Ouagadougou- Descolonizando a Mente.


Cheguei em Nova York alguns dias antes de 11 de setembro. Na minha natural vontade de falar com todas as pessoas logo de cara eu já era amiga de pessoas do mundo todo. Muitos deles eram do mundo muçulmano então quando caíram as torres em vez de desejar a morte de todos os muçulmanos eu me perguntava o por que aquilo tinha se passado.

 

Lembro-me bem que fazia um belo dia, da minha amiga Caroline Suíça que vinha me contar do evento. Ela apavorada que seu pai que trabalhava para Unesco. Lembro de dizer que aquilo era provavelmente uma historia mal contada e de ver ao seu lado na televisão a segunda torre ser atacada. Lembro de apesar ter 19 anos dizer para ela. Não se preocupe, seu pai é muito importante para estar lá essa hora.

 Eu que fui para estudar cinema graças ao Felipe Gamarano Barbosa, mas  sai bem rápido de interesse em cinema para me dividir pelo meu encanto pela musica e pela politica do Oriente Medio. Como nos Estados Unidos você meio que tem liberdade e obrigação de pegar aula de muitas áreas.  E assim cai na aula descolonizando a mente. Ensinada por Mustapha que considero até hoje o meu melhor professor, o homem que mais tinha mais capacidade de transformar o outro que já conheci. Aquele que sempre dava ao outro a capacidade de mudar sozinho.


 

Das ironias vida foi graças a Jocelyne que conheci o Mustapha. Jocelyne é americana e seu pai diplomata e quando seu pai foi transferido para Burkina Faso ela ficou numa escola interna fora de Burkina Faso pois os EUA não recomendavam levar crianças para esse lado. Mustapha Masrour é meu amigo até hoje e Mustapha é Marroquino.

 

A vida é tao bela e complexa que eu cheguei num pais que se inunda de guerras ilegais e absurdas e eu  acabo me tornando amiga de Leila Alaoui. Morávamos as 3. Leila, Jocelyne e eu. Pela Jocelyne eu e Leila fomos parar na aula do Mustapha. E o tempo continuou.

 

Quanto mais eu me interessava pela ciência e pela politica, pela filosofia, antropologia, historia mais eu ia me convertendo num ateísmo fundamentalista.  Quando ia ao Brasil até queria convencer minha avó a ler os livros ateus. Ela os lia e dizia “tem tantas cores não precisamos gostar da mesma. Tudo bem de você ser ateia e de eu acreditar em deus.”


Esse longo post é para explicar porque faço agora uma página no facebook do meu blog que se chama descolonizando a mente. Sei que por eu ter chegado num principio de guerra, de ter visto o que se passa em tantos países onde houve lutas. O valor pela luta se desfez em mim. Associou-se a destruição, estimulo de ego e uma perda enorme há muitos.

Eu sempre escrevia e-mails coletivos e a lista foi ficando tão grande, e as pessoas me pediam para mandar o que tinha visto quando fiquei na casa de palestinos, de indianos, e da kashemira, na Ásia que coloquei muito em dois blogs.






Tenho em inglês, e em português. Do meu celular não conseguia mandar sempre nas listas, mas conseguia tag, e do Peru nem isso consigo. Então resolvi criar essa pagina onde os colocarei. Fiquei muito impressionada de saber que tantas pessoas me liam. E grata. 

Sinto que precisava explicar o porque o do descolonizando a mente. E isto tem a ver a cada dia com mais coisas. O nome é pelo Mustapha. Quem me levou a ele foi a Jocelyne e ela me levou também aos Tibetanos.

Leila Alaoui foi morta em Burkina Faso nesse janeiro. Leila é minha amiga. Seus atos vão muito além do que está escrito nas mil matérias de jornal. Leila assim como a Jocelyne não via diferença entre as pessoas. Não sei quanto disso já veio de antes mas sei que muito disso vem de uma solidão que nos três sentíamos, da tristeza que foi para nós três vermos guerras se darem, destruições de culturas, famílias, de sonhos.
 
Sei que Burkina Faso, ou mais especificamente Ouagadougou também é uma coisa que nos liga as 3. Jocelyne ainda criança foi afastada de sua família quando seus pais moravam lá, Leila foi tirada com 33 anos dessa de lá quando tentava defender os direitos das mulheres pelas suas belas fotografias, e de mim também é um segredo vergonhoso. Era a senha de um e-mail mais secreto do que tantos outros. Era Ouagadougou. Era a senha de tudo que era conta falha que eu tinha criado e que já desfiz. Como poderia eu escrever mais uma vez Ouagadougou no mundo do segredo?

Esse post é para explicar que o ato mais de tentar me descolonizar é confessar isso. Reconhecer a falha é mais fácil do que aceitar o mistério de Ouagadougou. Sei que pelas mãos de Leila, Joce, Mustapha e eu estão as crenças e culturas de África, Américas, Ásia e Europa.  Nesse caminho se desfez qualquer fundamentalismo. E aumentou a minha admiração pela mente e pelo mundo metafisico.


 

 

 

 

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Os preços baixos pago pela desvalorização dos trabalhadores e já o meu casaco de Alpacas …

Estou de volta no sofá café o lugar que adoro e tomo café diariamente. Hoje acordei morrendo de frio e enrolei e coloquei um monte de blusas embaixo de um vestido. Lenços e meia e vim tomar café bem mais tarde que o André foi trabalhar.

Na hora, que fui pagar perguntei se a gorjeta é incluída , já que no outro lugar me pediram e quase em todos os outros o André que pagou. E eu tinha pago achando que estava incluída. Não é.

Quando eu cheguei aqui e já do meu lado “elitistinha”de acordo o André já quis ficar amiga do porteiro e dar o tapete que ele nem tem coragem de dar ou jogar fora.


Eu sugiro perguntar. E tbm dar uns tipo lustre que por comprar pela net vieram uns 10 e só precisamos de 1. É claro, ainda elistinha fui procurar uma moça para limpar esse micro apto.

André diz que aqui é quase escravidão . Preços de coisas de empresas é o mesmo preço que no Brasil. O estado quase inexistente portanto podem construir como querem. O novo governo da uns “tais” avanços mas os trabalhadores peruanos obviamente são os que pagam tudo por não receberem quase nada.

O André me diz que a moça que trabalha na casa do seu amigo cobra 50 soles, ou seja 50 reais. E ele diz que é muito pouco. Concordo. E decidimos que apesar do nosso apto ser micro pagamos 70.

Quando pergunto do tapete e levo ao porteiro ele fica tão encantado que me liga para dizer algo que não entendo. Desço e ele me agradece e diz que adoraram o tapete e a luz.
Ele arruma a senhora da limpeza que me pergunta o que quero que ela faça e eu digo que só precisa limpar. Pergunto quanto ela cobra e ela diz 50.

Não queria inflacionar de todos então digo. ” Tenho uma ideia se a senhora dobrar e guardar as roupas do André te pagamos 70″. Ela fica radiante e eu também mesmo porque somos desorganizados.

Então quando pergunto aqui no café da gorjeta e eles me contam que não é obrigado, então  eu deixo gorjeta e saio para procurar meu casaco. Vou andando e já ouço meu nome. Claro, já esqueci meu telefone no sofá café. Agradeço e me pergunto o que será que faz nossa realidade? As nossas ações ?
Ou são simplesmente diferença de cultura? E sem duvida eu tenho que parar de deixar coisas para trás ? No entanto, ganhei novos amigos por isso.

Minha mãe me diz para comprar um casaco de esporte mas no fundo esses eu nunca usaria e quando chego no shopping de Mira flores eu vou de loja em loja e de repente entro numa linda .

Cara como qualquer loja boa em São Paulo e colorida como qualquer loja asiática e me apaixono por um casaco de alpaca de mistura de preto com roxo, vermelho, azul e quando o visto tenho até medo do preço. Tudo nessa loja é lindo.

De tanto que eu hesitei e fiquei vestindo o tal casaco que fico até morrendo de calor. A vendedora explica que a alpaca  mantém a temperatura do corpo. Nem sei o preço mas sei que eu o adoro pelas cores, pelo calor, pela qualidade, pela maciez , por ser tão único e confortável. E por saber que a Alpaca é a base da indústria Andina. No cartãozinho colado ao casaco fala dos Incas, da criatividade dessa indústria de como hoje essa fibra tem um papel tão fundamental, fala até da alta variedade de cores cromaticas nesse tecido que diz ser a maior no mundo. Nem sei se é verdade, mas sei que vem dos Andes. E sei que amo montanhas.

Compro e volto andando. Faço economias de não tomar Uber ou taxi para pelo menos sentir que economizei em algo. Vou me perdendo um pouco mas vendo mais a cidade e de repente quem está do meu lado?

O sofá café 🙂 entro e digo a moça que to morrendo de calor de tanto andar, que sem meu cel que ela tinha me devolvido eu tinha ido a pé até a Bolívia mas fazias poucos minutos que tinha lembrado do mapa.

O que deveria tomar? Pergunto a moça do sofá café e ela me faz uma sugestão e aqui estou eu sentada na cadeira roxa e tomando um suco de mistura de frutas vermelhas e ervas verdadeiramente delicioso.



E nesse final de semana pelas confusões do visto do André vamos até a Bolívia 🙂 eu sabia que tínhamos um feriado e que eu ia passar frio para qualquer lugar que fosse. Agora tenho certeza que com essa bela alpaca posso até passar calor 🙂 De qualquer maneira, meu amigo Gabriel que é Peruano e estudou comigo na London School of Economics está aqui.  Acaba de ter um filho e me convida para ir lá agora….. então lá vou eu de volta para Mira flores e dessa vez, ja tirei os casacos inúteis e já coloquei meu lindo novo casaco.

Lima e o tanto que se aprende da cultura numa peça na feira orgânica

Estou em Lima. E de cara já tenho um monte de coisas para contar.  Talvez começa pelo fato que eu não sou o tipo dona de casa, minha mãe nunca cozinhou e eu já criança saia da escola para almoçar em restaurante e eu meu irmão detestávamos. Hoje eu amo comer fora e tomar café da manha fora de casa.


Gosto mais de café da manha do que das outras refeições , então achei fundamental descobrir o lugar certo do café da manhã daqui. Achei no sábado meu lugar favorito. E hoje o André que foi criado numa família mais estruturada prefere comer em casa. Sugeriu que fôssemos a feira.

 

Eu acordei as seis e dizia-se que havia Tai Chi aqui do lado. Acordei o André empolgadíssima. Disse para ele que não se surpreendesse com minha mudança de humor mas que estava tomando muita cortisona e dizia lá na bula dos mil efeitos colaterais.

 
André ,como sempre, não liga muito, mesmo porque ele não toma remédio é calmo e homem das ações. Levanto animada passo frio na rua, os Chineses não estão lá e é do lado da futura feira. O moço peruano diz que devem chegar mais tarde. E eu digo “Vamos embora está frio.”

 

Na minha versão mais honesta volto e durmo e acordo e vamos tomar café num lugar que só tem no domingo? O André  sugere a feira e eu inundada de um novo sono digo “ por que ?? Como diz meu pai isto é arcaico e deixa a cidade suja.”

 

Vamos ao café e pagamos uma fortuna para comer aquela comida boa mas logo o café é sem graça.


André quer ir no supermercado. Vamos e na volta eu digo para ele ir a feira se gosta tanto que eu fico em casa. E ele me pergunta “xuxuru, porque vc não vem?” Eu vou meio achando inútil  e segundo ele agora “contrariada porque bem no fundo sou uma elitistinha” diz rindo. E eu naturalmente me reconheço preconceituosa e errada.

É uma feira orgânica e tem de tudo lá. E eu é claro já fiquei amiga da senhora que vende pastas de azeitona e pimenta e de tanta conversa somos amigas de face e ela é da linha da meditação, do Ayurveda etc e tal.



No entanto, do que mais queria contar, era do teatro para as crianças feito no final da linda feira orgânica .


Eram fantoches. Uma mulher cozinhava e quando saía do palco ( para baixo) uma vaca fantasma aparecia e roubava a comida. Ela sempre perguntava as crianças quem era que tinha feito aquilo e as crianças contavam. Ela não acreditava  e então pedia ajuda o que  as crianças sugeria que ela deveria usar par se proteger do ladrão.

As crianças dizem

“Faca, revolver.”

E o fantoche da mulher diz “Que isso, não sou assassina sou uma campesina.”

Ela pega um pau para lutar com alguém que rouba. Quando eventualmente consegue ver o fantasma da vaca sai correndo e conta ao marido. Ele se propõe a cuidar. E manda ela ir embora porque ela é mulher e ele é homem. E ela como mulher naturalmente é medrosa.

Aparece o fantasma da vaca e o homem se desespera. O fantasma desaparece e ele chama a mulher e diz.

 

“Vamos para casa da sua mãe.”

Ela diz que de jeito nenhum. E vão brigando para baixo e volta só ele que começa a se assustar quando vê o fantasma da vaca. Ele cai no chão e ela o joga para baixo do palco. Volta a mulher e pergunta “Onde esta meu marido e o público das crianças conta  que ele caiu.”

Eu ia ficar cinco minutos mas é claro que de cara vi que podia ver muito da cultura e fiquei até o fim. Então para minha surpresa a mulher diz. “Eu vou vencer pela nossa cultura. Peço ajuda. Cantem comigo. E ela canta um canto que não é espanhol e a vaca vai ficando pequena e cai.

 

Então a mulher diz “minha mãe me ensinou quando o mal se queima ele desaparece.”

 

Ela transforma a vaca em fogo para fazer comida e vai buscar o marido e chora porque está morto. Revive. E quando ele acorda e ela mostra o fantasma morto pede ao publico para contar quem foi. E então ela diz:

 

“As mulheres podem ter medo, como tem os homens ou qualquer um. Isto é normal mas quando se metem com a nossa família, nós as mulheres ficamos bravas como o Puma.”

A peça termina com o homem pedindo perdão a mulher por não ter confiado na sua força. E dizendo que é a parte romântica.  Tem beijos. Por sorte fiz o vídeo do final e vocês podem ver.

 

Fiquei emocionada vendo a peça. Lembrei que muita braveza tinha vindo em mim pela cortisona, pelo clima brasileiro, questões de família e achei de alto valor o pensamento de uma peça de reconhecer que o medo é comum a todos.

 

O André passou a me chamar de Xuxuru porque eu o chamo de Cocoru. Assim como o homem pediu desculpa de não confiar na mulher em proteger a família, eu reconheci que ir na feira era bem melhor que o lugar do café de hoje. E no final não tem nada como reconhecer os seus erros e não ficar querendo ser perfeita.  E agora até o sol apareceu uns segundos aqui. Quanta alegria.

 

 

 

 

 

Em direção ao Peru-Mudanças são internas 

Sempre que entro num avião eu já estou meio sem bateria. E sempre escrevo. E sempre me sinto em casa.

Adiantei minha passagem por um dia. O que todos devem achar loucura. Às vezes recorremos ao pedacinho louco e gasta-se  meio à toa mas por muitos sentimentos opostos. 

Saudade do André, cair fora de tanta agressividade do ar, por sentir-me falha e vez ou outra essa braveza entra em mim. Então mudei a passagem.

Pudi até ver a Monja Coen ontem no seu templo que estava tão cheio. Eu sempre me identifico com o budismo e quando ela disse ontem “temos que ser ator e não reator.” Percebi do tanto que na minha vida simplesmente reagi. 
Agi também mas para tal evento precisamos desenvolver uma consciência maior. Precisamos compreender e não nos corrompermos. Como ela disse ser ” corrupto” é literalmente ter o coração corrompido. 

Corrompido de uma forma que só pensamos em nós mesmos e não na humanidade inteira. E isso na verdade é tão triste e solitário que te dá piedade e desfaz a braveza.

Somos seres humanos , parentes de uma forma ou outra. E temos tantos sentimentos nos nossos corpos que quando percebemos que tem uns botões que te ligam o pior é hora de buscar ajuda. Eu estou partindo do Brasil hoje para morar no Peru.

Tem quem acha que é um país péssimo. Tem quem acha que é ótimo. Eu já morei na Argentina, na Austrália, e já adulta uns 6 anos em NY, um na Holanda, mais 6 em Londres e muito tempo viajando pela a Asia. 

O André é português e Brasileiro e nem ele nem eu queremos viver na Europa. Sua irmã muda para Londres e meu irmão para Nova York. E aqui do avião vejo um céu vermelho, amarelo e azul. Estamos acima das nuvens e eu me sinto em casa .

Minha companheira mais legítima é minha avó que diz que vem comigo ao aeroporto tomar café. Meus pais tão pouco acham tão errado eu adiantar um dia a passagem e eles também estão fora de São Paulo. 

Espero não ter nada muito em breve e só voltar em novembro para fazer mais exames. E espero que os que querem saiam do discurso do ódio. 

Sei que as pessoas que amo estarão sempre em países distintos . E sei que desejo a todos que saiam do discurso da luta. Na luta não se ganha nada. 

Pode até ganhar discussões, uns direitos aqui e outros ali mas se perde o maior valor. O valor da vida. O valor de fazer uma auto examinação e perceber que o outro vc não muda, só consegue fazê-lo se vc se mudar. 

Mudando de luta para despertar no outro, ou melhor enxergar no outro algo de belo e talvez ele mude. Não é lutando. Das minhas lutas só perdi. Das lutas na Síria só pessoas perderam. Das lutas no Camboja , na Palestina, tanto eu vi de destruição da coisas mais a profunda: a compaixão.

Eu de fato, parto porque quero aprender de novos povos, de outras pessoas. Quem sabe assim consigo aprender a ser uma pessoa melhor. Tenho a sorte e a benção de ter ao meu lado e agora em países diferentes duas pessoas parecidas minha avó e o André.

São pessoas das ações e não das palavras. E os dois me dão sempre o mesmo conselho:
“Aceite a pessoa como ela é. Não fique tão emocionada.”

Nenhum deles é frio ou indiferente . Eles sabem tão melhor que eu aceitar o outro sem exigir que o outro seja de ética primordial. E eles não se abalam com a falta de caráter de tantos.

Hoje na frente de um aviao  minha avó me deixou e sei que  o André me pegará quando chegar. Dentro do avião penso que tenho que aprender isso. Não posso esperar nada de ninguém. Só de mim posso esperar o meu melhor.

Portanto me sinto feliz logo mais eu estou num novo caminho. Terei novos encontros e não espero nada. Espero que eu seja melhor. Sinto me profundamente grata de estar viva, de andar, de voar, de ter ao meu lado pessoas maravilhosas. 

Aceito que posso errar e que não tem como mudar o passado. Podemos mudar o presente , a cada segundo podemos mudar tudo pela maneira de como olhamos e agimos . 

Espero que todos vocês que me leem e me contam e me dizem que leem saibam que fico muito feliz porque eu sou das palavras e escrevo pois sinto que devo dividir tudo isso que me foi entregue. 

 E quero muito que cada um pare e pense no seu melhor. Que volte a sua respiração e que fique em paz e se perceba como muito privilegiado de estar vivo, de estar bem, de ter pessoas ao seu lado que admira. 

Que saia do que te faça mal. Não fique por rotina, costume, medo do novo. Saia para o novo de coração aberto. O novo não quer dizer mudar nada fora. O principal é mudar dentro.

Eu mudei um pouquinho 🙂 Quando voltamos do Chile no ano passado o André queria comprar um lego de um trailer. E eu disse ” ah André vc é adulto. Que desperdício.” 
Contei para minha avó que inventa de ir ao shopping antes do natal para procurar o trailer para o André .

 E eu digo que aquilo é loucura. E minha avó diz que temos que dar o sonho das pessoas, não podemos destruí-los.

O André ama o lego no natal 🙂 e dias antes de eu partir ela me diz para irmos ao shopping para mandar de presente um lego já que eu não quis levar o trailer. Comprou e fez o seu cartão para o André.

Quando me despedi da minha avó no aeroporto entrei e vi uma loja de lego. Entrei e pensei que tudo que comprei de asiático para o André comprei porque eu amo a Asia mas acho que ele ia gostar mais do lego. 

Comprei um lego também. Copiei a minha avó. E copiei o André que nunca destruiu meu sonho de ir a Birmânia sozinha depois de eu ter um AVC e como vasculite cerebral. 

Lá eu aprendi muito e só pude fazê-lo porque meus sonhos não foram destruídos e dele veio a minha força de dar mais passos para frente.


Com amor, Ju

Um chá e lavar as mãos.

O meu silêncio não foi exatamente porque estava mal, ou ótima. Era mais porque você entra num hospital e lá vê de tudo. E não importa o quanto você se esforce para não estar fazendo os erros de sempre. Volta e meia vem o hábito . Então eu escrevi uns 30 posts e nem publiquei.

Fiz questão de não tomar imuno supressor e claro que isso não vem sem dúvida  e claro dúvida  vem com a liberdade de escolha e de saber que a outra talvez fosse a melhor. Enfim, sei que hoje eu estou na minha casa. Ontem vim e ainda fiz um monte de coisas e fiquei exausta mesmo.

Então apelei a Monja Coen que tive a sorte de ver ao vivo uma vez, mas são  os seus videos que vez ou outra eu apelo e lembro. Condição humana é essa.  Buscar um caminho mais sagrado nao elimina de você a raiva de ver a injustiça e se você analisa e entra numa discussão,  já perdeu. Tudo bem,então  pedimos perdão. E fazemos uma outra escolha.

Hoje eu comecei a fazer uma organização da minha total des-organização. Eu sou muito des-organizada. O André também  é então vai ficando cento e ciquenta papeis na mesa. E hoje eu aqui sozinha apelo ao lixo. E ao dar coisas que tem demais. E nao é que de repente vejo esse papel 🙂


Todo onibus que voce entra em Myanmar, Burma ou Bámar 🙂 que é fechado te dão água  e te dão um saquinho para limpar as mãos.

Olho o saco e rio. Lembro do senhor Win me dizendo para lavar a mão antes de comer com ela. Lembro da famosa frase do Gandhi de que comia com as maos e dizia que suas maos ele sabia que tinha lavado, já os talheres??? 🙂

Lembro, de que em todo lugar que entrei na Birmânia eles te dão chá.  Uma infusão que eu tenho fotos e na verdade que nem sei o que é.  


E lembro que eu adoro infusoes e que no deserto do Sahara te dizem que nao devemos esfriar o corpo para perder mais energia num lugar de comida escassa.

E claro, quando vem tudo isso a minha mente, vem o Marrocos.


Vem a minha  mente minha amiga Leila Alaoui.


Vejo na página do seu irmao que ele está triste.  Foi o Soulaimane que foi buscá-la em Burkina Faso.


Sei que foi aniversário da Leila esses dias.Escrevo uma mensagem para ele contando que tinha escrito  duas cartas e deixado em dois templos  na Birmânia.

Contei que na segunda tinha explicado a Leila que Dra. Euthymia havia me explicado que havia 4 fases de luto. 1. Negacao. 2 Braveza. 3 Era falta de sentido na vida sem aquela pessoa ali. Essa fase podia durar 6 meses e se nos percebermos nesta fase precisamos de ajuda. E eventualmente chegaria a quarta fase. Aceitacao. Saudade. Pensamentos positivos. Alegria e a vida presente.


Escrevo nessa minha carta a Leila que sinto que ela está bem mas que eu estaria sempre aqui aberta a sua família para protegê-lo -los como ela me protegeu quando quase morri.

E não é que sua mãe  me conta que estava muito difícil esses dias porque Leila nasceu no 10 e sua mae no 11 e naquele dia ela nao ouviria nunca mais  “Maman Joyeux Aniversaire.”

Isso me trouxe ao hospital na mente, pensando na minha revolta das pessoas que reclamavam de quase nada. E de eu até dizer ao um menino que reclamava de ser um final de semana e ser emergência  e ele ter que esperar tanto.

E eu nao aguentei levantei e disse “De fato, minha avo Lucia está aqui me acompanhando com seus 91 anos porque ela adora vir ao hospital.”


Ele ficou sem graça e nao me disse nada. E eu também me senti mal porque isso nao acorda nada de bom em lugar nenhum. E é só o princípio  de você cair nos seus velhos costumes que te deixam desnorteado. E em segundos eu desligo mas é difícil.

Busco a monja coen e me dá tanto alivio ouvir ela explicar coisas básicas que eu sei mas esqueço. E faço minha mala. Semana que vem é hora de ir para o Peru. No meu lixo eu coloco um monte de coisas materiais, e pensamentos. Faço uma coletania de coisas que tenho demais e pergunto se a Netinha e minha avó querem.

Lavo minhas mãos. Aceito os meus erros. Tento melhor.  E faço um chá e faço como me explicou Lama Lobsgang.
Peço libertações    de sofrimentos a todos os seres sensientes, todos envolvidos no processo de tudo isso que passa por nós, aceito a impermanência. Aceito a falha.

Aceito que a minha a escolha foi uma escolha e de nada adianta pensar em outra. Na hora que quiser outra eu a faço.


Nesse meu chá está a minha eterna memória que eu aceito a temperatura que ele está. A eterna gratidao que tenho pela Leila e pelo Getulio. E o meu profundo desejo de que todos nós vivamos melhor.

 

Um Tao Sem Luta.

Primeiro preciso agradecer as pessoas que me leem e que me escrevem. E desculpe se não respondo para todo mundo. 
Primeiro eu to com meu horário muito dividido. Um horário Peruano, um asiático, e um brasileiro.  Segundo porque eu cheguei com cento e cinquenta  missões para fazer.  

E finalmente pegar aqueles mil resultados de ressonância e eletro que eu entendo por cima, e fico com ummilhão  de dúvidas  internas que sao na verdade medinhos calados.


 

Então, quando finalmente eu leio o resultado e a Dra. Karen diz que está ótimo eu fico muito feliz. Minha avó chora de emoção o que é raro, eu chorar é igual a rir…. os dois vem juntos sempre e demais.


 Só sei que Dra. Karen me diz para eu tomar cortisona e imunosupressor.  E eu digo que a cortisona eu imaginava. O imuno-supressor nao mudei de opiniao. E Dra. Karen me diz que Dr. Getulio teria me dado. E eu penso. Que graças a deus ele nunca deu. E foi assim que entre quedas e levantando, cortisonas, e nada que eu fui me construindo.

Não sou médica, não repudío a medicina ocidental, nem a oriental. Eu simplesmente penso que todos temos uma certa liberdade de aceitar o não saber. Aceitar o que vem. E aceitar o arrependimento do vai que eu fico paralisada sem tomar imuno. Pode ser que eu morresse tomando. 

Entao. por hora eu nao tomo. Isso não  significa que aquele medinho calado nao se manifeste em mim.

Significa, que eu ando pensando, quero andar para trás. Me atrapalho com as pessoas a volta que falam aqui no Brasil o tempo todo de Luta. 

Como disse ontem para Dra. Euthymia eu volto me sentindo muito de fora e não conseguindo adotar e nem querendo adotar um discurso de Luta.  Ou seja, eu volto mais eu mesma.

Dra. Euthymia me contou que as pessoas o usavam como vencer. E não  tem jeito, eu vejo vencer como derrotar algo. Derrotar no meu micro mundo nao parece ser positivo. Nem a minha doença auto-imune quero vencer, quero entendê-la. Quero saber como é que ela é parte de mim e convida-la para ficar da maneira que nós duas vivamos bem.
Penso que segundos de interação com ocidentais no Oriente me despertaram coisas ruins. Medos, braveza, luta. Na Ásia , talvez por eu ser de fora, eu tente mais me ver no todo. 

Eu tento me encontrar ali naquilo que eu acho horrível. E sei que não posso ter liberações químicas no meu corpo dessa enormidade. São vícios que  vão lutando pela força e apagando a compaixão.

Então eu chego num Brasil onde tem pessoas que reclamam da mala demorar, da fila de taxis ter gente. Pessoas que na rua falam das suas identidades independentes. Feministas, duras como os mais duros machistas. No hospital particular mais pessoas reclamando de tudo, de nada. 

Isso acorda em mim o meu pior e quero ir lá e lutar para dizer que já são privilegiados.  

Graças a deus, vem na minha mente, que isso se passou no aeroporto então, eu desligo o botão  ouvir, lutar e quando é minha vez eu acho  as coisas belas que ali estão  para comentar.

Assim  ganho um taxista que para de reclamar para me contar de quando ele ficou paralisado. Da força da vida nas coisas bobas.  Assim a gerente do banco que minha avó vai me liga e quando vou ver lá  o que é em vez de ligar ela me pergunta da Birmânia. Eu nem tenho conta no Itau. E  se fosse só pela Sueli eu ficava lá porque ela é uma mulher exepcional.

Assim qunado eu  vou ver a Dra. Euthymia ficamos pensando como vamos fazer quando eu estiver no Peru na semana que vem.
Eu sei que quero estar como eu estava na Ásia . Quero estar como quando eu estava na Birmânia. Todo dia era um presente. Eu ando. Eu aprendo. Eu escuto. Eu falo mas eu nao disputo. Eu nao luto.


Sei que para muitos parece fraqueza, apatia, indiferença. Para mim, esse é o único caminho que acho que me faz bem. Posso estar errada. Por enquanto me sinto privilegiada de poder andar,  de conhecer as pessoas, ajudar e ser ajudada, de trocar o meu melhor. Isso eu quero ter aprendido mais fortemente.

 Como dizem os tibetanos dor é inevitável, sofrer é uma opçao.  Tenho dorzinha da dúvida, mas eu tento escolher nao sofrer. E claro ter consciência do medo.

De qualquer maneira amanhã eu tenho que ser internada mais uma vez. E isso nao é nada demais. Tenho que tomar cortisona o demais são as nossas emoções que nem sempre nos ajudam.
Sento e penso que sempre  e por anos sinto falta do sol se pondo no  Mekong. 


Sento e passam na minha cabeça os conselhos dos sábios do caminho. 



Penso no Dalai Lama dizendo que devemos pegar do budismo o que fizer sentido e dar valor ao que temos, pois de onde somos sempre tem valor, e mudar dá tanto trabalho. Ele disse “Sou apenas um ser humano, Tibetano porque nasci no Tibete.

Lembro da Denise que conheci diante do Dalai Lama e que me levou ao Karmapa. E eu que nem dava valor, e nem acreditava em nada quando fiquei sabendo que ele era um Tulku como o Dalai Lama.

Em poucas palavras,um Tulku é alguém  que na hora de iluminaçao faz um voto de voltar para ajudar todos os seres sensientes. Essa tradição é parte do Budismo Tibetano.

Na época achei absurdo mas fui. Sem nem imaginar quão grande presente aquele era. Era seu encontro privado. E eu munida de pre-conceito, e educacao fiz o ritual corretamente. Só nao estava preparada para desabar de emoçao.

Anos depois  contei para Denise que tinha tomado Ayahuasca no meio do Brasil e que tinha uma foto do Karmapa nesse lugar. E que eu tomei 7 vezes e nao senti nada. E ela me disse “voce se lembra o que SS Karmapa te disse?”


“Sempre estarei com voce. “E eu de fato o senti em mim. Eu de fato quando escrevo ou conto eu o sinto. 


Eu a ateia fundamentalista que fui atrás de todas as religiões do mundo hoje sinto isso. Uma presença tão divina  onde a permitimos. Nao afastada da nossa humanidade. Nem carregada de regras e pre-conceitos.


Vem na minha mente um menino Palestino que me perguntava o que eu achava dos muçulmanos. E eu dizia que tinha muitos para eu saber, dos que eu conhecia, eram muitos boas pessoas. E ele perguntava do Islã e eu ponderava no meu ateísmo total, e sindrome de dizer a verdade disse

“Nao sei se Deus existe. Se existir ele ou ela. Nunca se importaria por pequenas coisas mundanas tipo do que voce come, ou veste etc. E se preocupasse eu nao o/a respeitaria.”
Terminei a frase em estado de choque. E Fayez ficou quieto. Eu me arrependia por saber quão ofensiva era aquela frase. No entanto, esse menino me disse.

“Voce já sentiu frio? Calor? Dor? Alegria, Fome, etc etc etc”
“Sim Fayez. Por que?”
“Quando vc sente, voce esta com alguém ou sozinha?
“Sei lá. As vezes com alguém, as vezes sozinha.”
“Julieta, voce é muito boa pessoa. Eu vou rezar para um dia você nunca sentir nada sozinha. Por que talvez o que siga nao seja o certo, mas eu o faço pela gratidao de nunca estar sozinho. Deus sempre está do meu lado.”
Eu já escrevi sobre isso. E o Fayez é meu amigo até hoje. Ele é mais jovem. Tem conflitos no seu país. Ele tem problemas na sua vida mas é grato pela vida.

Eu sou grata pela minha. Por todas as pessoas que considero que realmente são parte da minha vida. Por todas as vertentes da busca do divino que parece pode ser manifestada carregada de pre-conceitos ou de total compaixao e beleza. 
As opções podem não estar nas nossas mãos mas como aceitamos o que vem muda tudo, de como sentimos, vivemos e como encontramos os outros, que é nós mesmos. 

Eu espero que eu fique no Tao ( que é caminho) em qualquer lugar que eu esteja. Consciente que tudo é impermanente. Que nao construamos mais sofrimentos a toa.

Estamos em Construçao.

Eu sabia que eu deixar para depois contar os detalhes da Birmania, do Laos e da Tailandia deixava mais dificil. Já que minha memória é falha e mais coisa vai acontecendo. Já estou em Sao Paulo e já fui no hospital para fazer ressonância e eletrô, e agora só me falta ver Dra Karen e a Dra. Euthymia. 

Na melhor das hipoteses meu exame nao dá nada, ná pior dá outra inflamaçao. Tanto faz qual seja o resultado. Num eu nao tenho que ser internada para tomar cortisona mais uma vez, e no outro eu nao preciso. O que sei é que  imunosupressor eu nao quero tomar mais. Agora tenho a experiência, e mesmo com todos os riscos de pegar tudo eu fui para o sudeste Asiático sozinha e andei todas aquelas montanhas de Kalaw as vezes até descalça.


 
Comi comida local das pessoas, aprendi comer com a mao e descansar depois. Sentar no chão e absolutamente NUNCA me senti mal.



No dia que eu conheci o Min Min ele me levou para ver os templos debaixo da terra. A cada dia eu ia ficando mais forte, e com Min Min mais cheia de informaçao. E sei que no prmeiro dia eu andava de sapato de andar em montanha aberto e preso. Milhoes de esparadrapos e de repeten sempre chovia, e colocavamos nossos casacos de chuva. 


Ele me pedia desculpas da chuva e eu dizia a ele que nada podia ser verde daquele jeito sem chuva. E eu ia andando e de repente resolvi por o pé em algo que achei bem sólido. Era cocô 🙂 Eu tive um acesso de riso. E ele veio me ajudar a limpar o pé na casa de uma senhora. Eu disse para ele que se aquilo havia de pior no dia, o dia era muito bom. 

Ele entao ele me contou que era crença deles, nao sei se do Nepal ou Myanmar… Que quando um pássaro faz cocô  em vc, ou vc pisa no cocô  só pode ser boa sorte.

No dia seguinte ele me imprestou um sapato mais confortável. E eu o usei uns 3 dias. No quarto eu disse que agora eu já conhecia bem aqueles lados e eu ia de chinelo.  E ele disse que se chovesse arrebentava o chinelo na lama.  E eu contei que eu tinha subido na Colômbia de chinelo.

E eu disse que nesse caso, de chuva,  eu andaria descalça mas chega de sapato. Eu quero pisar na terra. O Min Min já me conhecia, sabia que nao havia a menor chance de eu ter um ataque de chilique por causa disso. 

Choveu andei com prazer na lama e enfiei meu pé no lago e então o sangue-suga e gruda grudou no meu pé. Tiramos e aí começa a sair sangue. Mim mim vai buscar erva para estancar.  E me pergunta no que estou pensando.

“Min min coitado desse sangue suga , pega um sangue cheio de cortisona .”

Ele riu. E eu juro que até achei bom o sangue suga me deixar ver meu sangue vermelho sair. Vermelho bonito. Fiquei impressionada que a planta estancava. Impressionada pelo tanto que Mim Mim sabia.

E lá fomos nós. Dessa vez eu tinha até  conseguido arrumar  uma Americana muito gente boa para ser mais uma turista e contribuinte . Eu não queria dividir o valor queria que ela pagasse inteiro e eu também por saber que os preços estavam inflacionando com essa nova “democracia” . Seu aluguel já tinha dobrado e era época baixa de turismo. Época de chuva.


Ela tinha abandonado sua vida nos EUA e fazia 2,5 anos que morava lá na Tailândia onde tinha feito um curso de ser instrutora de mergulho. 

Explicou que sua mae trabalhava para o mercado financeiro e que o sistema que a dava muito dinheiro dia após dia a fazia ter mais divididas  para de repente, de um dia para o outro, a mandar embora e ter um divórcio dos pais. 

Ela ia me explicar e se justificar estar fora do seu país, de nao ter planos de voltar, mas eu disse de cara. “Nao precisa me explicar. Eu amo a Asia, nunca fui nacionalista, vejo similaridades e diferença até numa família e é isso é o mundo” 

Deve ser porque fui criada em escolhinha em ingles, depois o Lyceee Frances, com 12 na Argentina, 15 na Austalia, 19 em NY para faculdade, depois um ano na holanda para resolucao de conflito, depois mestrado e principio de doutorado na Inglaterra, pesquisa na Palestina e Israel. E já que todas as minhas viagens de verão acabaram sendo para a Ásia.

Tanto nos EUA, como no UK. Eles vendem summer camp e vc que é aluno mesmo tem no verão  uns 4 meses de férias. Ou seja, é tempo demais com chance demais de poder ir para outro lado. 

Também expliquei que meus pais são casados e acham que o mundo a cada dia esta pior para ter filho. Ou seja, nunca quiseram ter netos, aliás nem se meter em dar esse conselhos. Portanto cresci assim. Ninguém nunca falou de ser mãe , dona de casa , nem nada disso. 

 Ela naturalmente, sentiu-se confortável de me contar que tinha uma vida perfeita na Tailândia. Ela era instrutora de mergulho. O tempo era maravilhoso, e para renovar o visto tinha que fazer viagens ali pelo sudeste asiatico. 

Sua mãe mae a apoiava pois via que ela tinha se enfiado de tal forma no sistema que era presa, mas sua filha nao era, e nem devia ser. 

Conheci muitos pelo mundo que vivem assim, meio em transit, já instalados em outros países, de famílias pelo mundo e entendo que issso nos faz muito diferentes porque auqelas frases “Sinto tanta falta da comida da minha casa, o natal,que saudade do suco sei lá do que”Nunca passam na minha cabeça. 

A minha vida me fez assim, todas as pessoas que são parte da minha vida não estão no mesmo lugar.  
Minha amiga mais de infância, a Paula, sempre foi minha amiga assim. Sempre será. Sabendo que eu não moro aqui muito tempo. Sei que nos momentos cruciais independente do que passa na sua vida ela me liga, me visita e aparece até num país que estou. E eu ligo para ela.


Enfim, sei que foi assim, que quando o Temer entra, quando isso se instala eu prefiro cair fora do Brasil. Falei para o Andé que nunca tinha morado fora “Vamos mudar para o Irã?”E ele colocou na caixa de pandora de trabaho fora e disse que tudo bem podíamos ir.E nao é que eu tenho que estar no hospital e chegam possibilidades de emprego fora. 

Não tem Irã, mas das que tem, meu amorzinho me diz que eu que escolho. E eu escolhi o Peru, eu só conheço Cuzco e Machu Pichu e tem tanta coisa para aprender e ver.

O André me perguntou se ainda queria ir. E eu dentro do hospital comprei minha passagem para ir Birmânia  e disse para ele ir que iria quando voltasse.

 O André mudou para o Peru e eu fui para Birmania e agora só me falta esse resultado de exame. E na quarta eu descubro se tenho que tomar mais cortisona. Ou seja, pode ser que mais uma vez eu seja internada, prefiro que isso não aconteça  mas confesso que nem ligo muito porque eu me sinto muito bem, como da ultima vez e depois  então tomando ou nao tomando eu parto.

Agora na hora que saí de Mandalay, eu entrei num café e usei meu pouco burmes. Fiz as moças rirem. Tomei suco e tinha tanto dinheiro que tomei café expresso. Ouvi ocidentais falarem mal do café e achei que tudo era bom. 

Eu peguei todo meu resto de Kyat ( a moeda deles) e dei as  moças. Como sempre elas me disseram nao. E eu expliquei que eu estava indo embora e que eu nao ia agora voltar para Birmania.  Elas me agradeceram muito e eu fui embora. E quando estava lá na fila ouço meu nome.  “Julieta. Sua carteira.”

Na minha carteira não tinha dinheiro, nem cartão, só tinha papeis de anotações. Eu gostava dela porque eh minha simples carteira da Tailândia de anos e anos atrás. E essa moça cruzou aquele aeroportinho e foi me procurar por saber meu nome. 

Por saber que eu nem tinha ligado de dar todo o resto do meu dinheiro, que eu prefiri dar que comprar mil coisas , do que guardar para a volta, porque sabia que para eles era de fato mais útil. E não é que aquela moça pensou que eu deveria querer os meus pequenos recados, e a carteira. 

Essa é a Birmânia para mim. O país que me resgata sempre de perder qualquer coisa. O lugar onde as pessoas se esforçam para te trazerem o que mais tem valor para você a sua esperança na humanidade.

A genrente que me dá a Tamei de Chan, com o moço que dirige muito tempo para me dar meus óculos que eu esqueci. E que não aceita nada além de obrigada.


A minha Tailandia é Isaan, é Nong Khai, é a Mut Mee.  Eu até conheço todos os outros lados da Tailândia. Mas para mim a minha casa na Asia é lá. 

Na hora de ir embora Thia e Noy vem comido carregando a minha tralha para me dizer adeus. Para me dizer que me esperam nesse dezembro. A Yong me traz de presente um Tiger Balm feito pelos monges. 


É a Pao, o Julian, o Benny. As três irmãs da massagem. É o por do sol.

Vejo o melhor de mim e do mundo, por um mes, e o pior em um dia de volta. Tudo bem. Essa é a vida.  

Chego em casa e aqui está minha avó. Ansiosa mas que jamais pediria para alguém não ser quem é. E eu insisto para ela também andar. O que seria da minha vida sem a minha avó que não pede nada, que te ensina que dar significa se desvincular do que deu. Aceitar os outros como são. 

Ela resolveu comer pastel dos asiáticos daqui e não se esquece de levar para Netinha e Nininha. E eu quero tomar um expresso. Nós adoramos expresso aqui em casa sem açucar. Compro no aeroporto de  Bangkok, Abu Dhabi e Sao Paulo. Quando chego em casa eu nem acho bom o expresso daqui.

 

Vou com a  netinha no supermercado  e conto.
“Sabe que lá na Tailândia eles tomam café com gelo e leite de moça?”
“Nossa, e você toma esse?você que gosta de cafe forte e amargo?.”
“As vezes eu tomo, mas eu gosto do que o que eu inventei. Lá no Julian nao tem café expresso. Tem nescafé. Pó de chocolate, açucar, e chá de gengibre. E eu coloco tudo no meu cafe. Agua quente, café, chocolate, chá de ervas e muito gengibre e açucar.”

Pois é, sei que eu fui no supermercado e comprei nescafé que era contra minha filosofia de vida, um nescau, chá de gengibre mais gengibre puro porque imaginava que não se comparava e joguei açucar.

 Na hora que eu fiz todo mundo rir. Ainda mais na primeira tentativa com pimenta.

Mas na última eu me senti feliz. Pensei que a vida é assim tão impermanente. Que pode acolher tudo e nada ao mesmo tempo. Que aquelas memórias só ficam quando nos fechamos para o novo.

O resto é uma adequação do que temos para que fique o melhor que podemos. E no fundo nada disso nada mais é que ser aberto para o mundo. Nada mais é que aceitarmos que estamos em processo de construção .