poderia estar presente, eu escolhi deixar ele entrar na minha vida.

Os tibetanos também falam comumente de uma parábola.

“Quando vc leva uma facada de outra pessoa vc fica com raiva da faca?”

Toda pessoa a quem eu perguntei isso aqui diz que não, fica com raiva do esfaquiador.

“Não devia. Aquela pessoa esteve tomada por um estado mental. A responsabilidade é sua de ter permitido que aquela violência tivesse se sedimentado e aumentado no outro.”

Quase nenhum ocidental entende isso. Eu entendo.

Eu estava andando hoje em Ubatuba para ver a Nossa senhora da Paz que tinha me sido apresentada na outra semana quando aquele novo amigo tinha entrado na minha vida.

Depois, eu que nunca vou, entrei na Igreja. E assim que saí da Igreja daqui, um belo rapaz veio falar comigo, me disse:

“Eu te conheço. Ou melhor eu já te vi muitas vezes. Sempre quis falar com você, mas você sempre estava com alguém.!”

Eu olhei e fiquei quieta. Já ouvi isso mil vezes. Ele percebeu e disse:

“Juro que eu não falo isso para toda mulher bonita que vejo. Eu te vi várias vezes aqui.”

Continuei quieta e ele disse algo que me surpreendeu.

“Te reconheci pelo seu lenço voando. Eu o vi em Cartagena, depois em Taganga e depois na montanha perto dos kogis. Você sempre esteve acompanhada”

Fiquei estupefacta. De fato eu tinha estado em todos aqueles lugares, sempre com alguém Lorenzo, Lucia e Peter e de fato com meu lenço que agora voava como o vento.

Olhei para o céu, pensei em Taganga. Pensei nos Tibetanos e disse

“Faz quase um ano que eu quase morri. Eu estou perdida. Não quero ser como a nuvem, nem como o lenço que voa com o ar. Quero ser como a montanha. Eu te agradeço mas segue o seu caminho.”

Ele entendeu. Não disse nada. Eu virei as costas e continuei caminhando para casa.

Eu vi esse barco da foto. Sem estabilidade, indo de um lado para o outro com o vento. Lembrei da kashmira, de como meu amigo ex-religioso Elick tinha saído do Yeshiva. Falou de Moby Dick, de Ismael no capitulo 23. Não queria ser um barco tão perto da terra que podia se afundar, nem tampouco solto no mar onde se perderia pelo mundo. A arte de ficar no meio. O rabino compreendeu e ele virou matemático.

Por acaso contei agora desse cara que me viu na Colombia ao meu amigo que tem quiosque aqui na praia e ele disse “Nossa, mas vc não quis nem saber o nome, nem deu seu telefone, facebook, nada? Você sempre me surpreende!”

Enquanto eu andava, eu pensava que não. Eu não quis. Porque eu sei o que eu não quero reproduzir. Eu sei que o vento faz com que a gente as vezes tenha percepções muito erradas. E eu também sei que as vezes a gente joga fora coisas por bobagem, acaba insistindo num vicio químico interno sem nem se dar conta. Deixa de dar valor ao que tem, e por bobagem.

Andei misturando a minha fé dos cristãos, muçulmanos, judeus, pensando no Taoísmo e com a consciência que eu tinha feito uma escolha budista.

A montanha é presa na terra e aspira para o céu, a nuvem te joga de um lado para o outro. Eu quero aprender a ser montanha para que quando as nuvens passem elas não me machuquem tanto. No fundo eu espero,e desejo as nuvens a solidez de uma montanha.

Liguei para minha amiga de décadas e disse ” Lu vem para cá! Sabia que vou voltar para o clube. ?”

“Juju, to indo! Que bom! Tem yoga, Tai Chi. Sol na piscina.”

Ela não sabe mas eu lacrimejei. Ela me conhece mesmo. E pensei

“Como por um instinto divino o Esteves voltou-se e viu-me.
Acenou-me adeus, gritei-lhe Adeus ó Esteves!, e o universo
Reconstruiu-se-me sem ideal nem esperança, e o Dono da Tabacaria sorriu.” Fernando na voz de Alvaro de Campos.

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