Manaus- O auto da Desilusão

Comecei essa viagem para ver o que me fazia Brasileira.. Para ver se parava de querer voltar para a Asia.

De cara fui hospedada por alguém que virou amigo, Raphael. Um menino que logo no começo da vida morou anos no Japão. Sua avó japonesa, seu pai daqui. Fomos ver os bichos no zoológico e apesar de todas as arvores, lamentei ver os bichos presos. Nos divertimos naquela tarde. Já tinha sido recebida pelo amigo de um amigo. Um búlgaro que se tornou professor de universidade de matemática aqui. Todos os seus atos foram delicados, gentis.

Ontem a noite, enquanto o Rapha foi trabalhar no restaurante japones da sua família fui sozinha para o centro pois iria conhecer uma outra pessoa daqui. E assim começou um processo do observar e ser envolvida em mentiras.

Era o dia de Manaus. A volta do teatro tinha muitas festas. Parei para esperar e fui puxada por um cara para sentar na mesa dele, agradeci e sentei. Uma, talvez prostituta apareceu, e chamou o cara para dançar.

Ele na verdade queria fazer um show. Em segundos me dei conta que aquilo só podia ser uma pseudo elite daqui. Sua indiferença a todos, a maneira que o tal menino trocava de atenção e “mandava nos outros.” Pensei nos livros de Jorge Amado. Me puxou para dançar e aí eu tive total certeza disso mesmo.

Fui comprar agua e quando voltei um dos meninos da mesa me explicou que aquela cadeira era de uma menina. Ele me deu outra, ela nem sequer olhou na minha cara.

Em segundos lamentei ter sentado e percebi que ela era a namorada do tal cara. Seu descaso por ela me chocou, ela se manteve quieta virada em silêncio e eu obviamente levantei para prestar atenção num outro nucleo de pessoas.

Então chegou a pessoa com a qual eu tinha mantido contato escrito por semanas. E eu achei melhor ir para um lugar com música melhor. Ele quase que já sabia quem era a pessoa pela minha descrição da história. Que lamentável pensei.

E então fui abordada por um homem pedindo ajuda. Problema no coração. Faltava dinheiro para voltar para sua terra. Dinheiro do barco, poucos reais. E eu falei para ele que os Indios sempre dizem para não tirar as pessoas do buracos, pois caem de novo. No entanto, dei o dinheiro. Ele me deu o nome do vilarejo, telefone da sua mulher e me contou que era pastor. Disse que não ia mais pedir dinheiro. Insistiu que eu fosse visitá-lo.

A noite continuou, e esse novo amigo tocou minha pele. Quase me beija. Eu gosto dele, mas sempre o achei agressivo. Fico quieta meio sem reação. Eventualmente digo a ele que é tarde, que devia ir dormir já que tem que trabalhar no dia seguinte.

“Vc não manda em mim.”

Levanto para ir embora. Ele é legal mas isso é absurdo. É assim que tratam as mulheres aqui? Seus mil comentários quase agressivos, vestido de controle me dão uma ideia concreta. Ele vem atrás de mim e diz que tava brincando. Eu não acredito mas continuo passando tempo com ele.

Ele tenta me proteger de ver a realidade. Mas é em vão. O pastor continua pedindo dinheiro. Fica chocado de me ver. Insiste para que eu vá visitá-los, explica que só pega um pouco mais para comer. Digo a ele, que tanto a minha ação como a dele tem consequências. Ele não precisa me explicar nada.

Meu novo amigo com todas suas palavras, sua afeição me diz de repente que tem namorada. Eu sinto verdadeiro desprezo. Penso em mais uma mulher aqui em Manaus enganada. Pega o taxi comigo pois diz que é no caminho.

Quando sai ligo para Rapha que explica o caminho.

O taxista desliga e diz

” Nossa vc tem mta confiança.

Por que?

Achei que vc estava com aquele moço mas niguem que estã com você te desvia tanto do seu caminho.”

Fico quieta e penso como é verdadeira aquela frase. Rapha vem me buscar no fim do caminho já que esse taxista velhinho não acha .

Fico tão feliz de ver o Rapha e penso que ele é quase asiático, lembro do vitão! Só ele me buscaria assim. Penso que é só o primeiro dia. A india foi impossível na primeira semana.

Fico me perguntando será que tudo aqui nesse continente é tão descuidado do outro, tão de mentira? Sinto falta da Asia, do Oriente Médio, da Europa, sinto falta até mesmo de Sao Paulo. É só o primeiro dia, me repito.

Então lembro das palavras da minha mãe no seu último e-mail daquela mesma noite.

“Espero q vc nao tarde e nao sofra na busca de suas respostas. Com amor,
sua mae.

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