Compaixão

Este domingo coisas me tocaram profundamente. Fui ouvir João Carlos Martins. Enquanto esperava minha prima chegar, eu e André não entramos. Ficamos por fora e veio do nada um senhor que mora na rua, falar comigo.

Eu e o André nunca fomos pessoas que temos medo de falar com as pessoas da rua que não conhecemos, e que têm problemas na vida. Para mim sempre é melhor ouvir a estória. Esse senhor começou a falar que ele não era do reino de deus. Ele disse que era universal. Olhou para o André e disse que o conhecia de outras vidas. Falou uma palavra da Índia.

Aquilo que me tocou. O André nunca foi à Índia, mas eu amo a Índia. Não há meio termo. Ou ama, ou odeia. Eu amo a Índia apesar dos problemas profundos que há por lá. Como todos nós temos. Na Índia eu conheci Dalai Lama.

Dalai Lama não pede para ninguém virar budista. Pede para pegar o que fizer sentido. Dar valor à terra. Respeitar as opiniões do oposto. Quando esse senhor do nada me fez lembrar que agora o mundo está cansado de aceitar o oposto.

Quando fui ouvir o João Carlos Martins me lembrei que minha avó tinha contado que sua irmã era vizinha de praia da familia de João e que a sua mãe dizia que ele seria um grande músico. Minha avó contou que quando o viu, faz anos, ele contou de suas quedas e que era a ultima vez que tocaria. Neste domingo ele falou que precisamos estar no momento da paz. Isso me tocou. Ainda me tocou mais quando ele disse das suas perdas, e que quer tocar para sempre. Isso me toca. Todos nós já caímos e o duro é reconhecer a nossa queda, as nossas perdas e nos adaptar ao que é possível.

Nesse domingo eu fui a Paulista e de repente uma bela mulher diz Julieta!!!! Vc lembra de mim? Eu tentei, e disse que minha memória é tão fraca. Meu coma me fez esquecer, travar etc. Ela me disse que gostava de ler o que eu escrevo e eu nem imaginava. Ela me contou quanto a ajudei. Eu fiquei tocada e com vergonha de não conseguir lembrar. Marcamos contatos e fui perguntar desde quando nos conhecemos e ela me contou que era antes de eu ir morar em NY.

A minha maior dúvida dos meus dois comas era de como eu era antes. E de repente é de alguém que não me lembro que me conta de antes.

A vida é tão inexplicável. As vezes ajudamos muito uma pessoa e nem percebe, assim como as vezes machucamos sem perceber. Vai por todos os lados.

Estive falando com outros amigos e que estão falando de como está duro falar com as pessoas que vira uma briga. As ideias são sobre o oposto que não pode mudar. Talvez isso me faz lembrar Dalai Lama.

Aprendi ações e reações. Impermanência, paciência e compaixão. Compaixão muitas pessoas pensam que é bondade. Eu tive a sorte de conhecer Karmapa e Lama Lobsang que ensinava budismo na Europa. Virou meu amigo porque fui levar um presente que me deram da Índia para Europa. Virou meu amigo sem saber me pedir para eu virar budista só me dizia coisas que realmente me mudou. Lama Lobsang me explicou que compaixão não é bondade. Compaixão é se colocar no lugar do outro. É não deslocar o problema ou o sofrimento a outro lugar, é pensar na ação e não reação. Conheci muito lama lobsang. E ele partiu. E eu sempre ficando aprendendo sobre o budismo.

Um dia como já contei para tantos, um homem estava armado do lado de outro sem arma, em Belém do Pará. Eu tentava achar a casa da avó de uma amiga. Vi parei e pensei. O que faço? Lembrei do que o homem tinha me dito um dia anterior, jamais devia usar telefone na rua, que eu seria roubada. Eu no calor, com telefone, perdida parei e pensei se cruzo .carro para dois lados…. morro. Se corro eu estou dizendo “Vc é ladrão.” Resolvi falar com o homen armado. Fui andando sem olhar a arma dizendo a verdade.

“Estou perdida, estou tentando ir visitar a avó da minha amiga que não consegue viajar para vê-la, estou perdida.” Ele ficou chocado, eu imagino e disse que ele não era dessa cidade. Eu disse “Então você é como eu. Perdido. Quer usar o mapa no meu telefone? Eu não desejo a ninguém ficar perdido nesse calor.” O homem ficou chocado levantou o rosto e abriu o olho e me perguntou o meu nome e disse que não precisava e o amigo disse que eu estava indo certo e que eles não tinham visto a rua que eu buscava. Perguntei se não quiseram pegar meu telefone mas não e eles atravessaram a rua, e eu morri de medo que eles fossem ser atropelados.

Dei três passos e veio a adrenalina de ver o risco que tinha tomado. Fui num lugar comprar água e uma senhora começou a dizer que eu estava nervosa, perguntou se eu estava bem. Quando contei o caso, a mulher ficou revoltada. Me contou de quantos são mortos, assaltados por ali. Eu fiquei chocada da raiva que ela sentiu mas ouvi. De repente um senhor que ouviu tudo, disse do nada

“Ela é sabia. Deu uma possibilidade de bondade para alguém que não conhecia.”

Isso é a compaixão. Esse senhor não é da Ásia que eu amo. Ele era um senhor que sabe o que é perder, sabe o que é lidar com o que é possível. Por isso eu amo a Ásia, por tanto dar valor por envelhecer.

Envelhecer é como o senhor da rua, como o músico, minha avó, e eu, é aceitar os erros das perdas.

André e eu vamos para Ásia para ele conhecer. E espero que na nossa vida sempre nos coloquemos no lugar do outro em vez de só criticar o diferente. O nosso momento está evoluindo. Alguns voltando aos egoísmos do passado, e outros evoluindo para compaixão. Assim é o tempo. Como aprendi é Impermanente, e o nosso mundo, como disse o senhor da rua, é universal. O sol está de todos os lados.

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